Na artrite reumatoide, o sistema imunológico, responsável pela defesa do organismo, passa a atacar seus próprios tecidos. Esse processo provoca inflamação da membrana sinovial, que reveste a parte interna das articulações, e pode causar danos à cartilagem e ao osso.
Embora as articulações sejam o principal local de manifestação, a doença também pode afetar pulmões, olhos, pele e coração. Sua origem não está completamente esclarecida: fatores genéticos e ambientais participam do desenvolvimento do quadro.
“A artrite reumatoide costuma ser vista como uma doença de idoso, mas a realidade é bem diferente: muitos pacientes recebem o diagnóstico ainda na casa dos 30 e poucos anos, quando estão trabalhando, construindo a carreira e, muitas vezes, criando os filhos”, explica a reumatologista Ana Luísa Souza Pedreira.
Quais são os sintomas?
Os sinais mais frequentes incluem dor, sensibilidade, inchaço e calor nas articulações. A rigidez costuma aparecer pela manhã ou depois de períodos de repouso e pode durar mais de 30 minutos. Mãos, punhos e pés estão entre as regiões mais afetadas.
É comum que o comprometimento ocorra dos dois lados do corpo. O inchaço pode dificultar tarefas como fechar as mãos, pentear o cabelo e abotoar roupas. Cansaço, febre baixa ocasional e perda de apetite também podem acompanhar a doença.
A apresentação varia entre pacientes. Algumas pessoas desenvolvem inicialmente inflamação em poucas articulações; outras apresentam comprometimento mais amplo. Os sintomas também podem se intensificar em períodos de reativação da doença.
"Dor nas juntas que persiste por mais de seis semanas, que piora ao acordar e que aparece dos dois lados do corpo ao mesmo tempo não deve ser ignorada. Quanto antes a gente identifica a artrite reumatoide, maior a chance de controlar a doença sem deixar sequelas. Hoje existem tratamentos muito eficazes, mas eles funcionam melhor quanto mais cedo começam", orienta a médica Ana Luísa Pedreira.

Quando procurar atendimento?
Inchaço persistente nas articulações merece investigação, especialmente quando envolve mãos, pés ou mais de uma articulação. A avaliação pode começar na atenção primária, com encaminhamento à reumatologia conforme a suspeita clínica.
A diretriz britânica do National Institute for Health and Care Excellence, conhecido como NICE, recomenda encaminhamento urgente em determinadas apresentações de inflamação articular persistente, mesmo quando os anticorpos pesquisados são negativos ou os marcadores de inflamação estão normais.
Como é feito o diagnóstico?
Nenhum exame isolado confirma ou exclui a artrite reumatoide. O diagnóstico combina histórico dos sintomas, exame físico, testes laboratoriais e, quando necessário, exames de imagem. Também é preciso investigar outras condições que possam explicar o quadro.
Entre os testes utilizados estão o fator reumatoide e o anticorpo anti-CCP. Os resultados contribuem para a avaliação, mas precisam ser interpretados junto aos achados clínicos: algumas pessoas com artrite reumatoide apresentam resultados negativos, enquanto um fator reumatoide positivo pode ocorrer em outras condições.
A proteína C-reativa e a velocidade de hemossedimentação ajudam a avaliar a inflamação. Radiografias permitem acompanhar danos articulares, mas podem estar normais nas fases iniciais. Ultrassonografia e ressonância magnética podem contribuir para identificar alterações precoces.
Os critérios de classificação publicados em 2010 pelo Colégio Americano de Reumatologia e pela EULAR consideram articulações envolvidas, anticorpos, marcadores inflamatórios e duração dos sintomas. Organizam informações para classificar a doença, sem substituir a avaliação clínica individual.
Como funciona o tratamento?
O objetivo é alcançar remissão ou baixa atividade da doença. Remissão significa controlar a atividade inflamatória até níveis muito baixos, conforme critérios clínicos, e não equivale à cura. O acompanhamento verifica a resposta e orienta ajustes no tratamento.
O metotrexato integra o grupo dos medicamentos modificadores da doença, que procuram controlar sua evolução. A atualização de 2025 das recomendações da EULAR, publicada em 2026 na revista Annals of the Rheumatic Diseases, recomenda sua utilização na estratégia inicial.
Quando a resposta é insuficiente em três a seis meses, a EULAR recomenda acrescentar um medicamento biológico. Esses fármacos atuam sobre componentes específicos da resposta imunológica envolvidos na inflamação. A escolha depende da resposta ao tratamento e das condições de saúde do paciente.
Outra possibilidade são os inibidores de JAK, medicamentos que interferem em mecanismos de sinalização dentro das células. Sua indicação exige ponderar benefícios e riscos, incluindo eventos cardiovasculares, câncer e tromboembolismo, que envolve a formação de coágulos capazes de obstruir vasos sanguíneos.
As recomendações sobre corticoides apresentam diferenças. A EULAR recomenda sua associação por curto período na estratégia inicial. Já a diretriz de 2021 do Colégio Americano de Reumatologia recomenda condicionalmente iniciar medicamentos modificadores da doença sem corticoides de curto prazo. Portanto, a associação não deve ser apresentada como uma regra universal.
O que a pesquisa científica demonstra?
O ensaio clínico randomizado TICORA, de Grigor e colaboradores, publicado em 2004 na revista The Lancet, comparou acompanhamento intensivo com cuidados de rotina em 110 pacientes. A remissão, conforme o critério utilizado no estudo, ocorreu em 65% dos participantes do grupo intensivo e em 16% daqueles que receberam cuidados habituais.
O resultado apoia a importância de monitorar sistematicamente a atividade da doença e ajustar o tratamento. Os percentuais descrevem aquela pesquisa e não constituem uma previsão individual de resposta. A estratégia de acompanhamento orientado por metas também integra as recomendações da EULAR.
Além dos medicamentos, fisioterapia e terapia ocupacional ajudam a preservar força, mobilidade e capacidade de realizar tarefas. O acompanhamento inclui a avaliação dos possíveis efeitos adversos do tratamento. Mesmo com remissão sustentada, a redução de medicamentos deve ser discutida com o médico, pois sua interrupção pode provocar reativação da doença.
