Chico Ribeiro Neto


Foto: David Clarke/Unsplash/Creative Commons

João Augusto, um dos fundadores e diretor do Teatro Vila Velha, com quem tive o orgulho de trabalhar como ator em “Cordel 1” e em outras peças, no final da década de 60, dizia sorrindo, com relação a Olga Maimone,  atriz e vidente que morava no teatro: “Olga não é gente, Olga é personagem”.

As ruas Gabriel Soares e Tuiuti, em Salvador, também tinham seus personagens.

Samir era um dos personagens da minha infância. Ex-lutador de boxe, aos 40 e poucos anos foi morar com a irmã na Rua Gabriel Soares. Cachimbo na boca, magrinho, passava o dia perambulando pelo bairro até que encontrava um dos meninos da rua que logo fazia movimentos de boxeador.

Era só a gente “fazer a guarda” que o rosto de Samir logo se iluminava e ele dava socos no ar, cada vez mais rápidos, como se nocauteasse seus fantasmas.

Naquela hora Samir voltava a ser feliz, sorria para nós e seguia em frente até que outro menino o abordasse: “Samir, como era a esquiva?”. E uma nova sucessão de golpes e gingados.

Diziam que Samir, que no final da carreira chegou a se apresentar num circo lutando com um canguru, ficou “meio variado” de tanto tomar murro na cabeça. Para nós, encontrá-lo era sempre uma alegria nas manhãs.

“Carestia” é o nome do vendedor ambulante que passava lá na rua todo dia, sempre às 14 horas, vendendo frutas e verduras num cesto enorme que levava na cabeça e duas sacolas nas mãos. Tinha de um tudo e seu nome já revelava o nível dos preços.

“Bolinho” era o nome do menino que vendia bolinhos redondos de tapioca, deliciosos. Quando conseguia vender tudo, encostava a bandeja e o pano que cobria os bolinhos e caía no baba com a gente. Nesse momento ele era pura felicidade.

Coitado do menino que não pagasse a “Bolinho”. Ele tinha uma tática inusitada e muito eficaz de cobrança: ia para a porta da casa do menino devedor e começava a gritar palavrões, os piores, até que o pai ou a mãe viesse à porta: “Ô meu filho, vê se para de xingar, o que é isso?” “Eu só paro de xingar quando seu filho me pagar os quatro bolinhos que me deve”. Num instante o dinheiro aparecia.

“Bandeira” era outro personagem. Empregado doméstico, lavador de carros, logo se enturmou com a gente jogando bola. Ele era louco por futebol, tinha um controle de bola incrível na roda do “salão”, mas quando a bola rolava era um desastre.

O sonho de “Bandeira” era jogar no Flamengo. Um dia a turma dos grandes fez uma armação: forjou uma carta do Flamengo, com escudo e tudo, convocando-o para se apresentar na Gávea dentro de 15 dias. “Já conhecemos seu belo futebol”, dizia a carta. “Bandeira” ficou entusiasmado, mostrou a carta a todo mundo, fez lista para arrecadar o dinheiro da passagem, até que o pessoal resolveu contar a verdade antes que ele viajasse.

“Tristeza” era o melhor goleiro da rua. O baba corria no paralelepípedo, bola no cantinho e “Tristeza” voava até lá. Se ralava todo, não tava nem aí, e conseguia pegar a bola. Só que não sorria, hora nenhuma. Na hora do par ou ímpar, quem ganhava escolhia logo “Tristeza”. Bem que o Bahia tá precisando de um “Tristeza”.

Mas foi com dos personagens lá da rua (cujo nome não posso revelar, pois hoje será certamente um respeitável avô) que aconteceu um caso curioso. Recém-ingressado no mundo do sexo pelas próprias mãos, ele procurou um da turma dos grandes para se aconselhar: “Rapaz, acertei uma mulher pra amanhã, ela cobra adiantado e disse que só vai se eu usar camisinha. Acontece que eu nunca usei essa zorra. Como é que coloca?” “Olha, você tem que cobrir o saco todo com a camisinha (não pode ficar nada de fora), porque aí comprime o saco, faz aquela pressão e não deixa sair o esperma, que é o que faz o filho na mulher”.

Ele foi na farmácia e comprou uma caixinha com três camisinhas. Naquele tempo, para comprar você tinha que ir até o balconista e perguntar: “Tem Jontex?”. A caixinha vinha embalada, igual ao Modess, absorvente feminino que era vendido já embrulhado.

No dia seguinte, o “conselheiro” perguntou: “E aí, como foi?” “Rapaz, foi um sofrimento. Resolvi ir colocar o diabo da camisinha no banheiro do hotel, pra já sair pronto. Quando eu conseguia botar uma banda do saco, a outra ficava de fora. Uma dor retada, eu nessa luta e a mulher começou a bater na porta do banheiro: “Ei, tá sentindo alguma coisa?” “Não, eu já vou. E já tentava colocar a segunda camisinha, pois a primeira partiu com o esforço que fiz. Rasguei as três e não consegui encaixar tudo. Acho que comprei muito pequena. Cansada da demora, a mulher se retou e foi embora”.

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