Alberto Oliveira

Estava eu em leito de hospital (estava), torcendo para não evoluir a leito de morte, e ouço uma conversa em que se desancava o capitalismo, mostrava-se como é nocivo, como oprime a classe trabalhadora e outras certezas do mesmo quilate.

Interessei-me, quis ver a imagem.

Eram dois ricos (muito ricos, imagino), esparramados em mansão europeia, taças de vinho à frente, bronzeando-se sob um sol capitalista (o estado febril impediu-me, infelizmente, de distinguir os rostos).

Daí em diante, não importa o que dissessem, o que eu ouvia era: "Vejam o sacrifício que estamos fazendo por vocês, classe operária, camponeses, para mostrar uma vida com a qual vocês não devem sonhar, porque é horrível. Vejam em nossos rostos a angústia, o desespero, o sofrimento que estamos passando".

Desconfio que a cena não era real.

Só pode ter sido um delírio, provocado pela agulha espetada em meu braço, de onde gotejavam antibióticos.

É.

Foi delírio.

Não pode ter sido real.

Mudando de assunto
("ou não", como diria Caetano, o Veloso)

Vários filósofos escreveram sobre hipocrisia, embora nem sempre usando exatamente essa palavra.

Alguns dos mais interessantes são:

Friedrich Nietzsche | criticou fortemente a falsa moralidade: pessoas ou sociedades que proclamam certos valores enquanto suas verdadeiras motivações são outras.

Em obras como Além do Bem e do Mal e Genealogia da Moral, ele investiga o que pode estar escondido por trás de discursos morais.

Jean-Jacques Rousseau | discutiu como a vida em sociedade pode levar as pessoas a parecer aquilo que não são, valorizando reputação e aparência em vez de autenticidade.

Søren Kierkegaard | criticou quem se dizia cristão apenas socialmente, mas não vivia de acordo com aquilo que afirmava acreditar.

É uma crítica à distância entre convicção declarada e comportamento.

Arthur Schopenhauer | escreveu bastante sobre egoísmo, vaidade e sobre como as pessoas podem esconder suas motivações por trás de justificativas aparentemente nobres.

Michel de Montaigne | refletiu sobre contradições humanas e sobre a diferença entre aquilo que mostramos aos outros e aquilo que realmente somos.

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