Nordeste

Corais do Nordeste estão entre
os mais ameaçados no mundo

Ondas de calor já provocaram branqueamento em massa em recifes do Rio Grande do Norte e da Bahia

Foto: Ilustração feita por IA
O branqueamento de corais está se espalhando pelo mar do Nordeste
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Estudo publicado na revista Nature aponta que 44% das espécies de corais avaliadas estão ameaçadas de extinção. O Nordeste brasileiro figura entre as regiões mais vulneráveis. Ondas de calor já provocaram branqueamento e mortalidade em recifes do país, ameaçando a biodiversidade marinha, a pesca e o turismo.

Os corais do Nordeste brasileiro estão entre os mais vulneráveis à extinção no planeta, segundo um estudo publicado na revista científica Nature, em outubro de 2026.

A concentração de espécies que existem exclusivamente em determinadas regiões do litoral, associada ao aumento da temperatura dos oceanos, coloca os recifes brasileiros em situação particularmente preocupante.

A pesquisa revela que 44% das espécies de corais construtores de recifes avaliadas em todo o mundo estão ameaçadas, enquanto outros levantamentos documentam episódios recentes de branqueamento e mortalidade desses organismos na costa do Brasil.

O estudo internacional, liderado pelo cientista David Obura, reavaliou 892 espécies de corais, das quais 774 apresentaram informações suficientes para classificação pelos critérios da Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza (IUCN). Entre elas, 340 foram consideradas ameaçadas de extinção, sendo 33 em perigo crítico, 251 em perigo e 56 vulneráveis.

No Atlântico, a situação é ainda mais grave: metade das espécies avaliadas está ameaçada e 33% foram classificadas em perigo crítico de extinção. Os pesquisadores destacam especialmente o Atlântico Sudoeste, onde o Nordeste brasileiro concentra espécies endêmicas, encontradas naturalmente em áreas geográficas restritas.

A ameaça já produz consequências concretas no país. Pesquisas realizadas no litoral brasileiro identificaram episódios de aquecimento extremo das águas que provocaram branqueamento generalizado dos corais, incluindo ocorrências no Rio Grande do Norte, em Abrolhos, na Bahia, e em outras áreas do Nordeste.

Por que os corais brasileiros são tão vulneráveis?

Uma das principais características dos recifes brasileiros é a presença de espécies endêmicas. São organismos cuja distribuição natural está limitada a determinadas regiões e que, por isso, podem ser especialmente vulneráveis a alterações ambientais.

Diferentemente de espécies amplamente distribuídas pelos oceanos, os corais endêmicos possuem menos possibilidades de manter populações em outras áreas quando suas regiões de ocorrência são atingidas por eventos extremos.

O estudo da Nature identifica essa característica como um dos fatores que tornam o Nordeste brasileiro uma região particularmente sensível ao aquecimento dos oceanos.

A situação é agravada pela combinação de diferentes ameaças. Além do aumento da temperatura da água, os recifes estão sujeitos à poluição, à pressão da pesca, às doenças e à acidificação dos oceanos.

Entre as espécies brasileiras que merecem atenção está Mussismilia harttii, coral endêmico do Brasil cuja vulnerabilidade aparece nas pesquisas científicas utilizadas pelos autores.

A perda de espécies como essa pode comprometer a estrutura dos recifes e reduzir a diversidade de organismos que dependem desses ambientes para alimentação, abrigo e reprodução.

O problema não se limita ao desaparecimento de espécies. Os pesquisadores alertam que os recifes podem perder diversidade e funções ecológicas mesmo quando parte de sua cobertura permanece aparentemente preservada.

Isso ocorre porque espécies mais resistentes podem ocupar espaços anteriormente dominados por organismos vulneráveis, alterando a composição das comunidades marinhas.

No Rio Grande do Norte, 85% dos corais ficaram esbranquiçados

Os efeitos do aquecimento dos oceanos já foram documentados no litoral brasileiro.

Uma pesquisa publicada em março de 2025 na revista Communications Earth & Environment analisou o impacto das ondas de calor marinhas sobre os recifes do Atlântico tropical, com atenção especial ao episódio ocorrido em 2020.

O trabalho, conduzido por pesquisadores de instituições brasileiras, identificou um aumento expressivo na frequência e na intensidade desses eventos desde 1982.

Segundo os resultados, as ondas de calor marinhas tornaram-se 5,1 vezes mais frequentes e 4,7 vezes mais intensas no Atlântico tropical ao longo do período analisado.

Em Rio do Fogo, no litoral do Rio Grande do Norte, os cientistas acompanharam os efeitos de temperaturas excepcionalmente elevadas sobre os recifes.

Em abril de 2020, 85% da área coberta por corais duros monitorados apresentava branqueamento, enquanto o fenômeno atingia 70% da área ocupada por zoantídeos, organismos marinhos aparentados aos corais.

Durante aquele período, a temperatura da superfície do mar permaneceu acima da média histórica por vários meses. Os pesquisadores identificaram cinco ondas de calor sucessivas, com duração entre nove e 32 dias.

O episódio foi considerado um dos mais intensos registrados na região.

O branqueamento ocorre quando os corais, submetidos a condições ambientais desfavoráveis, perdem as algas microscópicas que vivem em seus tecidos e fornecem parte importante de sua energia.

Sem essas algas, os animais adquirem uma aparência esbranquiçada e ficam mais vulneráveis a doenças, dificuldades de reprodução e mortalidade.

O fenômeno, entretanto, não significa necessariamente a morte imediata dos organismos. No caso de Rio do Fogo, o monitoramento identificou uma recuperação expressiva dos corais ao longo dos meses seguintes, com redução do branqueamento durante o inverno de 2020.

Essa capacidade de recuperação, porém, pode ser comprometida quando os episódios de aquecimento se tornam mais frequentes e intensos.

Abrolhos, na Bahia, também enfrenta os efeitos do aquecimento

O Banco dos Abrolhos, no sul da Bahia, aparece entre as regiões brasileiras cuja biodiversidade pode ser ameaçada pelo aumento da temperatura dos oceanos.

A área abriga um importante conjunto de recifes, com características ecológicas particulares e presença de espécies encontradas no litoral brasileiro.

O estudo publicado em 2025 na Communications Earth & Environment identifica Abrolhos como uma região vulnerável aos futuros episódios de branqueamento, de acordo com projeções climáticas.

Os pesquisadores também mencionam registros anteriores de branqueamento intenso na região. Em 2019, levantamentos realizados em Abrolhos e no Atol das Rocas identificaram episódios nos quais mais de 80% dos corais duros observados apresentaram branqueamento.

Naquelas ocorrências, entretanto, a mortalidade foi relativamente baixa para a maioria dos organismos monitorados, com exceções como o hidrocoral Millepora alcicornis.

Os resultados demonstram que episódios de branqueamento podem atingir grandes extensões dos recifes sem provocar necessariamente a morte imediata de todos os corais afetados.

A preocupação dos cientistas é que a repetição desses eventos reduza progressivamente a capacidade de recuperação dos ecossistemas.

Outra pesquisa citada pelos autores documentou um episódio de branqueamento que atingiu aproximadamente 80% dos corais duros avaliados na Baía de Todos-os-Santos, em 2010.

Esses registros mostram que o aquecimento extremo das águas não representa apenas uma ameaça distante, mas um fenômeno que já afetou diferentes regiões do litoral baiano.

O aquecimento dos oceanos está acelerando

A pesquisa internacional publicada na Nature revela que o risco de extinção dos corais aumentou de maneira acentuada nas últimas décadas.

Ao aplicar uma metodologia atualizada aos diferentes períodos analisados, os pesquisadores calcularam que 6,7% das espécies estavam ameaçadas antes de 1998. A proporção passou para 18,7% em 2008 e alcançou 43,9% em 2024.

O aumento é especialmente preocupante porque ocorre em um grupo de organismos fundamentais para a manutenção da biodiversidade marinha.

Segundo os autores, o risco de extinção dos corais cresceu mais rapidamente do que o de qualquer outro grupo de organismos avaliado de maneira abrangente pela IUCN.

O estudo também aponta que as estimativas foram elaboradas antes dos efeitos mais recentes do quarto episódio global de branqueamento, registrado entre 2023 e 2025.

Por isso, os pesquisadores consideram possível que a proporção atual de espécies ameaçadas seja ainda maior.

Os resultados, contudo, não significam que quase metade dos corais necessariamente desaparecerá. A Lista Vermelha da IUCN classifica as espécies conforme seu risco relativo de extinção, considerando fatores como redução populacional, distribuição geográfica e ameaças ambientais.

Trata-se de uma avaliação de vulnerabilidade, não de uma previsão sobre quando ou se determinada espécie será extinta.

O que o desaparecimento dos corais significa para o Brasil?

A degradação dos recifes pode produzir consequências ambientais e econômicas importantes para as comunidades costeiras brasileiras.

Esses ecossistemas funcionam como áreas de alimentação, reprodução e abrigo para numerosas espécies de peixes, crustáceos e outros organismos marinhos.

Sua deterioração pode comprometer a biodiversidade e afetar atividades pesqueiras que dependem da manutenção desses ambientes.

O turismo também pode sofrer consequências. Regiões conhecidas pela presença de recifes atraem visitantes interessados em mergulho, observação da vida marinha e passeios marítimos.

A perda de biodiversidade e a degradação das paisagens submarinas podem reduzir a atratividade desses destinos e prejudicar atividades econômicas associadas.

Os recifes ainda exercem uma função importante na proteção natural do litoral. Suas estruturas ajudam a dissipar a energia das ondas, contribuindo para reduzir a erosão e os impactos de determinados eventos extremos sobre áreas costeiras.

A redução dessas barreiras naturais pode aumentar a vulnerabilidade de comunidades e infraestruturas próximas ao mar.

O estudo da Nature ressalta que os recifes oferecem benefícios ecológicos, econômicos e sociais em mais de 100 países tropicais, o que amplia as consequências de sua deterioração.

É possível salvar os corais brasileiros?

A conservação dos recifes depende de medidas locais e de ações internacionais para conter o aquecimento global.

Entre as iniciativas de proteção estão a redução da poluição, o controle de atividades que degradam os ambientes marinhos, a criação e a gestão efetiva de áreas protegidas e os programas de restauração de corais.

Entretanto, o estudo da Nature mostra que essas medidas enfrentam limitações importantes.

Embora aproximadamente 32% da área mundial de recifes esteja incluída em áreas oficialmente protegidas, apenas 2,5% conta com proteção considerada rigorosa e efetiva.

Os projetos de restauração também apresentam dificuldades para alcançar grandes extensões, devido aos custos, à necessidade de tecnologia especializada e à vulnerabilidade dos corais transplantados a novos episódios de aquecimento.

Os pesquisadores alertam que ondas de calor intensas podem destruir, em pouco tempo, os resultados de anos de trabalho de recuperação.

O desafio torna-se ainda maior diante das projeções climáticas.

Segundo estimativas do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), o aquecimento global de 1,5°C em relação aos níveis pré-industriais pode provocar a perda de 70% a 90% dos recifes de corais de águas quentes. Com um aumento de 2°C, as perdas projetadas ultrapassam 99%.

Os autores ressaltam que esses valores não representam limites biológicos absolutos, pois a resistência dos corais varia entre espécies e regiões.

Mesmo assim, cada aumento adicional da temperatura reduz as possibilidades de sobrevivência e recuperação dos recifes.

Para os pesquisadores, proteger os corais exige combinar ações de conservação com a redução das emissões de gases de efeito estufa.

No Brasil, onde a presença de espécies endêmicas torna determinados recifes particularmente vulneráveis, a preservação desses ambientes será decisiva para manter a biodiversidade marinha e os benefícios que ela proporciona às comunidades costeiras.