Bahia / Brasil

Bahia terá cemitério móvel e local onde mortos vão alimentar a vida

Saiba, também, como um corpo se decompõe e qual a contaminação que provoca

Campo Santo ganha 2 mil novos ossuários e 796 módulos verticais de sepultamento
Campo Santo ganha 2 mil novos ossuários e 796 módulos verticais de sepultamento

O Código de Direito Canônico da Igreja Católica recomenda "insistentemente que se conserve o piedoso costume de sepultar os corpos dos defuntos". Em 1963, no entanto, passou a admitir que sejam cremados, desde que se mantenha a fé na ressurreição. Mas proíbe que as cinzas sejam guardadas em casa pelos familiares.

Em outubro de 2017 a Congregação para a Doutrina da Fé divulgou a instrução “Ad resurgendum cum Christo”, na qual especifica novas regras de conservação das cinzas nos casos de cremação.

Para a Santa Sé, elas devem ser guardadas em lugar sagrado, que pode ser um cemitério, uma igreja ou outro local indicado pela autoridade eclesiástica.

Somente em casos graves e excepcionais, que dependam de condições culturais, poderá ser autorizada a conservação das cinzas em casa.

A instrução também rejeita que sejam lançadas ao ar ou na água, mesmo que a pessoa tenha claramente manifestado esse desejo.  

De acordo com o cardeal Gerhard Müller, "a Igreja não vê razões doutrinais para impedir a cremação do cadáver, uma vez que ela não toca o espírito e nem impede à onipotência divina de ressuscitar o corpo". Segundo ele, "tal fato não nega a doutrina cristã sobre a imortalidade da alma e da ressurreição dos corpos".

 
A Igreja não vê razões doutrinais para impedir a cremação do cadáver
-- Cardeal Gerhard Müller

Mas adverte: "A Igreja continua a preferir a sepultura dos corpos, uma vez que assim se evidencia uma estima maior pelos defuntos".

Outras religiões também aceitam a cremação. Países protestantes possuem crematórios desde 1870, e o espiritismo apenas recomenda uma espera de pelo menos 72 horas após a morte, afirmando que os laços entre o espírito e o corpo se desfazem lentamente e que o desligamento só ocorre quando o laço fluídico se rompe em definitivo.

O Bosque da Vida

A falta de espaço nos cemitérios está ampliando as dificuldades das famílias que insistem no sepultamento.  

Em Tóquio, por exemplo, um lugar no cemitério Aoyama custa o equivalente a R$ 350 mil, e no São João Batista, do Rio de Janeiro, pode ultrapassar meio milhão de reais.

No Cemitério do Campo Santo, em Salvador, criado em 1836 e com cerca de 32 mil sepulturas (gavetas, jazigos e ossuários) em seus 62.800 metros quadrados de área construída, o Bosque da Vida está sendo planejado para receber as cinzas resultantes da cremação. 

Os familiares poderão colocá-las ao pé de uma árvore ou de uma muda. Compostas basicamente de cálcio e potássio, as cinzas ajudam na germinação e nutrição da planta, processo que já vem sendo utilizado no cemitério Morada da Paz, em Natal, capital do Rio Grande do Norte.

"Se a árvore morrer - explica o gerente do Campo Santo, Roberto Taboada - seu tronco será incinerado, suas cinzas colocadas no local e outra árvore plantada no mesmo lugar".

Alguma forma de contato com a natureza é procurada em vários países, como na Austrália, onde fica o Bushland Cemetery, em meio a uma floresta, e cuja administração recomenda enterros "verdes", onde os caixões são substituídos por mortalhas de algodão biodegradável, que envolvem os corpos e aceleram a decomposição.

No Brasil, uma resolução do Conama-Conselho Nacional do Meio Ambiente, em vigor desde 2003, determina que "os corpos sepultados poderão estar envoltos por mantas ou urnas constituídas de materiais biodegradáveis, não sendo recomendado o emprego de plásticos, tintas, vernizes, metais pesados ou qualquer material nocivo ao meio ambiente". A resolução proíbe o emprego de material impermeável que impeça a troca gasosa do corpo sepultado com o meio que o envolve.


Foto: Pixabay/Creative Commons

Como um corpo se decompõe

Estudos publicados em 2016 por um trio de biólogos - Ron Sender, Shai Fuchs e Ron Milo, pesquisadores do Instituto de Ciência Weizmann, em Rehovot, Israel, e do Hospital for Sick Children em Toronto, no Canadá - estabelecem que um homem pesando 70 quilos tem em seu organismo cerca de 39 trilhões de bactérias e 30 trilhões de células (trabalhos anteriores chegaram a defender uma proporção de 100 bactérias para cada célula humana). 

E pesquisadores lembram que o corpo também abriga vírus, fungos, e outros microrganismos. "Os vírus vastamente superam o número de bactérias", segundo Julie Segre, geneticista do Instituto Nacional de Pesquisa do Genoma Humano, nos Estados Unidos.

Nos 3 primeiros dias -  Com a morte, a oxigenação das células é interrompida, paralisando a produção de minerais como o sódio e o potássio. Com isso, as bactérias da mucosa respiratória e do intestino (onde se localiza a maior comunidade delas), que sobreviviam aproveitando restos dos alimentos ingeridos pela pessoa, atacam o corpo, no que são auxiliadas por insetos e larvas. As bactérias aeróbicas, que precisam do oxigênio para viver, são substituídas por anaeróbicas, que vivem sem ar.

10 dias depois -  Destruídos pelas bactérias, os tecidos do corpo liberam gás metano, cadaverina (responsável pelo mau cheiro e que está presente também em seres vivos, no sêmen e em infecções vaginais, por exemplo) e putrescina (formada pela decomposição de moléculas orgânicas chamadas aminoácidos).

20 dias depois - As bactérias anaeróbicas fermentam açúcar para produzir gases como metano, sulfureto de hidrogênio e amônia, que vão se acumulam dentro do corpo, em especial no abdômen.

Elas também convertem moléculas de hemoglobina, que costumavam carregar oxigênio pelo corpo, em sulfoemoglobinemia e, com isso, o corpo fica esverdeado.

Bolhas surgem por toda a pele. Os tecidos do corpo viram um líquido conhecido como necrochorume, de aparência viscosa e coloração castanho-acinzentada, contendo 60% de água, 30% de sais minerais e 10% de substancias orgânicas degradáveis. Junto com os gases, esse líquido começa a vazar pelos orifícios do corpo. A pressão pode ser tão forte que faz o abdômen estourar.

O corpo vira um banquete para micróbios, insetos e moscas varejeiras. Cada uma delas deposita cerca de 240 ovos, de onde nascem larvas, em 24 horas. A atividade delas é tão intensa que eleva a temperatura do corpo em até 10 graus centígrados. 

60 dias depois - Devorado pelas bactérias, o corpo fica ressecado e com cheiro de manteiga rançosa proveniente do ácido butanoico produzido durante a fermentação.

Como se dá a contaminação

O necrochorume é o principal contaminante. Se o solo for úmido pode ocorrer o que se chama de saponificação - a quebra das gorduras corporais e a liberação de ácidos graxos, um composto de acidez elevada, que dificulta a ação de bactérias e retarda a decomposição do cadáver, ampliando o tempo de contaminação.

O caixão pode conter titânio, cromo, cádmio, chumbo, ferro, manganês, mercúrio, níquel, zinco, cobre e prata. Corpos que ficaram longos períodos em Unidades de Tratamento Intensivo também têm retardado o processo de decomposição, por causa dos remédios, e podem estar contaminados pela radioatividade dos aparelhos de Raios-X.

As bactérias anaeróbicas produzem o gás sulfídrico, dióxido de carbono, gás carbônico, metano, amônia e fosfina.

A água da chuva se infiltra nos túmulos e carrega compostos químicos para o solo, em alguns casos alcançando o lençol freático e afetando a saúde pública. Uma das doenças provocadas é a meta-hemoglobinemia, ou “síndrome do bebê azul”, devido ao consumo de água contaminada por nitrato.

Um sepultamento controlado por computador

Uma das soluções para o problema da contaminação do meio ambiente causada pelos sepultamentos foi colocada em prática no Campo Santo, em Salvador, a partir de maio de 2017.

São 796 gavetas (que chegarão a 35 mil ao final do projeto de reestruturação e modernização do cemitério) dispostas em módulos verticais e que emprega um sistema automatizado para o tratamento dos gases gerados no processo de decomposição.


Em primeiro plano, uma gaveta em ecogranito, à base de garrafas pet, bagaço de cana e casca de coco

"Na maior parte dos cemitérios brasileiros que realizam sepultamentos verticais o que encontramos é simplesmente um projeto que utiliza a passagem dos gases por uma coluna de carvão ativado para diminuir os odores, mas que continua gerando uma grande quantidade de resíduos sólidos", explica o gerente do Campo Santo, Roberto Taboada.

Desenvolvido pela Vilatec Tecnologia Funerária, o modelo adotado pelo Campo Santo inclui gavetas em ecogranito, uma resina à base de garrafas pet recicladas, bagaço de cana-de-açúcar e fibra de casca de coco. “Para cada gaveta que estamos utilizando, são retiradas do meio ambiente 167 garrafas pet”, diz Taboada.

Os corpos ficam em gavetas (ou lóculos) produzidas em peças únicas, sem emendas e com a mesma tecnologia de laminação utilizada em embarcações e veículos. O acabamento é vitrificado, com completa ausência de poros. 

Um programa de computador denominado SIGA (Sistema Inteligente de Gerenciamento e Automação) controla e gerencia a vedação dos lóculos, através de um teste realizado sempre após cada sepultamento. Para isso, a entrada de ar é fechada e uma turbina de sucção ligada, criando um vácuo imediato, aferido e comparado a valores estabelecidos.

Se for detectado qualquer furo ou falha na lacração do módulo o sistema executa automaticamente um protocolo de segurança que implica em manter um vácuo constante. Após esta ação o SIGA enviará um alerta para os celulares dos gerentes e responsáveis, comunicando e identificando o local do vazamento.

Duas tubulações (uma azul e outra amarela) se conectam com as gavetas, um par de cada lado. Um módulo de controle e comando extrai (pela tubulação amarela) os gases provenientes da decomposição e injeta ar renovado (pelos tubos em azul). O gás retirado é descontaminado, passando por um processo de lavagem e utilização de óxido de ferro, sendo liberado para a natureza em forma de vapor d'água.

Isso reduz em mais de 95% a concentração do gás sulfídrico, que é bastante tóxico e provoca chuva ácida. 

O sistema promove a decomposição natural dos corpos, através da manutenção de bactérias aeróbicas pela oxigenação produzida no processo de troca gasosa. Há menor produção de necrochorume, devido ao baixo impacto do processo anaeróbico. 

O controle também evita os chamados fenômenos de transformação cadavérica conservadores: a mumificação, que pode ocorrer em ambientes secos, quentes e ventilados; ou saponificação, quando há ventilação deficitária e umidade e calor elevados.

Cemitério móvel 

O Campo Santo pertence à Santa Casa da Bahia, fundada em 1549, mesmo ano da cidade de Salvador, pelo então governador-geral do Brasil, Tomé de Sousa. Por cerca de 200 anos foi a única entidade da Bahia a prestar assistência aos mais necessitados. Hoje, é uma associação beneficente de assistência social, atendendo a cerca de 2 mil pessoas, através de centros de educação infantil, cursos de capacitação, projetos de promoção social e iniciativas de apoio à cidadania.

Após investir R$ 2,5 milhões no novo sistema de sepultamento, a Santa Casa da Bahia está planejando a instalação do primeiro cemitério móvel do País, em que as gavetas poderão ser rapidamente instaladas ou em caso de necessidade transferidas para outro terreno (mesmo quando contiverem corpos). 

Seu Plano Diretor inclui a reestruturação e modernização do Campo Santo, com a construção de edifícios para a instalação de 35 mil gavetas e ossuários, substituindo as atuais carneiras e parte dos jazigos.

O Campo Santo possui

-- 10.947 lóculos/gavetas (em ampliação)
-- 3.012 jazigos
-- 16 mil ossuários (em ampliação)
-- 281 mausoléus
-- 8 salas para velórios
-- Capela
-- Velório online