
A crise que fez o preço do cacau disparar no mercado internacional está impulsionando uma transformação na indústria do chocolate.
Empresas de biotecnologia desenvolvem métodos para cultivar células de cacau em laboratório e produzir ingredientes utilizados na fabricação de chocolates, biscoitos e outros alimentos.
A tecnologia atrai investimentos de grandes fabricantes, interessados em reduzir a dependência das lavouras e proteger seus negócios das oscilações no abastecimento.
A corrida ganhou força depois que o cacau ultrapassou US$ 12 mil por tonelada em 2024, contra preços próximos de US$ 2,3 mil a US$ 2,5 mil entre 2021 e 2022.
Embora as cotações tenham recuado, a matéria-prima continua relativamente cara. Em 3 de novembro de 2026, o contrato futuro para dezembro era negociado a US$ 5.401 por tonelada na bolsa ICE, em Nova York.
A disparada dos preços foi provocada principalmente pelas dificuldades enfrentadas nas lavouras da África Ocidental, responsável por cerca de 70% da produção mundial de cacau.
Secas, irregularidade das chuvas, temperaturas elevadas e doenças prejudicaram as colheitas, especialmente na Costa do Marfim e em Gana, dois dos maiores produtores.
A situação começou a melhorar com a recuperação da oferta. Segundo a Organização Internacional do Cacau (ICCO), a produção mundial chegou a aproximadamente 4,73 milhões de toneladas na safra 2024/2025, crescimento de 8,5% em relação ao ciclo anterior. O mercado registrou um superávit estimado em 37 mil toneladas.
A recuperação, entretanto, não eliminou os riscos para a indústria. As condições climáticas continuam influenciando a produção, enquanto os fabricantes enfrentam os efeitos de contratos de fornecimento, estoques adquiridos a preços elevados e mudanças no comportamento dos consumidores.
Como funciona o cacau cultivado em laboratório
Uma das soluções em desenvolvimento utiliza técnicas de agricultura celular. Em vez de depender exclusivamente de frutos colhidos nas plantações, os pesquisadores retiram células da planta do cacau e as multiplicam em ambientes controlados.
As células recebem nutrientes e crescem em equipamentos chamados biorreatores, que permitem controlar fatores como temperatura e condições de cultivo. A biomassa resultante passa por processos destinados à obtenção de ingredientes com propriedades adequadas à fabricação de alimentos.
O objetivo é produzir componentes derivados do cacau, incluindo manteiga e pó, que possam ser utilizados pela indústria sem exigir a expansão proporcional das áreas agrícolas.
A proposta oferece uma vantagem potencial: diminuir a exposição do abastecimento às secas, às doenças e às oscilações da produtividade das lavouras. Mas ainda existem obstáculos importantes, principalmente os custos de produção, a ampliação da escala industrial e a necessidade de reproduzir as características de sabor, aroma e textura exigidas pelos fabricantes.

Mondelez e Cargill investem em novas tecnologias
O interesse pelo cacau cultivado em laboratório já mobiliza algumas das maiores empresas do setor alimentício.
A Mondelez International, fabricante de marcas como Lacta e Oreo, investiu na israelense Celleste Bio, que desenvolve tecnologia para produzir manteiga e pó de cacau a partir de células cultivadas.
A Cargill, uma das principais fornecedoras mundiais de ingredientes alimentícios, também investiu na Kokomodo, empresa de biotecnologia que trabalha com culturas celulares de cacau.
Outras companhias seguem o mesmo caminho. A suíça Lindt & Sprüngli está entre as investidoras da Food Brewer, enquanto a California Cultured desenvolve ingredientes de cacau cultivados em células e trabalha para atender às exigências regulatórias do mercado norte-americano.
Os projetos estão em diferentes estágios de desenvolvimento. Algumas empresas apresentam expectativas de comercialização nos próximos anos, mas ainda não há garantia de que a tecnologia alcançará rapidamente preços competitivos ou produção suficiente para abastecer o mercado de massa.
Indústria também desenvolve alternativas sem cacau
Além do cultivo celular, fabricantes e startups procuram reproduzir as características do chocolate utilizando matérias-primas diferentes do cacau.
Uma dessas iniciativas é a NextCoa, desenvolvida pela Voyage Foods em colaboração com a Cargill. A tecnologia utiliza sementes de uva reaproveitadas e processos industriais destinados a obter características semelhantes às do chocolate convencional.
Outra alternativa é a ChoViva, desenvolvida pela empresa alemã Planet A Foods a partir de sementes de girassol. O ingrediente já aparece em produtos comercializados na Europa.
Essas soluções, entretanto, não devem ser confundidas com o cacau cultivado em laboratório. Enquanto a agricultura celular utiliza células da própria planta, os substitutos sem cacau procuram reproduzir suas características por meio de outros ingredientes.
A diferença é importante tanto para a composição dos produtos quanto para sua regulamentação e identificação nas embalagens.
O que pode mudar para o consumidor e para o produtor
A diversificação das fontes de ingredientes poderá reduzir a vulnerabilidade da indústria a futuras crises de abastecimento. Para o consumidor, porém, isso não significa necessariamente chocolate mais barato no curto prazo.
O preço final depende de fatores que vão além do custo do cacau, como processamento industrial, energia, embalagens, transporte, contratos comerciais e margens de distribuição.
A inovação também poderá trazer consequências para países produtores, incluindo o Brasil. Caso os ingredientes cultivados em laboratório conquistem participação relevante no mercado, parte da demanda industrial poderá ser atendida por novas cadeias de fornecimento.
Esse cenário ainda é incerto. A produção tradicional conserva vantagens importantes, especialmente a escala agrícola já estabelecida e as características sensoriais dos diferentes tipos de cacau.
Por isso, o avanço da biotecnologia não representa necessariamente o desaparecimento das plantações. O cenário mais plausível, diante do estágio atual das pesquisas, é a convivência entre o cacau convencional, os ingredientes cultivados em células e os substitutos produzidos com outras matérias-primas.
Antes de chegar amplamente às prateleiras, o cacau cultivado em laboratório precisará superar barreiras de custo, escala e regulamentação. A tecnologia ainda não resolveu a vulnerabilidade do mercado mundial, mas a crise dos últimos anos transformou sua pesquisa em uma aposta concreta da indústria alimentícia.
