Chico Ribeiro Neto


Foto: Pixabay/Creative Commons

Sanitário de pensão era coletivo, pelo menos na Rua Gabriel Soares, 33, em Salvador. Não tinha negócio de entrar e trancar a porta, senão nego arrombava. Depois das 5h30/6 horas era o corre-corre. Todo mundo tinha aula praticamente no mesmo horário. Resultado: era um cagando, um escovando o dente e o outro tomando banho.

Eliseu, quando estava sentado no vaso e queria fazer força dizia: “Rapaz, ontem de noite comprei uma laranja na Praça da Sé mas tava azê-ê-ê-ê-ê-êda”, e aí fazia a força. Eliseu era terrível. Na hora do almoço, se você vacilasse ele colocava molho de pimenta no seu cafezinho.

Em bela crônica postada recentemente, meu amigo José Fernandes Pereira Filho lembra da belíssima vista da baía de Todos os Santos que tinha o banheiro do primeiro andar do casarão da Gabriel Soares. Ele morou lá quando a dona da pensão era dona Adelina, que sucedeu a minha mãe, dona Cleonice, na administração do 33 de muitas histórias.

Foi também no 33 que um hóspede fugiu descendo do seu quarto no primeiro andar  usando uma “tereza” (corda feita com lençóis amarrados). Deixou uma mala velha cheia de roupa velha e três meses de mensalidade vencida, além da “tereza” lá pendurada, que foi a atração da pensão nesse dia.

Eu tinha uns 9 ou 10 anos e minha mãe me botava com o telefone no ouvido para esperar o ruído de discagem. Quando aparecia aquele “tuimmm” era o grito “mamãe, corre que deu ruído”. Tinha que vir logo, porque o próximo ruído só dali a uns 20 ou 30 minutos. E eu lá de castigo com o “grambel” no ouvido.

Como não tinha freezer e as geladeiras eram muito precárias, minha mãe tinha um empregado, seu Luiz, para fazer feira todo dia no Largo 2 de Julho. Só de carne eram uns 4 ou 5 quilos por dia. Ele também encerava o assoalho da pensão com o pesado escovão. Um dia, meu irmão Cleomar viu seu Luiz numa discussão acirrada na rua, quase saindo na porrada com um cara, e chamou:

-- “Cleomar, me diga uma coisa: criatura é homem ou mulher?”

-- “Vale para os dois, por que?”

-- “Ah, porque esse cara me chamou de criatura e eu pensei que ele tava me chamando de mulher”.

-- “Não, seu Luiz, homem e mulher são criaturas de Deus”.

Outro dia, seu Luiz chegou da rua e disse à minha mãe, no salão cheio de gente almoçando: “Dona Cleonice, na padaria não tinha leite de moça, não”.

Morei também na pensão de dona Quinquinha, um casarão em frente ao Relógio de São Pedro. Uma loja embaixo, se não me engano A Suprema Móveis, e uma longa escadaria. Os quartos tinham amplas janelas que davam para aquela ruazinha hoje cheia de camelôs.

Foi num Carnaval que dona Quinquinha bateu na minha porta às 6 da manhã: “Francisco, me ajude aqui que tem um hóspede dormindo no sanitário”, o único da casa, com a porta aberta.

A velha acordou e se deparou com o quadro: bêbado, de calça arriada, o cara dormia no vaso com as duas mãos no queixo. Fui lá acordar o folião que, morto de vergonha de dona Quinquinha, logo se picou para o quarto.

Tinha pensão em que a dona botava corrente e cadeado na geladeira durante a noite. Por não fazer isso, uma dona de pensão no interior se deu mal.

Paulo, um amigo meu, era vendedor de um laboratório de produtos veterinários e marcou um encontro numa pequena cidade com outros vendedores para comemorar as boas vendas na região.

Os cinco chegaram na pensão umas 12 horas, deixaram as malas e correram para o bar. Tomaram todas e no final o bar só tinha tira-gosto de bolacha cream-cracker. Depois de várias saideiras, mortos de fome, chegaram na pensão às 11 da noite, todo mundo já dormindo. O jeito era beber água e ir dormir também.

Que felicidade! Um peru assado, inteirinho, brilhava dentro da geladeira. Levaram o peru para o quarto e meia hora depois só tinha os ossos.

Acordaram com os gritos da dona da pensão, às 6 da manhã: “Desgraçados, desgraçados!”.

Era o peru do bispo, que ia passar na cidade naquele dia para fazer uns batizados e ia almoçar na pensão. E é um acontecimento, porque bispo só passa em cidade pequena “de caju em caju”.

Foram expulsos da pensão imediatamente e tiveram que pagar o peru e as diárias, sem café da manhã.

Perto da pensão, na pracinha da igreja, um cachorro furou o saco plástico e se refastelou com os ossos do peru. Sabia que outro banquete desse só na próxima visita do bispo, que ninguém sabe quando será.

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