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Festa a Santa Bárbara tem repique de sinos e queima de fogos

A celebração a Santa Bárbara no Centro Histórico começou às cinco da manhã

Foto: Kithi
A fé marcou a festa em homenagem a Santa Bárbara
A fé marcou a festa em homenagem a Santa Bárbara

O céu estava cinza no Pelourinho. A expectativa era de que chovesse muito na manhã deste 4 de dezembro. Entre os fiéis que lotaram o largo, entretanto, o comentário era de que ela, ou elas, não deixariam a chuva cair antes da festa terminar, antes de acontecer a missa campal e a procissão. E a chuva não caiu...


E a chuva não caiu, no Pelourinho - Foto: Kithi

A celebração a Santa Bárbara no Centro Histórico, que para muitos é também a celebração a Iansã, começou às cinco da manhã com a alvorada de fogos. Às oito, os sinos da igreja do Rosários dos Pretos começaram a repicar e os clarins, na sacada do Centro de Culturas Populares e Identitárias anunciaram o início da Missa Campal, celebrada pelo padre Lázaro Muniz.

Se o ano inteiro na Rosário dos Pretos  as cerimônia são marcadas por manifestações da fé católica e das religiões de matrizes africanas, no dia 4 de dezembro os limites que separam estes dois mundos se diluem ainda mais. No ofertório havia acarajés e os cânticos que misturaram música religiosa e popular, em louvor à santa, foram embalados pelo som dos atabaques.  


Acarajés, no ofertório a Santa Bárbara - Foto: Kithi

Há relatos que apontam que o culto a Santa Bárbara existe em Salvador desde 1641, ou seja, a 377 anos, quando foi instalado o Morgado de Santa Bárbara  pelo coronel Francisco Pereira do Lago. O Morgado funcionava principalmente como um mercado e nele pode ter sido construída a antiga Igreja de Santa Bárbara. Não há muita precisão histórica.

O Morgado de Santa Bárbara envolvia vários prédios. Em 1860 a Presidência da Província da Bahia descreve-se o Morgado de Santa Bárbara como um edifício composto de quatro quarteirões de casas, cujo local é o verdadeiro centro da parte comercial da cidade. 

Mas a festa pública a Santa Bárbara tem menos tempo, cerca de 200 anos.  Por agregar valores culturais singulares, dar destaque às celebrações da fé católica e das religiões de matriz africana, a festa foi registrada como Patrimônio Imaterial da Bahia em 2008, através do Decreto nº 11.353/08.

Terminada a Missa Campal, uma segunda imagem de Santa Bárbara, mais antiga,  saiu da igreja num andor, emoldurada em flores vermelhas e brancas e começou a procissão. À frente dela, andores menores com imagens de Cosme e Damião, São Miguel Arcanjo, São Jorge, São Lázaro, São Sebastião e São Gerônimo e um carro de som puxando os cânticos e as saudações.


Andor com a imagem de Santa Bárbara - Foto: Kithi

Em frente à sede do afoxé Filhos de Ghandy, que distribuiu acarajés aos fiéis, uma chuva de flores e perfume de alfazema recebeu o cortejo. E os homens que estendem o tapete branco da paz no carnaval abriram alas para o branco e vermelho de Bárbara e Iansã.

Maciel de Baixo, Terreiro de Jesus, Praça da Sé, a procissão segue pela Ladeira da Praça rumo ao quartel do Corpo de Bombeiros. Em meio à multidão, a professora, escritora e poetiza Mabel Velloso, emocionada, reverenciava a santa.

Protetora das mulheres trans e dos gays, Iansã/ Santa Bárbara sempre tem em seu cortejo travestis, transexuais, homossexuais como Paulete Furacão, uma das mais importantes ativistas das causas LGBT da nossa cidade.

Veja no vídeo - Padre explica o que representa a festa a Santa Bárbara

O momento mais emocionante da procissão acontece quando a imagem chega ao  Quartel Geral do Corpo de Bombeiros, na Barroquinha, quando o andor é  entregue aos bombeiros militares, que promovem o seu encontro com a imagem do Quartel.

Os bombeiros enfrentam o fogo e as intempéries para salvar vidas e Santa Bárbara é sua padroeira e protetora.

Após o banho com mais de 800 litros de água benta, lançados pela vovó, a viatura mais antiga do batalhão, em operação desde 1912 , os bombeiros distribuem para a população mil pratos do seu tradicional caruru e a procissão retorna à Igreja do Rosário dos Pretos . Segundo o comandante-geral dos Bombeiros, coronel Francisco Telles, foram utilizados 10 mil quiabos este ano.


A fé em detalhes - Fotos: Kithi

Quem foi Bárbara

A linda jovem, filha única do rico comerciante Dióscoro, nasceu em Nicomédia, Bitínia, hoje a cidade de Izmit, na Turquia.Viveu no fim do terceiro século DC. Foi  trancafiada por seu pai em uma torre e de lá passou observar a natureza pela janela e a se questionar se não haveria um ser superior aos deuses cultuados pelo seu povo.

Tamanha beleza e perfeição só poderiam ser criadas por um ser perfeito.

Quando em idade para o casamento, aos 17 anos,  recusou todos os pretendentes. Enviada para a cidade para ter contato com o povo, Barbara conheceu o Cristianismo, que deu a ela a resposta para seu maior questionamento: a existência de Deus.

Se converteu e foi batizada por um padre vindo de Alexandria. Em Jesus Cristo encontrou o sentido verdadeiro e profundo para sua vida.

Dióscoro, furioso, percebendo que sua filha estava irredutível na sua decisão de abraçar a nova religião  a denunciou para o prefeito. Bárbara foi submetida a tortura e mesmo passando pelos mais severos sofrimentos, não renegou sua fé.

Teve os seios e foi enviada para fora da cidade onde próprio pai a degolou.

No momento que a cabeça dela rolava pelo chão, um raio seguido de um estrondoso trovão desceu sobre a terra e atingiu Dióscoro causando sua morte instantânea.

Este fato atribuiu a Santa Bárbara a proteção contra relâmpagos e tempestades.

A mensagem que Santa Bárbara deixa para seus fiéis é a da busca pela verdade com o coração sincero e aberto, além de muita coragem e fé.

Veja no vídeo - A fé em Santa Bárbara

Quem é Iansã

São muitas as histórias que contam como é a Rainha dos Raios, das ventanias e da justiça. Aquela que vai à luta defender o que é seu e conquista nas guerras e na arte do amor.

Uma delas conta que ela percorreu os vários mundos e aprendeu com quase todos os orixás as habilidades e o melhor que o universo podia oferecer. Manuseio da espada com Ogum, com Oxaguian o uso do escudo.

Mais adiante em sua jornada, conheceu Exu e com ele aprendeu tudo sobre o fogo e sobre a magia. Oxossi a ensinou a caçar, tirar a pele do búfalo e a se transformar em um com ajuda da magia já aprendida com Exu.

Em uma breve passagem pelo reino de Logun-edé aprendeu a pescar. No reino de Obaluaê foi ensinada a controlar os mortos.

Sua última visita foi aXangô, o mais vaidoso dos reis. Pensou que com ele, aprenderia apenas a viver ricamente, porém o Deus do Trovão a ensinou muito mais, a amar de forma verdadeira e sincera, levando-a a uma paixão intensa como nunca poderia imaginar. Ele, além de ensinar o domínio dos poderes dos raios, lhe deu também seu coração.

 
Êparrei Iansã!”


Os festejos de 4 de dezembro marcam a abertura do calendário oficial das festas populares da capital baiana, que até o mês de fevereiro contará com as celebrações de Nossa Senhora da Conceição da Praia (8 de dezembro), Santa Luzia (13 de dezembro), Bom Jesus dos Navegantes (1º de janeiro), Festa de Reis (6 de janeiro), Lavagem do Bonfim (17 de janeiro), Iemanjá (2 de fevereiro) e Itapuã (quinta-feira antes do carnaval), encerrando no Carnaval.

Veja galeria de fotos


Fotos: Kithi

A programação da festa

Mercado de Santa Bárbara
Caruru do Mercado de Santa Bárbara
2 de dezembro

Largo do Pelourinho
-- Missa Campal
-- Jorginho Commancheiro 
-- Samba Chula de São Brás
-- Conexão Negra
-- Claudya Costta 

Quartel do Corpo de Bombeiros
-- Missa 
-- Tradicional Caruru

Largo Tereza Batista
Samba na Fé de Santa Bárbara

Largo Quincas Berro d'Água
Samba de Oyá 

Largo Pedro Archanjo
Samba