
A vitória de Luiz Inácio Lula da Silva nas eleições presidenciais de 2026 coloca o presidente diante de um desafio que poderá definir o êxito ou o fracasso de seu quarto mandato. Com as contas públicas pressionadas, os juros elevados e milhões de famílias e empresas endividadas, o país precisa encontrar uma saída para desequilíbrios que se acumulam há anos. A situação se torna ainda mais delicada diante da insegurança jurídica, que compromete a confiança dos investidores e dificulta a retomada do crescimento.
Não são problemas isolados. A deterioração das contas públicas aumenta a percepção de risco, pressiona os juros e encarece o crédito. Famílias e empresas, obrigadas a destinar uma parcela maior de seus recursos ao pagamento de dívidas, reduzem o consumo e os investimentos. A atividade econômica perde dinamismo, a arrecadação sofre e o governo encontra dificuldades adicionais para equilibrar o orçamento. Forma-se, assim, um círculo vicioso que ameaça comprometer as perspectivas de desenvolvimento do país.
No Nordeste, reduto eleitoral do presidente, 1.215.298 empresas estavam inadimplentes em agosto, de acordo com a Serasa Experian, acumulando 6.502.418 dívidas negativadas, que somavam aproximadamente R$ 19,9 bilhões.
O ponto de partida da engrenagem que Lula precisa desmontar está nas contas públicas. Com mais de 90% das despesas federais classificadas como obrigatórias, o governo dispõe de pouca margem para reorganizar o orçamento.
Ao mesmo tempo, as projeções de endividamento, que apontam para uma dívida superior a 85% do Produto Interno Bruto (PIB) em determinados cenários, evidenciam a dificuldade de estabilizar as finanças do Estado.
O problema não se resume ao tamanho da dívida. Quando os juros pagos pelo governo superam o ritmo de crescimento da economia, torna-se necessário produzir superávits primários suficientemente elevados para impedir que o endividamento continue aumentando. Sem uma estratégia fiscal convincente, o país corre o risco de permanecer preso a uma dinâmica em que contrai novas dívidas para financiar compromissos anteriores.
Reverter essa trajetória exigirá decisões politicamente difíceis. O Brasil precisa controlar o crescimento das despesas, rever benefícios tributários pouco eficientes e combater privilégios. Mas seria um erro transformar o ajuste fiscal em uma política indiscriminada de cortes. Investimentos em infraestrutura, educação e saúde são fundamentais para elevar a produtividade e ampliar a capacidade de crescimento da economia. O desafio está justamente em conciliar o equilíbrio das contas públicas com a preservação dessas prioridades.
A dificuldade de encontrar esse equilíbrio ajuda a explicar a persistência dos juros elevados, a segunda grande ameaça ao novo governo. Quanto maior a desconfiança sobre a capacidade do Estado de honrar seus compromissos, maior tende a ser a remuneração exigida pelos investidores para financiar a dívida pública. O resultado é um aumento das despesas com juros, que consome recursos orçamentários e agrava o desequilíbrio fiscal.
A situação coloca a política monetária diante de um dilema. O Banco Central precisa manter a inflação sob controle, mas a permanência de juros elevados durante períodos prolongados compromete a atividade econômica. A redução sustentável das taxas depende, portanto, não apenas das decisões da autoridade monetária, mas também de uma trajetória fiscal capaz de transmitir confiança e manter as expectativas inflacionárias sob controle.
Os efeitos desse ambiente ultrapassam as contas do governo e chegam diretamente ao orçamento das famílias. O elevado custo do crédito, combinado com o comprometimento crescente da renda, transformou o endividamento dos consumidores em um problema de dimensão macroeconômica. Quanto mais recursos são destinados ao pagamento de prestações e juros, menos dinheiro sobra para o consumo. O comércio e os serviços perdem dinamismo, enquanto a inadimplência aumenta o risco das operações financeiras e contribui para manter o crédito caro.
Nas empresas, as consequências são igualmente preocupantes. O custo do financiamento compromete o capital de giro, dificulta a expansão dos negócios e ameaça a sobrevivência de empreendimentos economicamente viáveis. As micro e pequenas empresas são particularmente vulneráveis, pois dispõem de menos alternativas de financiamento e têm menor capacidade de absorver períodos prolongados de dificuldades.
Nesse cenário, programas de renegociação de dívidas podem oferecer alívio temporário, mas dificilmente resolverão o problema em sua origem. É necessário ampliar a concorrência no sistema financeiro, aperfeiçoar os mecanismos de recuperação de garantias e reduzir os entraves que encarecem o crédito. A educação financeira também tem papel importante, embora seja equivocado atribuir o endividamento excessivo exclusivamente à falta de planejamento dos consumidores. Juros elevados, renda insuficiente e instabilidade econômica têm peso decisivo nessa equação.
A recuperação da capacidade de consumo e investimento, entretanto, depende de algo que vai além da disponibilidade de crédito: a confiança na estabilidade das regras econômicas. É nesse terreno que surge a quarta ameaça ao país, a insegurança jurídica.
Investimentos produtivos, especialmente aqueles que exigem grandes volumes de recursos e oferecem retorno apenas no longo prazo, dependem de regras claras, contratos respeitados e decisões administrativas previsíveis. Mudanças abruptas na regulamentação de setores econômicos, sobretudo quando afetam compromissos anteriormente assumidos, elevam a percepção de risco e podem afastar capitais.
Isso não significa que o Estado deva abrir mão de sua capacidade regulatória. Governos precisam corrigir distorções, proteger consumidores e adaptar a legislação às transformações da economia. O problema surge quando essas intervenções ocorrem sem critérios transparentes, segurança jurídica ou respeito aos contratos. A previsibilidade, nesse caso, não representa apenas uma garantia aos investidores, mas uma condição necessária à expansão da produção e à geração de empregos.
A experiência política de Lula poderá facilitar negociações com o Congresso e diferentes setores da sociedade, mas não será suficiente para superar restrições econômicas que se agravaram ao longo dos anos. Tampouco bastará recuperar a confiança do mercado financeiro se essa melhora não resultar em investimentos produtivos, empregos e aumento da renda.
A tarefa exigirá uma combinação de disciplina fiscal, reformas estruturais e políticas voltadas ao crescimento da produtividade. Será necessário enfrentar despesas ineficientes, preservar investimentos essenciais e fortalecer as instituições. Algumas dessas medidas, contudo, atingem compromissos assumidos durante a campanha eleitoral e mecanismos de proteção social, o que torna sua implementação politicamente sensível.
Lula inicia seu quarto mandato com a oportunidade de enfrentar problemas que sucessivos governos não conseguiram resolver. A questão é saber se haverá disposição política para adotar medidas cujos custos são imediatos, mas cujos benefícios podem levar anos para aparecer.
