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Fiéis espalham a fé pela Cidade Baixa e louvam padroeira da Bahia

A festa em louvor à Nossa Senhora da Conceição da Praia é a mais antiga festa religiosa do Brasil

Foto: Kithi
A saída da imagem, na Igreja da Conceição da Praia, em Salvador
A saída da imagem, na Igreja da Conceição da Praia, em Salvador

O pipoco de fogos foi ouvido à distância.

Na Avenida Contorno, na Praça Cairú , no Mercado Modelo, na Praça Municipal, no Comércio inteiro o sinal foi dado:  era dia de celebrar padroeira única e secular  da Bahia, Nossa Senhora da Conceição da Praia.

A primeira missa aconteceu ao raiar do dia, às 5h da manhã. Depois teve mais missa às 6h e às 7h... até chegar à principal, que começou às 8h, na celebração solene conduzida pelo arcebispo de Salvador, Primaz do Brasil, Dom Murilo Krieger. Mas às 7h30 a Basílica já estava lotada.


Missa solene - Foto: Kithi

Enquanto isso, em outro ponto da cidade, na Paróquia de Nossa Senhora da Conceição de Periperi, fiéis de todas as idades encheram a pequena igreja e escutaram atentos às palavras do padre Sergio Ricardo, muito querido pela comunidade.

A simplicidade da igreja só fez ficar ainda mais bonita a celebração à padroeira. Para arrecadar fundos para a festa, a comunidade organizou uma quermesse e a Novena cumpriu à risca o calendário religioso. Começou no dia 19 de novembro e terminou no dia 7 de dezembro, exatamente como na igreja matriz.

Uma das responsáveis pelos trabalhos na igreja de Periperi, Maria Idália, há mais de 20 anos é devota fervorosa da santa e conta que os preparativos por lá são iniciados quase logo após o término  dos festejos. "Tudo tem que ser no capricho, pois ela merece todas as honras", afirma.


Maria Idália, devota há mais de 20 anos - Foto: Kithi

As celebrações continuaram durante toda a manhã e as homenagens por lá se encerrarão com uma missa às 16h e procissão às 17h.

De volta à Basílica da Conceição da Praia, a missa campal solene conduzida pelo Arcebispo de Salvador, Primaz do Brasil, Dom Murilo Krieger foi realizada ao som d o coral e da orquestra da Conceição da Praia, regidos pelo maestro David Tourinho.

Mais e mais fiéis chegavam a todo momento levando flores que eram colocadas no andor da santa, todo coberto de flores brancas. Este ano o andor foi ornamentado em forma de portal , fazendo alusão à primeira capela construída para Nossa Senhora da Conceição.

A emoção tomou conta de todos quando o cortejo se formou e surgiu o estandarte de Nossa Senhora, seguido pelas bandeiras de diversos municípios baianos, das imagens do Menino Jesus e de Bom Jesus da Lapa.

O ápice se deu na chegada do andor com a imagem de Nossa Senhora da Conceição da Praia. Uma chuva dourada então caiu sobre a imagem, que seguiu ao som de palmas, hinos e orações, em procissão pelas ruas do Bairro do Comércio.

Por onde a procissão passava as pessoas emocionadas clamavam e louvavam a Santa.

As missas continuaram tarde afora e os festejos se encerram às 17 horas com a XI Missa da Amizade, reunindo os amigos e amigas de Nossa Senhora.


"Baiana" acompanha as homenagens à padroeira - Foto: Kithi

Histórias de fé

Em meio aos preparativos e celebrações muitas histórias de fé em Nossa senhora emergem dos corações de quem participa, seja trabalhando, ou como fiel.

A estudante de Jornalismo Kithi conta que no ano de 1987, quando ela tinha 17anos, vivia a noite de véspera do temido vestibular...

“Queria ser geografa. Já amava Milton Santos! Meu avô teve uma crise forte naquela noite. Tinha transtorno bipolar. Foi uma loucura! Fui dormir quase quatro da manhã e às sete já tinha que estar a postos para fazer a prova.

Nesse espaço de tempo tive um sonho, daqueles que parece real! Nele uma mão branca me acariciava o corpo. Eu podia sentir na pele a doçura do afago enquanto uma voz me dizia: “minha filha o Santo Ofício da Imaculada Conceição é a sua oração. Levante e ore que vais fazer uma boa prova.”

Eu perdi o terceiro ano do ensino médio, mas passei no vestibular com uma boa pontuação. E Nossa Senhora se perpetuou dentro de mim e, sem palavras para expressar tudo que senti naquele momento, pintei um quadro muitos anos depois: A mão de Nossa Senhora.

Lázaro Claudemberg, que veio de Maceió para ornamentar a Basílica da Conceição da Praia para a festa também dá seu depoimento no vídeo abaixo.

Para a aposentada Maria da Conceição, 75, a fé em Nossa Senhora da Conceição é desde sempre. Nascida em oito de dezembro, foi batizada com o nome da santa. Mas existe uma bela história para contar para além da coincidência da data.

Ela conta que sua mãe vivia em Santo Amaro e  teve um sonho com São Benedito onde ele afirmava que ela ia ter dois mamãozinhos. A mãe não entendeu a mensagem. Na época do seu nascimento se  levava quatro dias de barco para chegar em Salvador, mas poucos dias antes do nascimento a mãe de Conceição teve outro sonho onde foi avisada para não viajar.

Ela atendeu. Chegou a hora da concepção e para a parteira foi um sufoco. A criança demorava a nascer, não estava na posição correta, não coroava.

Uma oração foi feita e o milagre aconteceu. Na verdade eram duas crianças, duas meninas. Uma surpresa para todos.

Desde então, a mãe passou a levar ela e a irmã, Maria Beneditina, vestidas iguais, todos os dias oito de dezembro de cada ano para orar e agradecer. Hoje, 75 anos depois a tradição das irmãs continua valendo e as duas estavam lá, nas homenagens à Nossa Senhora da Conceição, vestidas de branco.

No vídeo - Dom Murilo Krieger fala sobre a fé à padroeira da Bahia

Maria Madalena, 68, aos 13 anos, viveu novamente. Ela caminhava pela rua debaixo de um temporal quando sentiu sua sombrinha ser puxada para cima. Um fio de alta tensão havia caído  de repente ela se viu enrolada nele. Chamou por Nossa Senhora e Nosso Senhor Jesus Cristo com todo fervor e conseguiu se libertar.

As pessoas presentes no dia do acidente não acreditaram quando viram a garota viva. Até hoje ela agradece pela graça alcançada e mantém viva a tradição da oração e da devoção a Nossa Senhora.

Para Armando Santos, que teve graves problemas do coração, foi Nossa Senhora quem salvou sua vida. 

Veja no vídeo - História de fé

Conheça a história da Igreja da Conceição da Praia

A Igreja de Nossa Senhora da Conceição da Praia, ou Basílica de Nossa Senhora da Conceição da Praia, como a vemos hoje, foi constrúida em estilo predominantemente barroco,  entre 1739 e 1849, no local onde havia uma capela de taipa de pilão erigida em 1549 a mando do primeiro governador-geral do Brasil, Tomé de Sousa, que teria participado pessoalmente da construção do pequeno templo.

Uma basílica menor, como é a nossa igreja, leva este título honorífico, que é  concedido pelo Papa em diversos países do mundo, por ser considerada  importante pela veneração que lhe devotam os cristãos, pela transcendência histórica e pela beleza artística de sua arquitetura e decoração.

A Igreja de Nossa Senhora da Conceição da Praia é uma das paróquias mais antigas da Arquidiocese de São Salvador da Bahia, logo de todo o Brasil. 

Situada no sopé da montanha que liga a Cidade Alta à Cidade  Baixa, é a terceira construída no local; sobre o assentamento do primitivo templo da época da fundação da cidade.

Em 1623 o templo foi elevado a Matriz da Nova Freguesia de Nossa Senhora da Conceição da Praia. Em 1736 as confrarias do Santíssimo Sacramento da Imaculada Conceição decidiram construir uma igreja maior. O projeto foi então enviado de Portugal para ser executado em Llioz.

A atual igreja foi iniciada em 1739 e inaugurada em 1765, mas suas obras só foram concluídas em 1849. As plantas ficaram a cargo do engenheiro militar Manuel Cardoso de Saldanha e o executor dos materiais foi o mestre pedreiro Manuel Vicente.

De Portugal, o mestre pedreiro arquiteto Eugénio da Mota preparou as pedras, porque a igreja foi pré-fabricada lá, em pedra de Lioz, e chegou ao Brasil em pedaços separados e numerados. Eugénio da Mota acompanhou seu transporte para Salvador, onde participou da edificação do monumento.

A construção compreende, além da igreja, dois corpos laterais que abrigam atividades das Irmandades do Santíssimo Sacramento e da Imaculada Conceição. Seu interior possui a primeira demonstração mais completa do barroco de dom João V no Brasil, e se destaca no teto a pintura de concepção ilusionista barroca de origem italiana, de autoria de José Joaquim da Rocha.

A pintura do forro da nave mostra a glorificação da santíssima Virgem da Imaculada Conceição, que aparece coroada de estrelas, em cima de uma lua nova, seu símbolo particular. Aos seus pés, quatro mulheres festivamente vestidas para lhe fazer homenagem. As duas à esquerda devem representar a América e a Europa. À direita, a Ásia e a África . Em cima da Virgem, figura a santíssima trindade, com o Agnus Dei adorado por são João Evangelista e o Santo Precursor.

Para saber mais

-- O bi-centenário de um Monumento Baiano – Coleção Conceição da Praia – Vol. II, Ed. Beneditina – Salvador, 1971.

-- IPAC-BA, Inventário de Proteção do Acervo Cultural – Vol. I – Salvador, 1975.

-- BAZIN, Germain. A Arquitetura Religiosa Barroca no Brasil – Ed. Record, Vol. I – Rio de Janeiro, 1956.

-- GASPARINI, Graziano. http://www.vivercidades.org.br/ - Barroco no Brasil: Mais qualidade que quantidade (Parte II), em 7 de outubro de 2004.

-- SANTOS, Paulo Roberto Silva. Igreja e Arte em Salvador no século XVIII. Curitiba: Criar, 2002.

-- SANTOS, Paulo Roberto Silva. Semper Virgo Dei Genitrix: gesto de devoção e fé na Conceição da Praia no século XVIII. Revista do IGHB, n. 96, p. 315-322, 2001.

-- VIANNA, Francisco Vicente. Memórias sobre o Estado da Bahia. Bahia: Diário da Bahia, 1893.

-- TIRAPELI, Percival. Igrejas barrocas do Brasil. São Paulo: Metalivros, 2008.

-- AMADO, Jorge. Bahia de todos os Santos: guia de ruas e mistérios. Rio de Janeiro: Record, 1981.