Brasil / Economia

Lula 4 provoca queda histórica
da Bolsa e disparada do dólar

Ibovespa chegou a recuar mais de 17%, levando à suspensão das negociações pela primeira vez desde 2020

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A reeleição de Lula provocou forte turbulência no mercado financeiro brasileiro nesta segunda-feira (26). O Ibovespa chegou a cair 17,34%, acionando o circuit breaker, enquanto o dólar e os juros futuros dispararam. Diante da instabilidade, o Tesouro Nacional cancelou leilões e recomprou títulos públicos para oferecer liquidez ao mercado.

O mercado financeiro brasileiro enfrenta nesta segunda-feira (26 de outubro) uma das sessões mais turbulentas dos últimos anos.

A reeleição do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, confirmada no domingo (25), provocou uma forte onda de vendas de ações, disparada do dólar e elevação dos juros futuros.

A intensidade das oscilações levou a B3 a interromper temporariamente as negociações, enquanto o Tesouro Nacional adotou medidas extraordinárias para reduzir a instabilidade no mercado de títulos públicos.

A reação reflete, em grande parte, a reversão das apostas feitas por investidores que esperavam a vitória do senador Flávio Bolsonaro (PL). Nas semanas anteriores, essa expectativa havia contribuído para a valorização da Bolsa e do real. Com a confirmação do resultado eleitoral, os investidores passaram a rever suas posições e projeções para a economia brasileira a partir de 2027.

O movimento foi particularmente intenso no mercado de ações. O Ibovespa, principal índice da Bolsa brasileira, chegou a cair 17,34%, atingindo 169.516 pontos.

A desvalorização provocou o acionamento do circuit breaker, mecanismo de segurança que suspende temporariamente as negociações em momentos de quedas acentuadas.

Foi a primeira utilização desse instrumento desde março de 2020, quando o início da pandemia de Covid-19 desencadeou uma crise nos mercados internacionais.

Mesmo depois da retomada das operações, as perdas continuaram expressivas. Às 13h42, o Ibovespa recuava 15,80%, aos 172.676 pontos, em contraste com o desempenho positivo das principais bolsas internacionais. A diferença reforça a avaliação de que a turbulência está relacionada, sobretudo, à revisão das expectativas sobre a economia brasileira.

As vendas atingiram principalmente empresas mais dependentes do crédito e do consumo doméstico, cujos resultados tendem a ser prejudicados por juros elevados.

Entre os destaques negativos estavam ações de companhias dos setores de varejo, saúde, construção e serviços. Na direção contrária, algumas exportadoras conseguiram registrar valorização, beneficiadas pela alta do dólar e por fatores específicos de seus mercados.

A instabilidade também se refletiu no câmbio. A moeda norte-americana chegou a superar R$ 5,60 durante a manhã, antes de reduzir parte dos ganhos. Às 12h51, era negociada a R$ 5,4291, com valorização de 8,81%. Diante das oscilações, a B3 ampliou os limites de negociação dos contratos futuros de dólar.

No mercado de juros, o movimento foi igualmente expressivo. As taxas dos contratos de Depósitos Interfinanceiros (DIs), utilizados como referência para as expectativas de juros futuros, chegaram a subir mais de 300 pontos-base em determinados vencimentos. O contrato para janeiro de 2031, por exemplo, apresentava taxa de 15,53% ao ano às 12h51, com elevação de 2,89 pontos percentuais em relação ao fechamento anterior.

A alta indica que os investidores passaram a exigir remuneração maior para assumir riscos associados à economia brasileira. Também revela uma mudança nas expectativas para a política monetária, diante da possibilidade de que a desvalorização cambial aumente as pressões inflacionárias. Nesse cenário, operadores passaram a considerar até mesmo a hipótese de elevação da taxa básica de juros em novembro.

A turbulência levou o Tesouro Nacional a cancelar os leilões de títulos públicos prefixados e indexados à inflação previstos para esta semana. A oferta de papéis vinculados à Selic foi mantida. O órgão também realizou uma operação extraordinária de recompra de títulos prefixados, movimentando aproximadamente R$ 7,1 bilhões, em uma tentativa de oferecer liquidez e reduzir as distorções provocadas pela volatilidade.

Por trás da reação dos mercados está a preocupação com a trajetória das contas públicas. A continuidade do governo Lula reforçou, entre parte dos investidores, as dúvidas sobre a capacidade de conter o crescimento das despesas obrigatórias, estabilizar a dívida pública e produzir resultados fiscais consistentes.

Essa avaliação, entretanto, não significa que uma eventual vitória de Flávio Bolsonaro asseguraria maior equilíbrio fiscal. A expectativa de mudança na política econômica estava associada a apostas sobre as prioridades de um novo governo, sem que houvesse garantias de implementação das medidas necessárias para ajustar as contas públicas.

A distinção ajuda a compreender a dimensão das perdas. A forte desvalorização das ações não significa que as condições econômicas do país tenham se deteriorado na mesma proporção em apenas um dia. Parte do movimento decorre do desmonte acelerado de posições financeiras construídas com base em um resultado eleitoral que não se confirmou.

Ainda assim, as oscilações revelam a sensibilidade dos ativos brasileiros às expectativas fiscais. Quando os investidores percebem maior risco de crescimento da dívida pública, tendem a exigir juros mais elevados para financiar o governo. Isso aumenta o custo do endividamento, dificulta o ajuste das contas públicas e pode comprometer as condições de financiamento da economia.

Os efeitos de uma instabilidade prolongada ultrapassariam o mercado financeiro. Juros elevados encarecem empréstimos e financiamentos, dificultam os investimentos das empresas e reduzem a capacidade de consumo das famílias. A valorização do dólar, por sua vez, pode pressionar os preços de combustíveis, equipamentos, matérias-primas e produtos importados, criando obstáculos adicionais ao controle da inflação.

A evolução desse cenário dependerá das sinalizações do governo sobre a política econômica do próximo mandato. Entre os principais pontos de atenção estão a composição da equipe econômica, o compromisso com as metas fiscais e a apresentação de medidas capazes de conter o crescimento da dívida pública.

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, afirmou nesta segunda-feira que o governo pretende promover mudanças legais ou, se necessário, constitucionais para buscar formalmente o centro da meta fiscal. A declaração representa uma tentativa de responder às preocupações dos investidores, mas seus efeitos dependerão do conteúdo das propostas e das condições políticas para sua aprovação.

A reação inicial dos mercados mostra que o próximo mandato começará sob forte pressão para apresentar uma estratégia fiscal convincente. O desafio será conciliar a sustentabilidade das contas públicas com a preservação dos investimentos, do emprego e das políticas sociais.

Embora a dimensão das perdas indique uma mudança significativa na percepção de risco, ainda é cedo para determinar se a turbulência ficará concentrada nos primeiros pregões após a eleição ou dará início a um período mais prolongado de instabilidade. A resposta dependerá, sobretudo, das decisões econômicas que serão anunciadas nas próximas semanas.