José Grimaldi

Este fato é absolutamente verídico e a narrativa zela pelo anonimato dos personagens.

Um sujeito foi visitar um padre que se encontrava hospitalizado. A gentil visita se dava, aparentemente, em razão da dificuldade de saúde do vigário, que já passava dos noventa anos de idade, mas estava em boa recuperação, preservando toda a sua lucidez, sabedoria e inteligência.

A intelectualidade, que sempre foi um fato marcante no meio do clero, ajudava sobremaneira à manutenção dos bons níveis de clareza
mental do paciente.

O visitante, sempre cordial, fez-se notar aos demais presentes pela sua fluência e domínio dos assuntos. As gentilezas tornavam o ambiente mais saudável.

Paradoxalmente, parecendo até que fazia a visita com um objetivo definido, o cidadão, sem que ninguém esperasse, quebrou o protocolo e dirigiu-se ao padre com uma pergunta áspera:

-- Reverendo tenho vontade de voltar a freqüentar a Igreja, mas duas dúvidas me afligem!

-- Quais são as suas dúvidas, caro amigo?

-- Padre, a primeira questão é sobre a minha fé. Ainda não estou na plenitude da minha convicção cristã. A segunda dúvida que tenho é porque eu soube que o senhor tem dois filhos.

-- Veja bem companheiro, os dois pontos precisam ser tratados isoladamente e com muita responsabilidade. Com relação à sua fé, somente você é que poderá concluir. Entendo e dou razão aos seus cuidados. Só volte à Igreja com plena convicção. Com relação ao segundo dilema, ou seja, os dois meninos, este assunto compete exclusivamente a mim e à sua mãe.

Sem mais nada a dizer, o indelicado engoliu seco, pegou seus pertences e partiu, deixando os demais presentes estonteados, mas ao mesmo tempo satisfeitos com a resposta do vigário.

Nada mais foi dito e nada mais foi perguntado.

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