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Conta de luz e preço dos alimentos fazem a inflação voltar a crescer

Transportes e outros serviços também ficaram mais caros, tornando mais difícil equilibrar as despesas do mês

Os vilões da inflação em setembro
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A inflação oficial subiu 0,82% em setembro, maior alta desde março, pressionada pela conta de luz, alimentos e combustíveis. A energia elétrica aumentou 7,98%, enquanto o tomate encareceu 37,76%. O IPCA acumula 4,58% em 12 meses, acima do teto da meta de inflação de 4,5%.

A inflação oficial brasileira voltou a subir em setembro, depois de ter registrado queda no mês anterior.

O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) avançou 0,82%, o maior resultado mensal desde março de 2026, quando havia subido 0,88%.

A principal pressão veio da conta de luz, mas os alimentos, os combustíveis e as passagens aéreas também contribuíram para a alta dos preços.

Os dados foram divulgados nesta sexta-feira (9 de outubro) pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Em agosto, o IPCA havia registrado deflação de 0,32%, ou seja, uma redução média dos preços.

Com o resultado de setembro, a inflação acumula alta de 3,95% no ano e de 4,58% nos últimos 12 meses, superando o teto de 4,5% estabelecido para a meta brasileira.

A alta de setembro também surpreendeu o mercado financeiro. Economistas consultados pela Reuters esperavam uma inflação de 0,73%, abaixo do resultado efetivamente registrado.

Para o consumidor, o aumento significa que produtos e serviços ficaram, em média, mais caros. Uma cesta de compras que custava R$ 1.000 em agosto passaria a custar R$ 1.008,20 em setembro, caso seus preços acompanhassem exatamente a variação do IPCA.

O impacto real, entretanto, varia conforme os hábitos de consumo. Famílias que gastam proporcionalmente mais com energia elétrica e alimentação podem sentir aumentos superiores à média nacional.

Conta de luz foi a principal responsável pela alta

A energia elétrica residencial subiu 7,98% em setembro, depois de ter apresentado queda de 7,63% em agosto. Sozinha, respondeu por 0,32 ponto percentual do IPCA, o equivalente a aproximadamente 39% de toda a inflação do mês.

A principal explicação está no fim do chamado Bônus de Itaipu, um desconto concedido nas contas de energia em agosto. O benefício é financiado com recursos provenientes do saldo positivo da comercialização da eletricidade produzida pela usina hidrelétrica.

Como o desconto deixou de ser aplicado em setembro, as contas voltaram a valores mais elevados. Assim, parte expressiva do aumento medido pelo IBGE resulta da comparação com um mês em que os consumidores haviam recebido um abatimento temporário.

Isso não significa que todas as tarifas de energia tenham sofrido reajuste de 7,98%. O percentual representa a variação média dos preços da eletricidade residencial captada pelo índice.

O grupo habitação, que inclui energia elétrica, água, aluguel e outras despesas relacionadas à moradia, subiu 2,31% e teve o maior impacto sobre a inflação, de 0,35 ponto percentual.

Alimentos voltam a subir após três meses de queda

Os preços dos alimentos também voltaram a pressionar o orçamento doméstico. O grupo alimentação e bebidas registrou aumento de 0,83%, interrompendo uma sequência de três meses de redução.

Considerando apenas os alimentos comprados para consumo em casa, a alta foi de 0,96%.

Os maiores aumentos ocorreram principalmente entre os produtos agrícolas. O tomate ficou 37,76% mais caro, enquanto a batata-inglesa subiu 24,07%. A cebola teve elevação de 10,14%, o arroz aumentou 4,56% e as carnes ficaram, em média, 0,63% mais caras.

Segundo o IBGE, as condições climáticas contribuíram para a redução da oferta de alguns alimentos. Temperaturas mais baixas retardaram o amadurecimento do tomate, enquanto as chuvas prejudicaram a produção de batatas e afetaram a qualidade da cebola.

Quando a quantidade de produtos disponível para venda diminui, os preços tendem a subir, especialmente se a procura permanece relativamente estável.

Nem todos os alimentos, porém, ficaram mais caros. O frango inteiro apresentou queda de 1,96%, o frango em pedaços recuou 1,41% e as frutas ficaram, em média, 1,12% mais baratas.

A alimentação fora de casa também subiu, com aumento de 0,48%.

Combustíveis e passagens aéreas também ficaram mais caros

O grupo transportes registrou alta de 0,89% em setembro, contribuindo para a aceleração da inflação.

As passagens aéreas aumentaram 9,66%, enquanto os combustíveis subiram, em média, 1,41%.

Entre os combustíveis, o etanol apresentou a maior elevação, de 3,16%. O óleo diesel ficou 1,69% mais caro e a gasolina subiu 1,21%.

Esses aumentos afetam diretamente quem utiliza veículos particulares ou precisa viajar. Também podem influenciar os custos de transporte de mercadorias e de prestação de serviços, embora eventuais repasses aos consumidores dependam das condições de cada mercado.

A equipe econômica anunciou nesta sexta-feira que vai ampliar a desoneração de tributos federais sobre a gasolina e aumentar os subsídios ao etanol e ao diesel importado.

As medidas ocorrem a 16 dias do segundo turno das eleições e envolvem custos estimados em R$ 5,2 bilhões em 30 dias.

Com a decisão, a redução tributária sobre a gasolina passa de R$ 0,63 para R$ 0,89 por litro, zerando as alíquotas de PIS/Pasep, Cofins e Cide-Combustíveis. A medida vale por 30 dias, com possibilidade de revisão ou prorrogação.

Além da gasolina, o pacote contempla a manutenção de benefícios ao etanol hidratado e o reforço da subvenção ao diesel importado.

Confira as principais mudanças:

-- Gasolina: redução tributária de R$ 0,89 por litro, com custo estimado de R$ 2,4 bilhões por mês;

-- Etanol: manutenção da desoneração de R$ 0,19 por litro;

-- Produtores de etanol: subsídio ampliado de R$ 0,25 para R$ 0,43 por litro;

-- Diesel importado: subvenção adicional de R$ 1,40 por litro, além dos R$ 2,12 já previstos.

Mais da metade dos produtos e serviços pesquisados ficou mais cara

A inflação de setembro não se limitou a alguns produtos específicos. Segundo o IBGE, todos os nove grupos de produtos e serviços pesquisados apresentaram aumento de preços.

O chamado índice de difusão, que mede a proporção de itens com variação positiva, chegou a 55%. Isso significa que mais da metade dos 377 produtos e serviços acompanhados pelo instituto ficou mais cara.

Em agosto, essa proporção havia sido de 54%.

Outro indicador importante foi o comportamento dos serviços, cujos preços subiram 0,61% em setembro e acumulam aumento de 5,98% nos últimos 12 meses.

Os serviços incluem despesas como aluguel de veículos, hospedagem, alimentação fora de casa e atividades relacionadas ao consumo das famílias.

Diferentemente de alguns alimentos, cujos preços podem variar rapidamente em função das safras e do clima, os preços dos serviços costumam apresentar maior persistência. Por isso, são acompanhados com atenção pelo Banco Central na avaliação das pressões inflacionárias.

Inflação ultrapassa o teto da meta do Banco Central

Com a alta de setembro, a inflação acumulada em 12 meses passou de 4,22%, em agosto, para 4,58%.

O resultado ficou acima do limite superior da meta de inflação estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional (CMN).

A meta central é de 3%, com intervalo de tolerância de 1,5 ponto percentual para cima ou para baixo. Portanto, a inflação pode variar entre 1,5% e 4,5% sem ultrapassar os limites estabelecidos.

O fato de o IPCA superar 4,5% em um único mês, entretanto, não caracteriza automaticamente o descumprimento formal da meta.

Pelas regras em vigor, isso ocorre quando a inflação acumulada em 12 meses permanece fora do intervalo de tolerância durante seis meses consecutivos.

O comportamento dos preços também influencia as decisões do Banco Central sobre a taxa básica de juros, a Selic.

Quando a inflação apresenta sinais persistentes de aceleração, a autoridade monetária pode encontrar menos espaço para reduzir os juros. Taxas elevadas tendem a encarecer o crédito, desestimular parte do consumo e dos investimentos e contribuir para conter a demanda.

O que o resultado significa para o consumidor?

O IPCA mede a variação dos preços de uma cesta de produtos e serviços consumidos por famílias com renda entre um e 40 salários mínimos, em áreas urbanas pesquisadas pelo IBGE.

É importante distinguir inflação de preço alto. Uma inflação de 0,82% significa que os preços, em média, aumentaram nesse percentual durante setembro. Não significa que todos os produtos ficaram 0,82% mais caros.

Alguns tiveram aumentos muito superiores, como o tomate, enquanto outros ficaram mais baratos.

Também é importante compreender que uma redução da inflação não significa necessariamente queda dos preços. Se o índice passar de 0,82% para 0,30% no mês seguinte, por exemplo, os preços continuarão aumentando, mas em ritmo menor.

Para as famílias, o principal problema é a perda do poder de compra quando os preços sobem mais rapidamente do que a renda.

A pressão costuma ser especialmente significativa para quem compromete grande parte do orçamento com despesas essenciais, como alimentação, energia elétrica, transporte e moradia.

O que esperar dos próximos meses?

Uma parcela relevante da inflação de setembro foi provocada pelo fim de um desconto temporário na energia elétrica. Por essa razão, esse efeito específico não deve se repetir automaticamente nos meses seguintes.

Isso, porém, não garante uma redução da inflação. O comportamento dos alimentos continuará dependendo das condições climáticas, das safras e do abastecimento, enquanto combustíveis, serviços e tarifas também poderão influenciar os próximos resultados.

O dado de setembro mostra que a pressão sobre os preços foi além da conta de luz. A alta dos alimentos, dos transportes e dos serviços indica que a inflação permanece disseminada por diferentes setores da economia.

Para o consumidor, o desafio continua sendo acomodar despesas essenciais mais elevadas dentro de um orçamento que nem sempre cresce no mesmo ritmo dos preços.