Doris Pinheiro


Foto: Pixabay | Creative Commons

Eu fui uma menina que usou botas. Tinha as pernas tortinhas iguais à da minha mãe e usei muitos anos botas ortopédicas. Era um pouco chato, mas bem útil na hora de chutar as canelas dos meninos, especialmente de Tomás, que também usava botas e me chutava.

Não guardo birra de Tomás. Eram botadas justas de lado a lado, fruto do nosso conflito que eu nem me lembro porque acontecia. Eu até gostava dele. Sempre me dei bem com meninos.

Engraçado como uma palavra ou palavras que se parecem podem ser usadas com versatilidade. Comecei a falar de botas e de chutes para falar na verdade de botar ou “ser botada” em lugares que nem sempre concordo ou gosto e como isso pode acabar me levando a outro uso das palavras parecidas: desbotar.

Desbotar de perder a cor e desbotar de tirar de um lugar onde você foi botada, palavra que na verdade não existe, mas que cabe o uso aqui.

Recentemente tentaram me botar num lugar onde não aceitei e não aceito ficar. O lugar certo é meu por direito de muitas maneiras.

Fiquei muito magoada, sou uma pessoa sensível, e tenho um senso de justiça do qual me orgulho. Me orgulho também de, na grande maioria das vezes na minha vida, ter acertado o lugar e a forma com que me coloquei. Claro que errei várias vezes, mas na vida é assim mesmo.

Também me orgulho de ter um bem senso de onde colocar as pessoas, nos lugares de dentro e de fora do meu coração.

E aí no meio de uma destas madrugadas me veio à cabeça a palavra desbotar.

Desbotar inventado de tirar de um lugar onde algo ou alguém foi botado.

Desbotar de perder a cor, de ficar opaco, depois transparente, depois sumir, porque perdeu a importância.

Ver desbotar de perder a cor quando se relaciona com uma outra pessoa não é nunca uma coisa fácil, mas não acho que se possa ter muito controle sobre isso.

Na verdade acho que a gente não controla o que sente. Pode controlar as ações que porventura acontecerão pós-impacto do que gerou o que se sente.

Mas ninguém controla o sentimento que bate no peito.

E acho que também é bem difícil controlar este movimento de desbotamento que vai invadindo você quando alguém decepciona em uma coisa séria.

A pessoa desbota.

Onde a gente bota isso?

Colunas anteriores
Ver mais notícias desta seção: mais recentes · mais antigas