Economia

Brasil tem agora a maior taxa
de juros reais em todo o mundo

A taxa real considera os juros descontados da inflação projetada para os próximos 12 meses

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O Banco Central manteve a Selic em 13,75% ao ano, interrompendo cinco cortes consecutivos. Com juros reais de 9,49%, o Brasil lidera o ranking de 40 economias pesquisadas, à frente da Turquia (7,77%) e da Argentina (6,80%). A Suécia apresenta a menor taxa real da amostra, de -4,87%.

O Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central decidiu, nesta quarta-feira (4 de novembro), manter a taxa básica de juros, a Selic, em 13,75% ao ano. A decisão, tomada por unanimidade, interrompe uma sequência de cinco cortes consecutivos iniciada em março e mantém o Brasil na liderança do ranking de juros reais entre 40 economias analisadas.

Para as famílias brasileiras, a medida prolonga um cenário de crédito caro, com reflexos sobre empréstimos, financiamentos e compras parceladas.

Segundo levantamento da MoneYou e da Lev Intelligence, o Brasil registra juros reais de 9,49% ao ano, considerando as expectativas de inflação e as taxas de juros de mercado para os próximos 12 meses. O percentual é superior ao da Turquia (7,77%), da Argentina (6,80%) e da Rússia (6,57%), países que aparecem nas posições seguintes.

A manutenção da Selic ocorre em um ambiente de incertezas econômicas internas e externas. No comunicado divulgado após a reunião, o Banco Central destacou o prolongamento dos conflitos no Oriente Médio, seus efeitos sobre os preços do petróleo e a adoção de políticas monetárias mais restritivas nas economias avançadas.

No Brasil, o Copom apontou uma desaceleração mais acentuada da atividade econômica, acompanhada de sinais de enfraquecimento do mercado de trabalho e de aceleração da inflação. As expectativas de inflação para 2026 e 2027, apuradas pela pesquisa Focus, chegaram a 5,2% e 4,8%, respectivamente, acima do centro da meta de 3%.

Por que o Banco Central decidiu manter os juros?

A Selic é o principal instrumento utilizado pelo Banco Central para controlar a inflação. Quando a taxa permanece elevada, empréstimos e financiamentos tendem a ficar mais caros, reduzindo o consumo e os investimentos realizados com recursos de terceiros.

Com menos demanda por produtos e serviços, a pressão sobre os preços pode diminuir. O objetivo é impedir que a inflação continue comprometendo o poder de compra da população.

Essa estratégia, entretanto, também tem custos. Juros elevados dificultam a expansão das empresas, desestimulam compras de maior valor e podem contribuir para a desaceleração econômica.

O desafio do Banco Central é encontrar um equilíbrio entre a necessidade de conter a inflação e os efeitos da política monetária sobre a produção, o emprego e a renda.

Brasil tem os maiores juros reais entre 40 economias

A liderança brasileira no ranking internacional fica mais evidente quando se considera a taxa real de juros, que desconta o efeito da inflação.

Diferentemente da taxa nominal, a taxa real permite avaliar quanto os juros representam em termos de poder de compra. No levantamento da MoneYou e da Lev Intelligence, o cálculo considera as taxas de mercado e as projeções de inflação para os próximos 12 meses.

A taxa brasileira passou de 8,45% em setembro para 9,49% em novembro. Isso significa que, mesmo sem uma nova elevação da Selic, as condições monetárias medidas pelo indicador ficaram mais restritivas.

Entre as 40 economias pesquisadas, a média dos juros reais é de 1,28% ao ano. O Brasil apresenta, portanto, uma taxa 8,21 pontos percentuais superior à média da amostra.

Na outra extremidade aparece a Suécia, com taxa real de -4,87% ao ano, a menor entre as economias pesquisadas. A Suíça também apresenta juros reais negativos, de -0,78%, assim como o Japão, com -0,76%.

Juros reais negativos significam que a taxa considerada no levantamento é inferior à inflação esperada, de acordo com a metodologia utilizada. Isso não significa necessariamente que todos os empréstimos bancários nesses países sejam oferecidos a taxas inferiores à inflação.

A comparação internacional também exige considerar diferenças de risco, inflação, política monetária e funcionamento dos sistemas financeiros.

Como os juros elevados afetam o orçamento das famílias?

A manutenção da Selic em 13,75% não significa que consumidores paguem essa taxa nos empréstimos bancários. As instituições financeiras cobram juros próprios, que incluem custos de captação, despesas operacionais, tributos, risco de inadimplência e margem de lucro.

A Selic, entretanto, influencia essas condições e funciona como referência para o custo do dinheiro na economia.

Os efeitos sobre o orçamento doméstico aparecem principalmente no cartão de crédito, nos empréstimos pessoais e nos financiamentos de veículos e imóveis.

Para quem utiliza o crédito rotativo do cartão, os encargos podem consumir uma parcela expressiva da renda. Nos empréstimos pessoais, taxas elevadas aumentam o valor das prestações e o montante necessário para quitar a dívida.

Nos financiamentos imobiliários e de veículos, os juros podem limitar o valor que uma família consegue financiar sem comprometer excessivamente o orçamento.

A consequência é uma redução da renda disponível para outras despesas. Quanto maior a parcela destinada ao pagamento de dívidas, menor tende a ser a capacidade de consumo e de formação de uma reserva financeira.

Nesse exemplo, a diferença entre contratar um empréstimo a 2% e a 5% ao mês supera R$ 4,7 mil ao longo dos dois anos.

A comparação mostra por que é importante observar o Custo Efetivo Total (CET), indicador que reúne os juros e demais encargos de uma operação de crédito. Uma prestação aparentemente acessível pode esconder um custo elevado quando o financiamento se estende por muitos meses.

Quem ganha e quem perde com a Selic elevada?

Os efeitos dos juros elevados não são iguais para todas as famílias.

Consumidores endividados ou que precisam recorrer ao crédito tendem a enfrentar maiores dificuldades. A situação é especialmente delicada quando parte expressiva da renda já está comprometida com prestações e outras obrigações financeiras.

Por outro lado, famílias com recursos disponíveis para investir podem se beneficiar de aplicações de renda fixa cuja remuneração acompanha a Selic ou indicadores relacionados.

Investimentos como títulos públicos pós-fixados e determinados produtos bancários podem oferecer rendimentos nominais mais elevados nesse ambiente. O ganho real, porém, depende da inflação, da tributação, das taxas cobradas e das características da aplicação.

Essa diferença evidencia um efeito distributivo da política monetária: enquanto famílias com capacidade de poupança podem obter rendimentos financeiros, aquelas que dependem de empréstimos enfrentam um custo maior para antecipar consumo ou reorganizar dívidas.

Quando a Selic poderá voltar a cair?

A decisão de novembro não estabelece uma data para a retomada dos cortes. O Copom afirmou que continuará acompanhando a evolução do cenário econômico para manter o grau de restrição necessário à convergência da inflação à meta.

Entre os fatores que podem influenciar as próximas decisões estão o comportamento dos preços, as expectativas de inflação, a situação fiscal, a cotação do dólar, o mercado de trabalho e a intensidade da desaceleração econômica.

A próxima reunião do Copom está prevista para os dias 8 e 9 de dezembro, encerrando o calendário de decisões de 2026.

Até que haja condições para uma redução consistente dos juros, o orçamento das famílias continuará sujeito aos efeitos de uma política monetária restritiva.

Para os consumidores, a manutenção da Selic reforça a importância de comparar taxas, avaliar o custo total de financiamentos e evitar comprometer parcelas excessivas da renda com dívidas.

A inflação elevada reduz o poder de compra. Os juros altos procuram conter esse processo, mas também tornam mais caro o acesso ao crédito. É nesse equilíbrio que se concentra o principal desafio da política monetária brasileira.