
Os canudos de papel, adotados como alternativa aos descartáveis de plástico, podem causar impactos ambientais maiores em determinadas categorias. É o que aponta um estudo encomendado pelo governo da Coreia do Sul, que comparou quatro tipos de materiais e concluiu que o plástico convencional apresentou os menores impactos em dez dos 16 indicadores analisados.
A pesquisa foi realizada entre maio de 2025 e abril de 2026 pela Sociedade Coreana de Avaliação do Ciclo de Vida, a pedido do Ministério do Clima, Energia e Meio Ambiente da Coreia do Sul. Os resultados foram divulgados em outubro de 2026.
Entre os indicadores em que o plástico convencional apresentou melhor desempenho estão os relacionados às mudanças climáticas, à toxicidade humana e à emissão de material particulado, associado à poluição atmosférica.
O levantamento coloca em discussão a ideia de que a substituição do plástico por materiais de origem renovável representa, necessariamente, uma redução dos impactos ambientais. Os resultados, entretanto, não significam que os canudos de plástico sejam mais sustentáveis em todas as circunstâncias.
Maior impacto em indicadores de toxicidade
Uma das diferenças mais expressivas identificadas pela pesquisa está relacionada ao potencial de impacto de substâncias cancerígenas ao longo do ciclo de vida dos produtos.
Nesse indicador, os canudos de papel apresentaram resultado 6,33 vezes superior ao dos canudos de plástico convencional. Na categoria de acidificação ambiental, o impacto foi 2,04 vezes maior.
A acidificação está associada a processos que alteram as condições químicas de ambientes naturais, como solos e corpos d'água, podendo comprometer ecossistemas.
Os indicadores de toxicidade, porém, exigem uma interpretação cuidadosa. O resultado não significa que uma pessoa que utiliza canudos de papel tenha risco de desenvolver câncer 6,33 vezes maior. A comparação refere-se ao potencial de impacto ambiental calculado para os materiais, e não à exposição direta dos consumidores ou à probabilidade individual de adoecimento.
A pesquisa identificou resultados desfavoráveis também para alternativas fabricadas com matérias-primas de origem renovável.
Os canudos produzidos com polietileno de origem vegetal, conhecido como bio-PE, apresentaram potencial de impacto cancerígeno 16,18 vezes superior ao do plástico convencional. Na categoria de acidificação, o resultado foi 5,90 vezes maior.
Já os canudos de plástico biodegradável registraram indicadores 3,34 vezes maiores para potencial de impacto cancerígeno e 1,98 vez maior para acidificação.
Os números reforçam a importância de avaliar os efeitos ambientais de cada produto em diferentes etapas, em vez de considerar apenas a origem de sua matéria-prima.
Como foi realizada a pesquisa
O estudo utilizou uma abordagem de avaliação do ciclo de vida, metodologia que examina os impactos ambientais associados às diferentes etapas de existência de um produto, desde a obtenção das matérias-primas até o descarte.
Para calcular os resultados, os pesquisadores adotaram premissas sobre o destino dos resíduos na Coreia do Sul. O modelo considerou que 73,6% dos canudos descartados seriam incinerados e 26,4% encaminhados a aterros sanitários.
Essas condições são importantes para interpretar os resultados. O impacto ambiental de um material pode variar conforme a matriz energética utilizada em sua fabricação, os processos industriais, a infraestrutura de tratamento de resíduos e o destino final dos produtos.
Assim, os resultados obtidos para as condições consideradas na Coreia do Sul não podem ser automaticamente aplicados a outros países, como o Brasil, que possuem sistemas distintos de coleta e destinação de resíduos.
Reciclagem é outro desafio para os canudos descartáveis
A pesquisa também chama a atenção para as dificuldades de reciclagem dos canudos.
Devido às pequenas dimensões, esses produtos podem escapar dos equipamentos utilizados na separação de resíduos, dificultando sua recuperação e seu reaproveitamento.
O problema não se restringe aos canudos de papel. Produtos descartáveis de diferentes materiais podem enfrentar obstáculos semelhantes nos sistemas de triagem.
Isso significa que a possibilidade técnica de reciclar determinado material não garante que ele será efetivamente recuperado depois do consumo.
Afinal, qual canudo é mais sustentável?
A pesquisa indica que o plástico convencional pode apresentar vantagens ambientais em determinadas categorias, mas não estabelece sua superioridade absoluta em relação aos demais materiais.
A análise de sustentabilidade precisa considerar fatores como consumo de energia, utilização de recursos naturais, emissões, geração de resíduos, persistência dos materiais no ambiente e consequências do descarte inadequado.
No caso dos plásticos convencionais, questões como a permanência dos resíduos na natureza e a formação de microplásticos continuam relevantes para a avaliação ambiental.
Para o consumidor, a medida mais simples é evitar canudos descartáveis quando não forem necessários. Quando seu uso for indispensável, alternativas reutilizáveis, como as fabricadas em aço inoxidável ou silicone, podem ser consideradas, levando em conta sua durabilidade, frequência de utilização e necessidade de limpeza.
A principal conclusão do estudo é que a troca de um material por outro não garante, isoladamente, benefícios ambientais. A escolha mais sustentável depende de uma avaliação abrangente dos impactos associados à fabricação, ao consumo e ao descarte dos produtos.
