
A Chilli Beans protocolou, na sexta-feira (30 de outubro), um pedido de recuperação extrajudicial para renegociar R$ 340 milhões em dívidas com instituições financeiras.
A rede brasileira de óculos e acessórios chegou a um acordo com seus principais credores e prevê receber até R$ 50 milhões em novos recursos para financiar a reestruturação e manter suas operações.
A medida ocorre após atrasos no pagamento de compromissos financeiros e o vencimento antecipado de uma dívida de R$ 89 milhões.
O plano foi estruturado com a participação do Itaú, da Akron Capital e da Vega Asset, que atuam como financiadores centrais da operação e coordenam a entrada dos novos recursos. A renegociação abrange dívidas financeiras, enquanto obrigações com fornecedores, funcionários e outros parceiros comerciais permanecem fora do processo, segundo a empresa.
Fundada pelo empresário Caito Maia, a Chilli Beans possui aproximadamente 900 franquias no Brasil e está presente em mais de 14 países. Apesar das dificuldades financeiras, a companhia mantém atividades de expansão. Em outubro, inaugurou nove pontos de venda no mercado brasileiro e quatro na América do Sul.
Juros altos e inadimplência pressionaram o caixa
O fundador e CEO da Chilli Beans, Caito Maia, atribuiu os problemas financeiros principalmente ao aumento dos juros e à inadimplência de parte dos franqueados.
Em entrevista à revista Exame, o empresário afirmou que os juros mais elevados encareceram tanto o endividamento da companhia quanto o financiamento das operações de seus parceiros comerciais. Ao mesmo tempo, os atrasos nos pagamentos dos franqueados reduziram a entrada de recursos no caixa da rede.
Segundo Maia, a inadimplência, historicamente próxima de 3%, chegou a aproximadamente 22% no período posterior à pandemia de Covid-19. O executivo afirmou que o indicador recuou posteriormente para cerca de 4%, sinalizando uma melhora na capacidade de pagamento da rede franqueada.
Os problemas financeiros ocorreram mesmo com o crescimento do faturamento nos últimos anos. A receita da Chilli Beans passou de R$ 890 milhões em 2023 para R$ 1 bilhão em 2025, segundo números divulgados pela Exame. Para 2026, entretanto, a expectativa é de faturamento de R$ 940 milhões, uma redução projetada de 6% em relação ao ano anterior.
Atraso de R$ 16,5 milhões agravou crise
A situação financeira ganhou maior visibilidade em setembro, quando a Vert Securitizadora declarou o vencimento antecipado de uma dívida de R$ 89 milhões vinculada a debêntures emitidas pela Mustang 25 Participações, controladora da Chilli Beans.
Os títulos haviam sido emitidos em fevereiro de 2025, em uma operação de R$ 100 milhões, com vencimento originalmente previsto para janeiro de 2029.
A controladora deixou de pagar parcelas referentes a julho e agosto de 2026, que somavam R$ 16,5 milhões. Os credores prorrogaram o prazo para regularização dos pagamentos até 25 de setembro, mas a obrigação não foi cumprida.
Em 30 de setembro, a Vert declarou o vencimento antecipado da dívida. Posteriormente, uma nova assembleia de credores suspendeu temporariamente a cobrança e estabeleceu prazo para negociação de um acordo. O pedido de recuperação extrajudicial foi protocolado em 30 de outubro.
Aporte de R$ 50 milhões busca sustentar operações
Além da renegociação das dívidas, o plano prevê a disponibilização de até R$ 50 milhões pelos próprios credores envolvidos na reestruturação.
O financiamento deverá reforçar o capital de giro, utilizado para custear despesas operacionais e assegurar o funcionamento da companhia durante a reorganização financeira.
A participação do Itaú, da Akron Capital e da Vega Asset é considerada central para a execução da proposta. Os novos recursos deverão permitir que a empresa concentre esforços na operação e na relação com franqueados e fornecedores.
A Chilli Beans ainda não divulgou detalhes sobre os novos prazos de pagamento dos R$ 340 milhões, eventuais descontos sobre os valores devidos ou períodos de carência previstos no plano. Também não foi informado um cronograma completo para a liberação dos recursos.
O que muda para franqueados, funcionários e consumidores?
A recuperação extrajudicial não significa o fechamento da Chilli Beans nem determina, por si só, a interrupção das atividades de suas franquias.
Segundo a empresa, o processo está concentrado nas obrigações com credores financeiros. Dívidas com fornecedores, funcionários e outros parceiros comerciais não integram o plano apresentado.
Isso não significa, entretanto, que esses grupos estejam necessariamente protegidos de todos os efeitos indiretos da reestruturação. A continuidade das operações dependerá da capacidade da companhia de manter seus compromissos e executar o acordo financeiro.
Até o momento, as informações consultadas não apontam um plano de fechamento generalizado de lojas. A companhia, ao contrário, anunciou novas inaugurações em outubro.
Entenda a recuperação extrajudicial
A recuperação extrajudicial é um mecanismo previsto na Lei nº 11.101/2005 que permite às empresas negociar diretamente com determinados credores novas condições para o pagamento de dívidas.
Diferentemente da recuperação judicial, na qual a reestruturação ocorre sob um procedimento judicial mais amplo, a recuperação extrajudicial concentra as negociações entre a empresa e os credores envolvidos. O plano é posteriormente submetido à Justiça para homologação.
A legislação admite, desde que cumpridos os requisitos aplicáveis, a extensão dos efeitos do plano a determinados credores abrangidos que não tenham aderido individualmente ao acordo.
Para a Chilli Beans, o desafio será transformar a renegociação dos R$ 340 milhões e a entrada de novos recursos em condições financeiras que permitam manter as atividades, fortalecer a rede de franquias e recuperar a capacidade de crescimento.
A empresa se aproxima de seu aniversário de 30 anos, em 2027, com o objetivo de reorganizar as finanças sem interromper sua presença no mercado brasileiro e internacional. O sucesso da estratégia dependerá da implementação do plano e da evolução de seus resultados operacionais.
