Gina Marocci

A famosa Baixa dos Sapateiros, eternizada na música de Ary Barroso, é uma via muito antiga da cidade do Salvador, portanto sua história é longa e cheia de altos e baixos.

Quando a cidade foi erguida, além da proteção das muralhas e portas, bem como da altura da escarpa ao Leste, havia o vale onde corria um rio e formava um pântano a Oeste.

O rio nascia nas terras do Mosteiro de São Bento, que tinha suas hortas na barroca, uma depressão do terreno que descia até o vale. Na invasão de 1624, os holandeses represaram o rio para ampliar as defesas da cidade.

A Planta da Restituição da Bahia, de João Teixeira Albernaz, publicada em 1631, mostra a dimensão do dique que se formou, que tinha como limite, à direita as hortas do mosteiro, como já foi falado.

Não se sabe por quanto tempo o rio foi represado, mas ele rapidamente sofreu a degradação ambiental por causa do mau uso, pois os soteropolitanos despejavam nele lixo e os restos dos animais abatidos nos matadouros, o que o fez ser batizado com o nome de Rio das Tripas.


Planta da Restituição da Bahia (Albernaz, 1631).

A ocupação do vale do Rio das Tripas foi rápida, principalmente com roças, mas também para retirada de madeira para construções da cidade, contudo era uma região pantanosa, que causava transtornos à população devido à quantidade de insetos e animais peçonhentos.

Além do mais, com o correr do tempo, o vale do rio tornou-se profundo e um empecilho ao acesso a trechos da segunda cumeada da cidade alta, ou seja, Saúde, Palma e Desterro e formava um largo pântano na Barroquinha.

No início do século XIX, o trecho entre o Taboão e a Barroquinha já havia se consolidado como a Rua da Lama, mas o nome mudou para Rua da Vala, em alusão ao lugar onde corria o rio, no qual se despejavam os esgotos domésticos e comerciais e todo tipo de resíduos.

Nela moravam artesãos sapateiros com suas lojas e artífices de outros ofícios e havia casas de pequeno comércio e residências.

Havia uma pequena igreja devotada a Nossa Senhora de Guadalupe (possivelmente erguida no século XVIII), onde hoje temos a Praça dos Veteranos, defronte ao Quartel do Corpo de Bombeiros. Em 1858, o governo da Bahia demoliu o que restava da pequena igreja para instalar um chafariz do Sistema do Queimado para fornecer água potável aos moradores da região.

Os males provocados pelas águas sujas do Rio das Tripas eram motivo de queixas constantes aos governantes, que sabiam que a única forma de resolver o problema seria cobrir o rio ou, então, canalizá-lo, o que começou a ser feito ainda na primeira metade do século XIX, obra realizada por um grande número de trabalhadores livres e escravos.

No mapa de Carlos Augusto Weyll, datado de 1851, assinalamos em vermelho uma parte da Rua da Vala, exatamente no trecho entre o Taboão e a Barroquinha, cuja localização era importante para a ligação do centro antigo com os novos bairros.


Trecho do Mapa Topográfico da Cidade do Salvador e seus Subúrbios (Weyll, 1851)

As obras de canalização da Rua da Vala sofreram um grande revés devido aos surtos de febre amarela - trazida por tripulantes de um navio negreiro norte-americano, em 1850, que deixou cerca três mil mortos apenas em Salvador - e de outras doenças endêmicas, como a febre tifoide e a varíola, mesmo já existindo a vacina da terrível bexiga.

Em 1855, a cólera, também trazida por tripulantes de um navio, atingiu as cidades do Recôncavo e Salvador e ceifou mais de 25 mil vidas. A essas enfermidades somavam-se outras, que também às vezes atingiam grande número de pessoas, como as chamadas febres intermitentes, como o paludismo, as catarrais, a tuberculose e o sarampo, que eram endêmicas em locais em que as condições sanitárias e de higiene inexistiam ou não eram adequadas.

O fato é que Salvador, ainda na segunda metade do século XIX, carecia de infraestrutura sanitária, poucas ruas possuíam esgotos e drenagem de água pluvial como, também, calçamento e coleta de lixo organizada.

As doenças, a falta de recursos humanos e financeiros, tudo isso fez a obra da Rua da Vala se estender por décadas, mas ao final do século XIX ela já estava concluída entre a Barroquinha e Sete Portas.

A pavimentação estava pronta para receber os trilhos dos bondes, para maior comodidade dos soteropolitanos. A Rua da Vala torna-se, então, um vetor de crescimento da cidade, pois possibilita o acesso a outros vales, em áreas ainda consideradas periféricas, como o Dique do Tororó e o Rio Vermelho, pela Estrada 2 de julho.


Parte final da Baixa dos Sapateiros, onde hoje há o Terminal do Aquidabã (1875).

Apesar de mapas do final do século XIX ainda registrarem a Rua da Vala, a Baixa dos Sapateiros já estava consolidada na voz do povo, por causa da aglomeração de tendas desses artífices e de lojas que vendiam couro e seus artefatos.

Casas ao rés do chão, geralmente com portas, o que as identificava como de uso comercial ou de serviço, caracterizavam-na, bem como lojas que ofereciam mercadorias com preços mais populares.

Nas duas primeiras décadas do século XX os bondes elétricos cortavam a rua e à noite eram recolhidos em barracões, um na ladeira de Sant’Ana e outro na Barroquinha.


Baixa dos Sapateiros em 1920

No início do século XX mudaram o seu nome para Avenida José Joaquim Seabra, em homenagem ao polêmico governador das reformas urbanas das duas primeiras décadas do mesmo século, mas, assim como em outros lugares da cidade, que receberam nomes oficiais, o povo continuou a chamá-la de Baixa dos Sapateiros.

O comércio popular sempre a caracterizou, como também o mercado de Santa Bárbara, que tem bares, salões de beleza, barbearias e lojas de miudezas, e tem o famoso caruru do dia 4 de dezembro, festa da santa tão querida pelos soteropolitanos. O asfalto só chegou em 1959, quando também foram retirados os trilhos de bonde.

Naquela época, o jornal A Tarde chamava-a de Avenida dos Pobres, com certeza devido ao perfil do público que a frequentava.

Até a década de 1980, a Baixa dos Sapateiros, considerada a primeira avenida de vale de Salvador, possuía um comércio forte e diversificado.

Atualmente, cerca de 40% das suas lojas estão fechadas, não apenas por conta da pandemia de Covid-19, mas devido à situação econômica do país desde a segunda década deste século.

No entanto, a charmosa Baixa dos Sapateiros ainda guarda um acervo arquitetônico do final do século XIX e do início do século XX, composto por sobrados de dois a três pavimentos, como, por exemplo, o Solar do Gravatá (século XVIII), que abriga a Casa de Angola, o Cine-Teatro Jandaia (1911), tombado pelo IPAC em 2015, e o Quartel do Corpo de Bombeiros (1917), também tombado pelo IPAC em 2010.


As arquiteturas da Baixa dos sapateiros (Google Street View)

Para os amantes da arquitetura, uma visita à Baixa dos Sapateiros é como viajar no tempo, pelo menos uns 200 anos, pois, por detrás dos letreiros coloridos e das portas de enrolar fechadas, ainda podemos ver os sorrisos das mulheres nas sacadas dos sobrados, e ouvir as palavras de ordem de cada mercador para atrair os fregueses.

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Para saber mais

LEAL, G. da C. Perfis urbanos da Bahia: os bondes, a demolição da Sé, o futebol e os galegos. Salvador: Santa Helena, 2002.

PINHEIRO, E. P. Europa, França e Bahia: difusão e adaptação de modelos urbanos (Paris, Rio de Janeiro e Salvador). Salvador: EDUFBA, 2002.

SAMPAIO, C. N. 50 anos de urbanização: Salvador da Bahia no século XIX. Rio de Janeiro: Versal, 2005.

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