Brasil / Economia

Ações chegam a cair mais de 50% após vitória de Lula no 2º turno

Juros futuros disparam e aumentam a pressão sobre companhias dependentes de crédito

Foto: Ilustração feita por IA
As ações derreteram, na bolsa de valores
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A reeleição de Lula provocou forte queda na Bolsa brasileira nesta segunda-feira (26). Ações da Vamos e do Magazine Luiza chegaram a perder mais de 50%. A disparada do dólar e dos juros futuros ampliou a pressão sobre empresas dependentes de crédito. A B3 suspendeu temporariamente as negociações.

A reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva provocou uma forte turbulência no mercado financeiro brasileiro nesta segunda-feira (26 de outubro), levando ações de algumas das principais empresas negociadas na Bolsa a registrar quedas superiores a 50%.

A onda de vendas atingiu especialmente companhias dos setores de varejo, construção civil, locação de veículos e saúde, em um pregão marcado também pela disparada do dólar e dos juros futuros.

A intensidade das perdas levou a B3 a acionar o circuit breaker, mecanismo que suspende temporariamente as negociações em momentos de quedas acentuadas. O Ibovespa, principal índice da Bolsa brasileira, chegou a recuar 17,34%, atingindo 169.516 pontos. Foi a primeira utilização do mecanismo desde março de 2020, quando a pandemia de Covid-19 provocou uma crise nos mercados internacionais.

Entre as empresas mais atingidas, a Vamos, especializada na locação de caminhões, máquinas e equipamentos, chegou a apresentar desvalorização de 57,70%, segundo informações divulgadas pelo TradeMap. O Magazine Luiza também registrou perdas superiores a 50%, enquanto Cyrela, C&A, Cosan e Hapvida figuraram entre os destaques negativos em diferentes momentos da sessão.

O movimento atingiu ainda companhias como Localiza, MRV e Assaí, todas sensíveis, em diferentes graus, às condições de financiamento e ao comportamento da atividade econômica. Bancos e empresas ligadas ao mercado de capitais também sofreram perdas expressivas, refletindo a revisão das expectativas dos investidores.

A concentração das quedas nesses setores está relacionada, principalmente, à disparada dos juros futuros. Empresas varejistas dependem do crédito para financiar suas operações e estimular o consumo. Quando as taxas sobem, empréstimos e compras parceladas ficam mais caros, reduzindo o poder de compra das famílias e pressionando os resultados das companhias.

Na construção civil, os juros elevados encarecem os financiamentos imobiliários e o capital necessário para novos empreendimentos. O mesmo ocorre com empresas de locação de veículos e equipamentos, que precisam investir continuamente na renovação de suas frotas. Companhias com maior endividamento também ficam mais expostas ao aumento das despesas financeiras.

Embora esses fatores ajudem a explicar a intensidade das perdas, a reação do mercado não decorre apenas das perspectivas para cada empresa. Parte da desvalorização está associada à reversão de posições financeiras construídas nas semanas anteriores, quando investidores apostavam na vitória do senador Flávio Bolsonaro (PL).

A confirmação da reeleição de Lula contrariou essa expectativa e desencadeou uma rápida revisão dos preços dos ativos brasileiros. Entre as principais preocupações apontadas por participantes do mercado estão a trajetória da dívida pública, o crescimento das despesas obrigatórias e a capacidade do governo de promover um ajuste fiscal no próximo mandato.

A mudança de expectativas provocou uma forte elevação das taxas dos contratos de juros futuros, utilizados como referência para o custo do dinheiro nos próximos anos. O movimento indica que os investidores passaram a exigir remuneração maior para financiar operações e assumir riscos associados à economia brasileira.

A pressão também alcançou o mercado de câmbio. O dólar chegou a superar R$ 5,60 durante a manhã, refletindo a procura por proteção diante das incertezas. Caso a desvalorização do real persista, poderá encarecer produtos importados e matérias-primas, aumentando as pressões sobre a inflação e dificultando uma eventual redução da taxa Selic.

Diante da instabilidade, o Tesouro Nacional cancelou leilões de títulos prefixados e indexados à inflação previstos para esta semana e realizou uma operação extraordinária de recompra de papéis. A iniciativa buscou oferecer liquidez ao mercado e reduzir as distorções provocadas pela forte oscilação das taxas.

Apesar da dimensão das perdas, a desvalorização das ações não significa que a situação econômica das empresas tenha se deteriorado na mesma proporção em apenas um dia. Os preços negociados na Bolsa refletem expectativas sobre lucros futuros, condições de financiamento e disposição dos investidores para assumir riscos. Em momentos de incerteza, essas avaliações podem mudar rapidamente, provocando oscilações acentuadas.

A evolução do mercado dependerá, agora, das sinalizações do governo sobre a condução da política econômica a partir de 2027. Entre os principais pontos de atenção estão a composição da equipe econômica, o compromisso com as metas fiscais e a apresentação de medidas capazes de conter o crescimento da dívida pública.

Para as empresas, o maior risco é que a turbulência se prolongue e resulte em condições de crédito mais restritivas, aumento dos custos financeiros e redução dos investimentos. Para os consumidores, os efeitos poderão aparecer no encarecimento dos financiamentos e na pressão sobre os preços.

A reação desta segunda-feira evidencia a sensibilidade do mercado brasileiro às expectativas políticas e fiscais. Resta saber se as perdas representam um ajuste concentrado após o resultado eleitoral ou o início de um período mais prolongado de instabilidade.