Gina Marocci


Forte de São Marcelo - Foto: Wikimedia

A Cidade de São Salvador da Bahia de Todos os Santos nasceu em 1549, no reinado de D. João III, um novo período de colonização do Brasil após a implantação das capitanias hereditárias.

A Vila do Pereira, remanescente das ações de Francisco Pereira Coutinho, o único donatário da Capitania da Bahia, e dos indígenas sob o comando de Diogo Álvares Correia, o Caramuru, serviu de apoio aos colonos que vieram com Tomé de Souza, primeiro Governador-Geral do Brasil, principalmente no contato com os indígenas que habitavam o litoral.

Com Tomé de Souza vieram os jesuítas chefiados pelo padre Manoel da Nóbrega, primeiros religiosos católicos para evangelizar os ditos “povos bárbaros”.

Desde o início da sua construção, a cidade apresentou fragilidades para sua proteção e defesa: na Cidade Alta, os muros de taipa não resistiam bem às intempéries e aos avanços da ocupação com construções particulares em seu perímetro; na Cidade baixa, fortins, estâncias e plataformas necessitavam de constante manutenção.

Isto ficou evidente nos ataques dos ingleses, em 1587, dos franceses, em 1595, e dos holandeses, que aqui estiveram em 1599, 1604, 1624 e 1638.

De fato, a dimensão do litoral do Recôncavo Baiano e a extensão da orla marítima de Salvador, aliadas à carência de um sistema de defesa, comprometeram a segurança do nosso território e dos seus habitantes.

Com tamanha fragilidade, só clamando aos céus! E, na terra, confiar na força dos baluartes: as fortificações com seus canhões; as igrejas, com suas torres que ascendem a Deus. Ambas são sentinelas: uma olha o horizonte; a outra, contempla o infinito. Assim, elas foram instaladas em lugares estratégicos de acordo com seus objetivos, às vezes tão destoantes. Por que todas têm nomes de santos? Quem chegou primeiro, a força ou a fé? Quem é força, quem é fé? Quem atrai e quem afasta?

Nessas perguntas estão os caminhos de construção da cidade, não apenas no aspecto físico, mas espiritual e social. No silêncio da cidade que dorme, a força e a fé se revezam, são sentinelas...

O Cristianismo, representado pela Igreja Católica Apostólica Romana, tornou-se a religião obrigatória da colônia. A primeira igrejinha devotada à Nossa Senhora da Conceição foi erguida na estreita faixa de areia pelos primeiros colonos, sob as ordens de Tomé de Sousa. A ermida fez logo parceria com os baluartes da Ribeira das Naus para defendê-la dos corsários, aventureiros e contrabandistas que buscavam oportunidades na vasta costa atlântica brasileira.

O Forte da Laje, mais avançado sobre o mar, contemplava o mar e a terra e buscava a proteção daquela Senhora, cujas orações e cantos nela entoados acompanhavam a cadência do mar que quebrava na praia. 

Após a expulsão dos holandeses em 1625, ficou muito clara a fragilidade das defesas de Salvador, então, o governo tratou de reforçá-las em vários pontos.

O Forte de Nossa Senhora do Pópulo, mais conhecido como São Marcelo (que levou muitos anos para ser concluído), foi erguido sobre uma coroa de areia com forma circular, um “pan-óptico” que tudo vê, que tudo sabe, contempla a cidade sob os raios prateados da Lua e, ao entardecer, se despede do colorido da “franja da encosta cor de laranja, capim rosa-chá...”. Do outro lado, a Senhora aformoseou-se ao receber as ampliações e reformas barrocas da primeira metade do século XVIII.

No Porto da Barra, onde os holandeses haviam aportado em 1624, o Forte de Santo Antônio da Ponta do Padrão (Figura 3) não se mostrou eficiente no combate aos invasores, mas desde a sua primeira construção, no final do século XVI, serviu de vigia, assinalando as embarcações que vinham do Norte e ao disparar seus canhões, colocava em sobreaviso as guarnições, por isso era chamado de o Vigia da Barra (da entrada da Baía de Todos os Santos). E como vigia foi testemunha de muitos naufrágios, grandes tempestades e perdas de muitas vidas ao mar salgado com “lágrimas de Portugal”! Pois, “quantas mães choraram, quantos filhos rezaram, quantas noivas ficaram por casar, para que fosses nosso, ó mar!”

O doce canto das sereias não lhe chegava, mas o triste lamento dos pretos aprisionados nos navios da morte ecoava: saudade, saudade, saudade...Levado pela brisa do mar, fazia chorar o povo escravizado, que, em silêncio, rezava aos seus orixás nunca esquecidos.

Forte de Santo Antônio da Barra, planta desenhada pelo engenheiro militar José Antônio Caldas, 1759. Para dentro da Baía, na distante Península de Itapagipe, o Fortim de Nossa Senhora de Monserrate, considerado um dos mais antigos do Brasil, observava o horizonte e buscava sinais dos outros baluartes para, assim, agradecer às Senhoras de Monserrate, pelo dia tranquilo, e da Boa Viagem, porque foi vencido o Mar das Tormentas.

Muitas sentinelas tinha a cidade, todas elas imbuídas das suas obrigações de proteger o corpo e a alma dos soteropolitanos. Contudo, em muitos momentos, elas deixaram de lado seus princípios nobres e se tornaram lugar de segregação, preconceito e injustiça.

O que era fé tornou-se força para julgar e definir quem poderia entrar nos templos e mesmo quem poderia descansar para a eternidade sobre solo sagrado. Os excluídos, então, buscavam força em sua fé, mesmo impedidos de externá-las.

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Para saber mais

OLIVEIRA, Mário Mendonça de. As fortificações portuguesas de Salvador quando Cabeça do Brasil. Salvador: Omag G., Selo Editorial da Fundação Gregório de Mattos, 2004.

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