Hugo Brito


Foto: Anna-M W./Pexels/Creative Commons

Outro dia assistia à minissérie Hebe e, em um dado momento, a espetacular Andrea Beltrão, que fez o papel da maior apresentadora que o Brasil já teve, aparece em uma cena onde interpretava Hebe dando uma entrevista para Jô Soares, falando sobre os artistas que passaram pelo programa dela.

Fiz, então, um link. Lembrei da intensa ligação entre a arte e a mídia, principalmente a de massa.

Hoje muito se fala das mídias digitais, que é por elas o caminho, etc, etc. Claro que não podemos negar a revolução que elas trouxeram, mas o sucesso avassalador, aquele em que todo mundo canta a música no banho, no qual o artista nem pode sair na rua, esse a mídia digital conseguiu fazer com poucos.

Show da Tarde, Big Ben, Programa do Interior

Lembrei do meu início de carreira na TV, mais ou menos uns 30 anos atrás. Na época trabalhava na TV Itapoan, ainda afiliada ao SBT, rede onde inclusive Hebe trabalhou na última etapa da sua vida.

Dei conta, então, da falta que faz hoje, aqui na Bahia, um programa de TV que mostre os artistas baianos para um grande número de pessoas. Foi no show da tarde que vi Margarete, Chiclete, Luís Caldas se tornarem pop.

Todos os dias havia programa, todos os dias os artistas da terra estavam na tela, baianos falando com baianos pela linguagem da arte. No auditório pessoas daqui mesmo, uma plateia com a cara da nossa Bahia.

Não era diferente no Programa do Interior, apresentado pelo saudoso Moraes Moreira. E o Big Ben? Esse eu ainda era menino mas é impossível não se lembrar do também saudoso Waldir Serrão colocando no ar a música da Bahia.

Rádio

Esse é hoje, pelo que vejo, o único meio que ainda impulsiona de alguma forma os artistas daqui, mas é fato, também já perde forças e se rende ao que vem de fora.

Nos programas de TV locais o que se vê hoje é apenas comportamento, personagens, buracos nas ruas, violência, filas e por aí vai. Arte? Próximo de zero, isso porque vez por outra aparece uma agenda, um flash, um sobe som aqui, uma banda para cantar na saída de intervalos acolá, mais ou menos como aquela música de elevador, que também só quem é mais antigo lembra, que entre um andar e outro a gente ouvia um trecho, assoviava e tchau, sem destaque.

A única exceção poderia se dizer que acontece na época de carnaval, mas também com figurinhas repetidas.

Enlatados

Essa falta de uma janela de massa local para a música de nossa terra, trouxe um enlatamento musical, especialmente dos jovens. Fora as músicas provenientes do pagodão, que foram aceitas pelas redes de TV, as músicas presentes nas festas e playlists dos jovens são, maciçamente, do sudeste ou do centro do Brasil – leia-se Goiânia. O funk carioca e o sertanejo goiano foram empurrados goela abaixo e são os líderes inegáveis.

O gosto musical vai, a cada dia, sendo mais e mais pasteurizado já que na mídia de massa só existe espaço para a música, com algum destaque, nos programas nacionais que massificam artistas de fora da nossa terra.

Alguém tem culpa?

Quando eu era garoto na TV se via um monte de enlatados. Grandes redes conseguiram fazer com que hoje a maior parte do que está no ar seja nacional.

Mas o que mudou de quando eu era moleque para o que vemos hoje é que antes padecíamos de uma exposição maciça a enlatados internacionais, mas as TVs locais conseguiam ter mais espaços para exibir a cultura da nossa terra. Hoje o enlatamento cultural é nacional, e o espaço para a cultura local quase inexiste.

O sucesso musical no Brasil se resume ao que vem do Rio de Janeiro, São Paulo e Goiânia. Na verdade, essa ditadura vai além da música e sufoca a cultura como um todo.

Mas vejam, amigos, não dá para culpar as emissoras locais por não exibirem a cultura local pois o espaço que sobra é pequeno e daí vence, é claro, a notícia. Falta um movimento nacional de impulso da cultura local, de presença dela no ar, não apenas para inglês ver.

Tem jeito?

Acho que não, até porque mostrar a cultura da Bahia na mídia tradicional de massa custa caro. Produzir com qualidade, mesmo com toda a evolução tecnológica, não é brincadeira e demanda dinheiro e coragem. Sim, amigos, coragem porque uma outra mazela que assola o nosso mercado cultural, o provincianismo por parte do empresariado que não aposta em patrocinar produções locais, acaba condenando elas a morrer à mingua ou se arrastar no ar, distantes anos luz das produções nacionais.

Diante disso tudo só nos resta mesmo continuar na luta no espaço digital, nos movimentos de resistência como o encabeçado pela Baiana System, o pagode baiano com o Harmonia como precursor, o rock de nossa terra e sua cena marcante com artistas como Pitty, o blues que resiste na linhagem Assmar, a música afro-baiana que trazem os tambores e as cores do Olodu, Ilê, entre outros, o nosso reggae do pai Edson Gomes, a música clássica baiana e sua Neojibá, nossa MPB e por aí vai. Porque, como disse outro dia um amigo meu – Tenison Del Rey – Rapaz, isso aqui é a Bahia.

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