Cidade

Conheça a história do cemitério que Salvador tentou destruir

A construção do Campo Santo provocou uma revolta popular

Foto: Google Maps
O cemitério do Campo Santo, em Salvador
Foto: LEIAMAISba

Cemitério do Campo Santo, em Salvador

Em 25 de outubro de 1836, uma multidão percorreu as ruas de Salvador em direção a um cemitério recém-construído. Os manifestantes carregavam machados, alavancas e outras ferramentas. O objetivo era destruir o Campo Santo, empreendimento criado para substituir os sepultamentos realizados no interior das igrejas. Ao final do protesto, muros e instalações estavam em ruínas.

O episódio, que ficou conhecido como Cemiterada, entrou para a história como uma revolta em defesa das tradições religiosas, mas também contra os interesses econômicos envolvidos na exploração dos serviços funerários.

A destruição foi noticiada pelo Jornal do Commercio, do Rio de Janeiro, em 5 de novembro de 1836. Segundo o relato de um correspondente, mais de três mil pessoas participaram do ataque ao cemitério, arrasado em menos de uma hora. A dimensão do movimento surpreendeu as autoridades e obrigou o governo provincial a recuar na implantação das novas regras.

Para compreender a revolta, é preciso voltar a uma Salvador em que a relação entre vivos e mortos era muito diferente da atual. Nas primeiras décadas do século XIX, os sepultamentos no interior das igrejas faziam parte da vida religiosa da população. Ser enterrado próximo aos altares e às imagens dos santos representava, para muitos católicos, uma forma de proteção espiritual e de preparação para a vida eterna.

Os funerais também mobilizavam uma complexa estrutura social. Irmandades religiosas organizavam cerimônias, acompanhavam os mortos e administravam sepulturas. Algumas dessas associações reuniam pessoas de determinados grupos sociais e desempenhavam importante papel na vida comunitária, especialmente em uma cidade marcada pela escravidão e pelas desigualdades.

A tradição, entretanto, passou a enfrentar a oposição de médicos e autoridades. Influenciados pelas teorias sanitárias da época, eles consideravam os sepultamentos dentro das igrejas uma ameaça à saúde pública.

A decomposição dos corpos era associada à contaminação do ar e à propagação de doenças. A solução defendida pelos reformadores era construir cemitérios afastados das áreas mais povoadas.

Uma lei, um monopólio e muitos interesses

A mudança ganhou força em 4 de junho de 1835, com a Lei Provincial nº 17, que proibiu os enterros nas igrejas e catacumbas. Poucas semanas depois, em 25 de junho, o governo provincial firmou um contrato com a Companhia dos Cemitérios da Cidade, concedendo à empresa o monopólio dos sepultamentos por 30 anos.

O novo cemitério foi construído em uma área da antiga Fazenda São Gonçalo, na região que atualmente corresponde ao bairro da Federação. A localização atendia à intenção de afastar os sepultamentos do núcleo urbano.

Mas a reforma sanitária atingia interesses poderosos. As irmandades perderiam receitas provenientes dos enterros e parte de sua influência sobre os rituais funerários. As famílias, por sua vez, deixariam de escolher livremente os locais tradicionais de sepultamento e passariam a depender de uma empresa particular.

A concessão transformou a construção do Campo Santo em um conflito político, econômico e religioso. A resistência não se limitava à mudança de costumes. Questionava também a transferência de uma atividade tradicionalmente ligada à Igreja para empresários privados.

A oposição foi especialmente intensa entre integrantes das ordens terceiras e das irmandades católicas. À medida que se aproximava a abertura do cemitério, prevista para outubro de 1836, aumentava a mobilização contra a nova legislação.

A revolta toma as ruas

Em 25 de outubro, membros de irmandades e outros moradores reuniram-se no centro de Salvador. A manifestação passou pela região do Terreiro de Jesus e chegou à Praça do Palácio, sede do poder provincial.

Os manifestantes exigiam a suspensão da legislação funerária. Um documento com centenas de assinaturas foi apresentado às autoridades, expressando a oposição ao novo sistema.

A mobilização teve participação significativa de mulheres, inclusive integrantes de irmandades religiosas. Segundo o relato publicado no Jornal do Commercio, elas também estiveram envolvidas no apedrejamento do escritório da companhia responsável pelo cemitério.

A pressão levou o presidente da província a suspender a aplicação da lei até que a Assembleia Provincial voltasse a examinar o assunto. A decisão, porém, não encerrou o movimento.

Parte dos manifestantes seguiu em direção ao Campo Santo. Armados com ferramentas, os participantes derrubaram muros e danificaram as construções. O cemitério, que deveria representar a modernização dos serviços funerários de Salvador, foi destruído antes de se consolidar como local de sepultamento.

O episódio revelou a força das irmandades e a dificuldade de impor mudanças sanitárias sem considerar as práticas religiosas e os interesses sociais envolvidos.

O que disseram os jornais

A imprensa deixou registros importantes da Cemiterada. Um dos mais conhecidos foi publicado pelo Jornal do Commercio, em 5 de novembro de 1836, a partir de uma correspondência enviada de Salvador.

O relato descreveu a concentração de manifestantes diante da sede do governo, o ataque ao escritório da companhia funerária e a marcha em direção ao cemitério. Também destacou a participação das mulheres e a presença de milhares de pessoas na destruição das instalações.

A correspondência é uma das fontes utilizadas pelo historiador João José Reis em A morte é uma festa: ritos fúnebres e revolta popular no Brasil do século XIX, obra que reconstitui o episódio e analisa seus significados sociais, religiosos e políticos.

Os registros revelam que o conflito ultrapassou os limites da Bahia e despertou interesse na imprensa da Corte. Entretanto, a cobertura não pode ser confundida automaticamente com apoio ou condenação à revolta. A posição editorial dos diferentes periódicos ainda exige o exame de suas publicações originais.

Além dos jornais, o episódio provocou manifestações escritas de contemporâneos. Em 1836, Joaquim José de Araujo publicou Observações sobre o contracto do privilegio exclusivo do cemiterio, texto em que criticou os privilégios concedidos à empresa funerária, mas também condenou a violência empregada pelos manifestantes.

Sua posição evidencia que era possível se opor ao monopólio sem defender a destruição do Campo Santo. O debate, portanto, não se resumia a uma disputa entre partidários da modernização e defensores das antigas tradições.

Das ruínas ao principal cemitério de Salvador

A Cemiterada interrompeu a implantação do novo sistema funerário, mas não encerrou o projeto de retirar os sepultamentos das igrejas.

Em 1840, a Santa Casa de Misericórdia da Bahia adquiriu as ruínas do Campo Santo e assumiu sua reconstrução. Quatro anos depois, em 1844, o cemitério entrou em funcionamento sob a administração da instituição.

A aceitação dos cemitérios externos ocorreu gradualmente. As preocupações com a saúde pública ganharam força ao longo do século XIX, especialmente durante as epidemias que atingiram Salvador.

Com o passar do tempo, o Campo Santo tornou-se um dos principais espaços funerários da cidade. Famílias influentes construíram jazigos e mausoléus, enquanto esculturas, monumentos e inscrições passaram a registrar aspectos da história política, econômica e cultural da Bahia.

A ala moderna do Cemitério do Campo Santo, em Salvador
Foto: LEIAMAISba

O local também se transformou em um importante patrimônio de arte funerária. Suas sepulturas e monumentos ajudam a compreender as mudanças nos costumes, nas relações sociais e nas formas de homenagear os mortos.

Mais cemitérios

Salvador possui 10 cemitérios públicos municipais, administrados pela Secretaria Municipal de Ordem Pública (Semop), além de cemitérios estaduais, particulares, religiosos e históricos vinculados a associações de estrangeiros.

Os cemitérios municipais são os seguintes:

-- Municipal de Brotas (Rua Teixeira Barros, Candeal)
-- Municipal de Itapuã (Jardim Placaford, Itapuã)
-- Municipal de Paripe (Estrada do Cemitério, Paripe)
-- Municipal de Periperi (Ladeira do Cemitério, Praia Grande)
-- Municipal de Pirajá (Rua Oito de Novembro, Pirajá)
-- Municipal de Plataforma (Rua David Ferreira, Plataforma)
-- Ilha de Bom Jesus dos Passos (Ilha de Bom Jesus dos Passos)
-- Ilha de Maré (Santana, Ilha de Maré)
-- Ponta de Nossa Senhora de Guadalupe (Ilha dos Frades)
-- Paramana (Ilha dos Frades)