Cinema

Atores e roteiros feitos por IA são proibidos de concorrer ao Oscar

A medida responde ao avanço da inteligência artificial generativa no cinema

Foto: Divulgação
Tilly Norwood, atriz gerada por Inteligência Artificial
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A Academia definiu que apenas atuações humanas e roteiros com autoria humana poderão disputar o Oscar. A regra vale para o 99º Oscar, em 2027, e permite análise do uso de IA caso a caso, sem proibir totalmente ferramentas digitais na produção.

A Academia de Artes e Ciências Cinematográficas aprovou novas regras para o 99º Oscar e definiu que apenas atuações realizadas por seres humanos, com consentimento e crédito formal no filme, poderão disputar as categorias de atuação.

A decisão também estabelece que roteiros concorrentes devem ter autoria humana.

As mudanças foram anunciadas nesta sexta-feira, 1º de maio de 2026, em Los Angeles, e valerão para os filmes elegíveis ao Oscar de 2027. Segundo a Academia, longas precisam ter estreia qualificatória entre 1º de janeiro e 31 de dezembro de 2026.

A medida responde ao avanço da inteligência artificial generativa no cinema e à preocupação de artistas, sindicatos e estúdios com o uso de vozes, imagens e textos criados por sistemas automatizados.

A decisão ocorre em meio ao debate sobre criações sintéticas, como a atriz gerada por IA Tilly Norwood, e ao receio de substituição de profissionais humanos.

A Academia não fechou a porta para o uso de IA em processos de produção, como efeitos visuais, apoio técnico ou outras etapas. O ponto central da nova regra é outro: o reconhecimento competitivo nas categorias de atuação e roteiro deve partir de trabalho humano verificável.

Outras mudanças no Oscar

O pacote de regras também permite que atores sejam indicados mais de uma vez na mesma categoria, desde que diferentes performances fiquem entre as cinco mais votadas. Antes, a disputa interna entre papéis de um mesmo artista podia limitar a presença de múltiplas atuações na lista final.

A categoria de Filme Internacional também foi alterada. Além da inscrição oficial feita por países ou regiões, filmes em língua não inglesa poderão se qualificar ao vencer prêmios específicos em festivais como Cannes, Berlim, Veneza, Toronto, Sundance e Busan. A Academia informou ainda que o filme, e não o país, será creditado como indicado.

Com as novas regras, o Oscar tenta adaptar sua premiação a uma indústria em transformação. A decisão preserva espaço para ferramentas digitais, mas reforça que autoria, interpretação e consentimento continuam no centro das categorias criativas.

Estrela digital

A atriz gerada por inteligência artificial Tilly Norwood virou símbolo da disputa sobre o uso de personagens sintéticos em Hollywood. Criada pela Xicoia, estúdio de talentos de IA ligado à Particle6, a personagem foi apresentada como uma “estrela digital” para atuar em produções audiovisuais, mas provocou forte reação de atores, sindicatos e parte da indústria cinematográfica.

O caso ganhou repercussão após a divulgação de que agentes de talentos estariam interessados em representar Tilly. A possibilidade de uma personagem artificial ocupar espaço normalmente reservado a artistas humanos ampliou o debate sobre direitos de imagem, remuneração, consentimento e substituição de trabalhadores no cinema.

Tilly Norwood não é uma pessoa. É uma personagem criada por ferramentas de inteligência artificial generativa, tecnologia capaz de produzir imagens, vídeos, vozes e textos a partir de comandos e bases de dados. A personagem foi associada ao curta “AI Commissioner” e a conteúdos digitais usados para demonstrar o potencial de atores sintéticos.

A criadora do projeto é Eline Van der Velden, atriz e produtora holandesa que fundou a Particle6. Ela defende que Tilly é uma obra criativa, não uma substituta direta de artistas humanos. Após a reação negativa, Van der Velden afirmou que a personagem deveria ser vista como uma nova ferramenta de criação, comparável a recursos como animação e efeitos visuais.

A reação da indústria

A resposta mais dura veio do SAG-AFTRA, sindicato que representa atores e profissionais de mídia nos Estados Unidos. A entidade afirmou que Tilly Norwood “não é um ator”, mas uma personagem gerada por computador, e criticou o uso de sistemas treinados com trabalhos de intérpretes profissionais sem consentimento ou compensação.

Atores como Emily Blunt também se manifestaram contra a normalização de “atores” artificiais. A crítica central é que personagens de IA podem reduzir oportunidades para profissionais reais, sobretudo em produções de menor orçamento ou em trabalhos de imagem, voz e publicidade.

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Foram usadas IAs na elaboração da reportagem