Chico Ribeiro Neto

Naquele tempo a mesa era farta. Em Ipiaú, na casa de meu avô Chico Ribeiro, um pequeno comerciante de tecidos (tinha a Casa São Roque), sempre tinha dois tipos de carne no almoço e na janta: bife e ensopado, por exemplo, ou então um tipo de carne e galinha assada. Eu gostava do cheiro da despensa.

Muitas coisas não eram compradas a quilo: era a saca de feijão e de arroz. Na despensa ficavam pendurados aqueles pedaços de carne de sertão (charque) e linguiças, êta cheiro bom retado. Quando você parava de comer, vovô ainda botava mais uma carne no seu prato: “Toma aqui, você não comeu quase nada”.

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Na Rua 2 de Julho, onde a gente morava, as belas capas das revistas “Manchete” e “O Cruzeiro” na porta da livraria de Seu Cardoso, a única da cidade. Eu gostava de cheirar as revistas novas. Meu amigo Netinho de Caculé, já adulto, costumava dizer quando via uma mulher boa: “Essa daí é capa de Manchete”.

De vez em quando eu ganhava uma revista de Roy Rogers ou do Gato Félix. Os jornais diários só chegavam no dia seguinte, quando chegavam. A porta da livraria era sempre um lugar de bate-papo e Seu Cardoso, sempre calmo, ouvia de tudo, não discordava de nada e a todos atendia com presteza.

Já adolescente, ganhei do meu avô Chico Ribeiro um exemplar da edição extra de “O Cruzeiro” sobre a morte de Getúlio Vargas e a situação política do país, um importante documento histórico. Mais tarde, emprestei a revista a um amigo professor de História – “vou mostrar na sala de aula” – que nunca mais a devolveu. Anos depois de surrupiar minha revista ele ingressou na politica e chegou a trabalhar como assessor do governador Orestes Quércia, de São Paulo.

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Lembro do “areião” formado no Rio de Contas. Dava pra jogar time de 11 contra 11 e as mulheres de maiô tiravam nossa atenção da bola. Depois do baba, um delicioso mergulho nas então limpas águas do Rio de Contas.

O escritor e jornalista José Américo Castro conta um curioso episódio protagonizado por Edinho Thiara, filho de José Thiara, um dos mais ricos fazendeiros de cacau da região: “Certa vez, durante uma farra no Restaurante Galo Vermelho, Edinho atirou um relógio (marca Rolex) de ouro nas águas do Rio de Contas, só para testar o fôlego de alguns mergulhadores. Quem achasse ficava com o precioso objeto. Ninguém teve essa sorte, nem mesmo o lendário Cassiano, senhor das profundezas”. (“Portas do Éden – A poética de José Américo Castro e o Imaginário Coletivo de Ipiaú”, organizado por Paulo Andrade Magalhães).

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Tia Nina, filha de Maria (a Congregação Mariana) com aquela fita vermelha no peito e o olhar compungido. Era irmã de vovô, ficou viúva e foi morar com ele.

Se Tia Nina tinha certeza de que ia pro céu quando morresse não sei por que ela se queixava tanto da vida. Tinha mania de dizer “não dormi nada essa noite”, mas roncava a noite toda. E de doença? Vixe! Tudo de que você falava ela já sentiu ou estava prestes a sentir. Comia bem, até aquele tiquinho de arroz que ficava no canto do prato ela amassava tudo com o garfo. Não sobrava nada, o prato ficava limpinho. Mas se queixava: “Não estou comendo nada, meu filho”. Queixar-se era também uma devoção.

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Um dia, Tio Rubens levou uma folhinha para Tia Nina. Como ela era bem míope e só usava óculos à noite para ler o Missal, acreditou que as 12 imagens da folhinha eram de santas. E Tio Rubens mostrava, passando as folhas: “Essa é Santa Rita de Cássia, essa é Santa Luzia...”, uma santa para cada mês do ano. Acabou ajudando Tia Nina a pregar a folhinha na cabeceira da cama.

Às 8 da noite Tia Nina, já paramentada, botou os óculos “fundo de garrafa” e foi rezar junto às 12 santas. “Que horror!” Eram 12 mulheres de calcinha e peitos de fora, folhinha de borracharia.

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Tia Nina na igreja era um brigueiro só no meio das beatas. Quem vai botar as flores no altar-mor? Quem vai sair na frente da procissão ao lado do padre? Quem é que vai fazer a janta do bispo? Tudo era resolvido com muita devoção e pirraça.

Acho que Tia Nina já chegou no céu reclamando de tudo: “Esse tapete aqui na porta vai acabar derrubando uma pessoa”.

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