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Entenda como a crise bancária no Paraguai afeta famílias brasileiras

Banco com cerca de 3 milhões de clientes sofre intervenção, provoca crise política e coloca correntistas e investidores em alerta

Brasileiros que mantêm contas bancárias, investimentos ou negócios no Paraguai estão entre os grupos afetados pela crise do Ueno Bank, instituição financeira que atendia cerca de 3 milhões de clientes e teve suas operações interrompidas pelas autoridades paraguaias.

O colapso do banco bloqueou o acesso de correntistas ao dinheiro, provocou instabilidade no mercado financeiro e desencadeou uma crise política que levou o presidente Santiago Peña a oferecer sua renúncia nessa quinta-feira (5 de novembro). O Congresso rejeitou o pedido e avançou com o processo de impeachment.

Para os brasileiros, a principal preocupação é saber se os recursos depositados no banco poderão ser recuperados e quais consequências a crise poderá trazer para empresas, investimentos e relações comerciais com o país vizinho.

O Paraguai se tornou um destino importante de capitais brasileiros, especialmente em atividades industriais, comerciais e agropecuárias. A instabilidade financeira pode aumentar a cautela dos investidores e dificultar operações de empresas que dependem de instituições financeiras paraguaias.

O impacto mais imediato está concentrado nos clientes do Ueno Bank, que perderam temporariamente o acesso às contas. Mas as consequências podem alcançar outros setores da economia, especialmente se a crise comprometer a confiança no sistema financeiro paraguaio. Ainda não há dados consolidados sobre quantos brasileiros foram diretamente atingidos nem sobre o valor de eventuais prejuízos.

Brasileiros podem perder o dinheiro depositado no banco?

A resposta depende do valor depositado, do tipo de aplicação e das regras de proteção financeira do Paraguai. O país possui um Fundo de Garantia de Depósitos (FGD), mecanismo semelhante, em sua finalidade, ao Fundo Garantidor de Créditos (FGC) brasileiro. Ele é utilizado para proteger os clientes quando um banco não consegue cumprir suas obrigações.

Segundo o Banco Central do Paraguai, os depósitos cobertos possuem garantia de até 75 salários mínimos paraguaios, equivalentes a 228,3 milhões de guaranis (cerca de R$ 200 mil) por depositante e por instituição financeira. Isso significa que o limite não é multiplicado pelo número de contas mantidas no mesmo banco.

A proteção, entretanto, não significa que todos os clientes receberão imediatamente a totalidade do dinheiro. A restituição depende de procedimentos administrativos, da identificação dos titulares e das condições estabelecidas pelas autoridades paraguaias.

Para reduzir os efeitos da crise, o Banco Central anunciou pagamentos antecipados aos depositantes. Em 5 de novembro, a instituição informou que a primeira etapa atenderia clientes com depósitos de até 10 milhões de guaranis (cerca de R$ 9 mil), sem dívidas com o Ueno e com contas habilitadas em outras instituições financeiras paraguaias. Os demais grupos seriam contemplados conforme o avanço do processo.

No caso dos brasileiros, é necessário distinguir duas situações. Quem reside no Paraguai e utiliza o banco para receber salários, pagar fornecedores ou movimentar recursos pode enfrentar dificuldades imediatas. Já os brasileiros que vivem no Brasil, mas mantêm depósitos ou investimentos na instituição, precisam verificar as condições específicas de acesso à garantia e de recebimento dos valores.

A nacionalidade brasileira, isoladamente, não significa que o cliente esteja excluído da proteção paraguaia. Entretanto, as informações oficiais consultadas não esclarecem todos os procedimentos aplicáveis a correntistas não residentes. Também não há fundamento para presumir que o FGC brasileiro cubra depósitos realizados diretamente no Ueno Bank.

Empresas brasileiras também podem ser afetadas

A crise não se limita às pessoas físicas. Empresas brasileiras instaladas no Paraguai, ou que mantêm relações comerciais com companhias paraguaias, podem enfrentar dificuldades se seus parceiros tiverem recursos bloqueados ou perderem acesso ao crédito.

Imagine uma indústria brasileira que mantém uma unidade produtiva no Paraguai. Mesmo que não seja cliente do Ueno Bank, ela poderá enfrentar atrasos se um fornecedor utilizar a instituição para receber pagamentos ou financiar suas operações. O mesmo pode ocorrer com empresas que vendem produtos a clientes paraguaios e dependem da capacidade financeira desses compradores.

Outro possível efeito está relacionado ao custo do crédito. Quando uma instituição financeira importante entra em colapso, outros bancos podem adotar critérios mais rigorosos para conceder empréstimos, especialmente se houver dúvidas sobre a situação do setor.

Esse cenário tende a preocupar investidores brasileiros porque o Paraguai atrai capital estrangeiro em atividades produtivas e comerciais. Segundo a Reuters, a crise ameaça a reputação financeira que ajudou o país a se consolidar como destino de investimentos, muitos deles provenientes do Brasil.

Isso não significa, porém, que empresas brasileiras estejam sofrendo perdas generalizadas. Para avaliar o impacto real, será necessário identificar quais negócios mantinham recursos no Ueno, quais dependiam de financiamentos da instituição e como o restante do sistema bancário reagirá.

Comércio na fronteira pode sentir os efeitos

A preocupação também alcança cidades brasileiras que mantêm intensa circulação de pessoas, mercadorias e dinheiro com o Paraguai.

Em Foz do Iguaçu, no Paraná, e Ponta Porã, em Mato Grosso do Sul, por exemplo, a atividade econômica está ligada ao comércio e aos serviços prestados a consumidores e empresas dos dois países. Problemas de liquidez, isto é, falta de dinheiro imediatamente disponível, podem dificultar pagamentos e reduzir temporariamente a capacidade de consumo de clientes atingidos.

Um comerciante paraguaio que não consegue movimentar sua conta bancária pode adiar compras de fornecedores brasileiros. Da mesma forma, consumidores com recursos bloqueados podem reduzir gastos até que a situação seja regularizada.

Há ainda o fator cambial. A instabilidade política e financeira pode provocar oscilações na cotação do guarani, alterando o custo relativo das mercadorias e influenciando decisões de compra e venda entre os dois países.

Esses são mecanismos possíveis de transmissão da crise, não perdas já comprovadas. Até o momento, não há levantamento consolidado que permita medir uma eventual redução nas vendas ou no movimento comercial das cidades fronteiriças brasileiras.

O que aconteceu com o Ueno Bank?

Para entender a dimensão do problema, é preciso conhecer o funcionamento de um banco.

Quando uma pessoa deposita dinheiro em uma instituição financeira, o banco pode utilizar parte desses recursos para conceder empréstimos. Em troca, recebe juros. Para que esse sistema funcione, a instituição precisa avaliar adequadamente os riscos, manter reservas e possuir capital suficiente para absorver eventuais prejuízos.

No caso do Ueno Bank, a fiscalização identificou problemas relacionados à capacidade financeira da instituição e a operações de crédito com empresas vinculadas ao grupo controlador.

Em 2 de novembro, o Banco Central do Paraguai decidiu iniciar o procedimento de resolução do banco, anunciado publicamente no dia seguinte. A autoridade constatou que o índice de solvência da instituição havia caído para menos de 50% do mínimo exigido.

Solvência é a capacidade de uma instituição de suportar perdas e continuar cumprindo suas obrigações. Quando esse indicador cai abaixo dos limites legais, significa que o banco já não apresenta as condições financeiras exigidas para funcionar normalmente.

A investigação apontou operações de crédito com empresas relacionadas ao grupo proprietário, além de problemas na documentação e na avaliação de determinados ativos. Esses fatores contribuíram para a deterioração da situação financeira do banco.

O Ueno havia crescido rapidamente, passando de uma instituição financeira de menor porte para um banco com aproximadamente 3 milhões de clientes. Também administrava cerca de US$ 850 milhões em recursos públicos, incluindo depósitos relacionados ao sistema previdenciário paraguaio.

A combinação de crescimento acelerado, exposição a empresas relacionadas e fragilidade financeira colocou a instituição no centro de uma crise que ultrapassou o setor bancário.

Por que a crise atingiu o presidente do Paraguai?

A dimensão política do escândalo está relacionada às antigas ligações empresariais de Santiago Peña com o grupo controlador do Ueno Bank.

Peña, que assumiu a Presidência do Paraguai em 2023, manteve participação empresarial ligada ao grupo proprietário da instituição até março de 2025. O fato passou a ser questionado depois que a fiscalização identificou problemas financeiros no banco e vieram à tona informações sobre o volume de recursos públicos administrados pela instituição.

Parlamentares acusaram o presidente de conflito de interesses, possível uso indevido de recursos previdenciários e omissão diante de irregularidades. As acusações deram origem a uma iniciativa de impeachment.

A pressão aumentou quando Carlos Carvallo, presidente do Banco Central paraguaio, apresentou sua renúncia a pedido de Peña, em 3 de novembro. Carvallo havia dirigido o Ueno antes de assumir o comando da autoridade monetária, circunstância que intensificou os questionamentos sobre a independência da fiscalização.

Na quinta-feira (5), Peña ofereceu sua renúncia, afirmando que pretendia preservar a estabilidade institucional. O Congresso, entretanto, rejeitou a oferta, enquanto avançava o processo de impeachment. O episódio abriu uma nova fase de incerteza política, com investigações sobre possíveis responsabilidades na crise bancária.

É importante destacar que a existência de relações empresariais anteriores e de acusações políticas não constitui, por si só, prova de participação do presidente em crimes financeiros. As responsabilidades individuais dependem das investigações e dos procedimentos legais.

A crise ameaça os bancos brasileiros?

Até agora, não há evidências verificadas de que o colapso do Ueno Bank represente uma ameaça generalizada ao sistema bancário brasileiro.

O fato de um banco paraguaio entrar em processo de resolução não significa que instituições brasileiras estejam expostas ao mesmo problema. Para avaliar a possibilidade de contágio financeiro, seria necessário identificar empréstimos, investimentos ou outras operações capazes de transmitir perdas relevantes entre os dois sistemas.

O Banco Central do Paraguai classificou o caso como isolado e afirmou que o procedimento de resolução busca preservar a estabilidade financeira do país. Essa avaliação, entretanto, não elimina a necessidade de acompanhar os desdobramentos da crise.

Para brasileiros sem depósitos, investimentos ou relações comerciais relevantes no Paraguai, não há indicação de impacto financeiro direto decorrente da intervenção no Ueno Bank.

A situação é diferente para quem possui recursos na instituição ou depende economicamente de clientes e empresas atingidos. Nesses casos, os efeitos podem ser concretos, mesmo que a crise não se espalhe para outros bancos.

O que os brasileiros afetados devem fazer?

Quem mantém dinheiro no Ueno Bank deve acompanhar diretamente os comunicados do Banco Central do Paraguai e conservar os documentos que comprovem a titularidade e os valores depositados.

Orientações para clientes do Ueno Bank

Consulte o sistema oficial de pagamentos. O Banco Central disponibilizou uma página para informar o andamento da restituição e a instituição responsável por receber os valores.

Guarde comprovantes. Extratos bancários, contratos, comprovantes de transferências e documentos de identificação podem ser necessários para esclarecer divergências.

Verifique o limite de cobertura. O teto geral informado é de 228,3 milhões de guaranis por depositante e por instituição, observadas as condições legais.

Não interrompa pagamentos de empréstimos por conta própria. Dívidas com o banco podem ser compensadas com depósitos ou transferidas para outra instituição durante a resolução.

Desconfie de mensagens que prometam liberar dinheiro mediante pagamento. Não forneça senhas, códigos de autenticação ou informações bancárias por canais não verificados.

Consulte pagamentos no Banco Central do Paraguai Orientações baseadas nas informações oficiais do Banco Central do Paraguai, consultadas em 6 de novembro de 2026.

O órgão regulador também informou que os clientes podem consultar qual instituição foi designada para receber o pagamento da garantia, sem depender exclusivamente de mensagens enviadas por correio eletrônico.

Para brasileiros que residem no Brasil e não possuem outra conta bancária paraguaia, permanece necessário confirmar o procedimento específico de recebimento. O Banco Central informou anteriormente que poderia abrir contas em outras instituições para determinados beneficiários, mas isso não esclarece integralmente as exigências aplicáveis a não residentes.

O que esperar dos próximos dias?

A crise do Ueno Bank coloca o Paraguai diante de dois desafios. O primeiro é financeiro: devolver os recursos protegidos aos depositantes, apurar a situação patrimonial do banco e identificar eventuais irregularidades. O segundo é político: esclarecer as responsabilidades de autoridades e dirigentes e resolver o impasse envolvendo a Presidência da República.

Para os brasileiros, a evolução mais importante será a normalização dos pagamentos e a preservação das relações econômicas entre os dois países.

O impacto dependerá principalmente da quantidade de brasileiros com recursos na instituição, da capacidade das autoridades paraguaias de cumprir o calendário de restituição e da extensão dos problemas para outras atividades financeiras.

Até que essas informações estejam disponíveis, é necessário distinguir os prejuízos já identificados entre clientes do Ueno Bank dos riscos que a crise poderá representar para empresas, investidores e comerciantes brasileiros.

A quebra de confiança em uma instituição financeira de grande alcance pode provocar consequências que ultrapassam suas agências. No caso do Paraguai, a preocupação brasileira não se resume ao destino político de Santiago Peña, mas envolve a segurança do dinheiro, a continuidade dos negócios e a estabilidade econômica de um importante parceiro regional.