O cenário político no território Médio Rio de Contas desenha um tabuleiro de forças opostas, mas com uma dominância clara. De um lado, a figura de Zé Cocá (PP), prefeito de Jequié, que teve uma votação histórica no município. Do outro, uma estrutura governista liderada por Lula e Jerônimo Rodrigues que, através de alianças estratégicas e uma série histórica de invencibilidade, mantém o prefeito da cidade polo em um estado de isolamento regional.
A força de Zé Cocá é, inegavelmente, um fenômeno local. Com uma reeleição de 91,97% em 2024, ele transformou Jequié no principal reduto da oposição na região. No entanto, ao cruzar as fronteiras da cidade, essa influência encontra uma barreira de contenção.
O histórico demonstra que, mesmo em Jequié, o "voto casado" com o projeto federal é resiliente. Em 2022, enquanto Jerônimo teve seu desempenho mais baixo no território (51,4%), Lula manteve uma liderança sólida com 64,5%. Esse "descolamento" de 13 pontos mostra que, para 2026, Zé Cocá terá a hercúlea tarefa de converter o eleitor que confia em sua gestão municipal, mas que mantém uma fidelidade ideológica ao PT no plano estadual e federal.
O dado mais contundente do atual cenário é o domínio territorial da base governista. Das 16 cidades que compõem o Médio Rio de Contas, 12 prefeituras estão oficialmente alinhadas a Jerônimo Rodrigues. A oposição real fica restrita a apenas 4 municípios: Jequié, Dário Meira, Manoel Vitorino e Itagi.
Este "cerco" foi consolidado por adesões estratégicas de prefeitos do próprio partido de Zé Cocá, o PP. As gestoras de Ipiaú (Laryssa Dias) e Aiquara (Valéria), apesar da sigla, caminham com o governo estadual. Ao garantir Ipiaú — a segunda maior economia do território —, o governo Jerônimo neutraliza o efeito de "onda" que a oposição pretendia exportar a partir de Jequié.
A análise dos dados das últimas eleições permite projetar as margens para 2026 com base na força dos prefeitos eleitos em 2024:
Jerônimo Rodrigues: a votação média dos prefeitos da base aliada foi de 62,12%. Este número funciona como um "piso" de transferência de votos. Considerando que Jerônimo teve 61,8% nas cidades da base em 2022, a projeção para 2026 é de uma margem segura entre 62% e 65%.
Lula: o lulismo no território é um traço cultural consolidado e menos dependente das máquinas municipais. Mesmo onde a oposição venceu, Lula manteve médias altas (como os 83,9% em Manoel Vitorino).
A expectativa é que Lula mantenha uma votação entre 70% e 74% em 2026.
O que Zé Cocá enfrenta não é apenas um grupo político, mas uma série histórica de duas décadas. Desde 2002, o PT apresenta uma curva de crescimento constante no Médio Rio de Contas.
Em 2018, o auge foi atingido com Haddad (73,6%) e Rui Costa (68,1%).
Em 2022, a resiliência foi provada: mesmo com a candidatura de ACM Neto e a força de Cocá, o território permaneceu "blindado", garantindo a vitória majoritária do grupo governista.
O papel de Zé Cocá para 2026 será o de tentar furar esse bloqueio. No entanto, os dados mostram que ele está "ilhado". Com 75% das prefeituras do Médio Rio de Contas sob influência direta de Jerônimo Rodrigues e um eleitorado que mantém uma conexão umbilical com a figura de Lula, o cenário aponta para uma manutenção da hegemonia petista.
A estratégia governista de isolar Jequié e garantir as cidades periféricas e polos secundários (como Ipiaú e Jaguaquara) parece ter sido o movimento de mestre para garantir que, em 2026, o Médio Rio de Contas e o Vale do Jiquiriçá continue sendo o "Cinturão Vermelho" da Bahia.
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Yuri Almeida é professor, estrategista político e especialista em campanhas eleitorais
