Há leituras que pedem pressa, outras pedem silêncio; a de “Cidade de bolhas e vãos” exigiu cuidado, pausa, respiração. É uma história pontuada por elementos de fácil assimilação pelo leitor comum, como aventura, amor, sexo, mistério, traição, mas de sua linha condutora saltam reflexões que deslocam o romance para o terreno da política, da sociologia, da filosofia e da psiquê humana.
Sempre me questionei sobre a forma como as cidades nos atravessam sem pedir licença, como nos moldam por dentro, enquanto seguimos acreditando que somos apenas sujeitos em trânsito. O livro de Suzana Varjão escancara esses atravessamentos com delicadeza e dureza na mesma medida, revelando vazios que não são ausência, mas matéria viva: lacunas de afeto, de pertencimento, de escuta.
As bolhas, pretensamente, protegem, mas isolam; os vãos desnudam, mas permitem passagem. Fiquei presa a esse jogo ambíguo no qual a narrativa se sustenta, sem concessões fáceis, e terminei a leitura com a sensação rara de quem foi acompanhada, não conduzida pela trama, talhada sobre dois planos macro, por onde transitam o palpável e o abstrato, arquiteturas e mentalidades, estrutura e superestrutura.
Desse jogo, que é também de observação e projeção, resulta uma fabulação que se entrelaça com a vida real, um futurismo com rastros no tempo presente, como sublinhado pela autora no prefácio do livro, em que fala sobre essas “intersecções”, ilustrando-as com os casos da pandemia de Covid e do surto de metanol.
Atenção aos silêncios
Um dos pontos positivos do romance, o texto não explica, não didatiza, não se apressa em oferecer respostas. Ele confia no leitor, e isso é um gesto político e literário que a escritora executa com precisão. Talvez por isso o fim doa um pouco: o livro não encerra, apenas suspende. E seguimos, depois da última página, caminhando pela cidade com outros olhos, atentos aos silêncios, às frestas, às bolhas que habitamos, e às que ainda precisamos estourar.
Em síntese, “Cidade de bolhas e vãos” revela um modo de pensar admirável, que transita por ancestralidade, meio ambiente, direitos humanos, futurismo, inteligência artificial e “lugares” sociais vários, com densidade e sensibilidade, convidando-nos a refletir sobre as relações humanas, a era digital e o futuro do planeta, a partir da trajetória de duas mulheres: uma negra (Sandra) e uma branca (Camille).
Uma leitura ligeira poderia classificar Sandra como protagonista e Camille como antagonista. Mas as personagens não se entregam de imediato; exigem escuta longa, quase convivência. Em vários momentos, me vi do lado da Sandra e, em muitos outros, do lado da Camille. E o fato de oscilar entre uma e outra me parece um dos grandes acertos do livro.
Não há lugar confortável, ali. Em certos momentos, Sandra oferece um ponto de apoio ético, quase um chão possível; em outros, Camille convoca empatia justamente por estar imersa em contradições que não são simples fraquezas individuais, mas efeitos de um mundo que empurra, suga, confunde. Essa alternância não é indecisão do leitor, é método da narrativa.
Arranjo de forças
Outro aspecto relevante de “Cidade de bolhas e vãos” é permitir que o leitor menos apressado se descole dos fatos narrados, dos sentidos literais, e alcance a camada supraestrutural, figurativa, suas percepções, suas subjetividades, suas mensagens subliminares.
Em vários momentos, por exemplo, me perguntei se o lodaçal que ambas pisam é um holograma do qual elas não se dão conta, ou se é, ao mesmo tempo, holograma e estrutura. Por vezes, a sensação é de que as personagens acreditam tratar-se de um terreno ilusório, fabricado, algo que poderia ser desativado se elas “enxergassem melhor”. Essa percepção, ou perspectiva, carrega um desejo de “salvação”, também certo distanciamento, como se a consciência, o discernimento, a razão estivessem sempre fora do corpo que afunda.
Em outros momentos, a narrativa sugere que o lodaçal não é apenas uma projeção subjetiva. Ele é posto, histórico, político, material. Não nasce da “distração” de uma ou de outra personagem, mas de um arranjo de forças que normaliza o afundamento e depois responsabiliza quem afunda. Existe no discurso que suaviza, na estética que disfarça, na promessa de saída individual, mas o chão é real, viscoso, e gruda.
Talvez por isso eu tenha ficado, em momentos distintos, do lado das duas. Sandra vê algo que Camille não vê; Camille sente algo que Sandra não pisa. Nenhuma delas está inteira sozinha. E o livro não pede que escolhamos um lado definitivo, mas que suportemos essa fricção sem resolver rápido demais. Há personagens que continuam pensando dentro da gente mesmo depois do ponto final. Camille e Sandra são, claramente, desse tipo.
É um texto incrível, que tive o privilégio de ler, antes do lançamento, e que recomendo a todos os que amam a boa literatura.
Sobre a autora - Suzana Varjão é uma renomada jornalista, pesquisadora e escritora baiana, cujo trabalho resultou em 28 prêmios de reportagem – a maioria, pela defesa de direitos humanos, temática recorrente de seus 13 livros e de dezenas de artigos publicados em coletâneas e revistas do Brasil e da América Latina. “Cidade de bolhas e vãos” é o primeiro romance da autora, que se destaca ainda como crítica de teatro, ensaísta, contista e cronista.
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Marcela Ribeiro é jornalista e pesquisadora da UNB, dedicando-se ao estudo sobre racismo e sociedade, igualdade de gênero, etarismo e direito universal ao cuidado. Tem experiência em instituições como ONU Mulheres e ACNUR.
