Saúde

Consumo de chocolate amargo também pode causar problemas

Doce com alto teor de cacau deve ser consumido com moderação

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Escolha produtos em que o cacau apareça como o primeiro item na lista de ingredientes
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Chocolate amargo, com maior teor de cacau, concentra compostos antioxidantes associados a benefícios como envelhecimento saudável e melhora da memória, indicam estudos recentes. Especialistas recomendam versões com 70% de cacau ou mais e consumo moderado, entre 20 g e 30 g diários, para evitar excesso de calorias.

Com a chegada da Páscoa, muitas pessoas ficam na dúvida: como aproveitar o momento e comer chocolate sem comprometer o equilíbrio da dieta? A solução mais óbvia costuma ser apostar nas versões amargas do doce, que em geral têm menos açúcar. E de fato, há evidências de que elas sejam melhores para a saúde, mas isso não significa que o consumo sem limites está liberado.

“Estudos recentes mostram que o chocolate amargo, por ter maior teor de cacau, concentra mais compostos bioativos, como os flavonoides e a teobromina, que apresentam propriedades antioxidantes e antienvelhecimento, podendo trazer benefícios”, afirma a nutricionista clínica Jéssica Magalhães Fonseca, do Einstein Hospital Israelita.

Uma pesquisa britânica publicada em dezembro de 2025 na revista Aging analisou especificamente a teobromina, substância presente no cacau que pode ser aliada de um envelhecimento saudável. A investigação usou dados de dieta e exames de 1,6 mil voluntários para avaliar se havia reduções da idade biológica a partir da alimentação, pesquisando especificamente o papel do café e do chocolate amargo, que já haviam sido associados em estudos anteriores a essa “desaceleração” do relógio metabólico.

Os pesquisadores concluíram que a teobromina pode ter um papel importante nesse efeito. O estudo sugere que esse alcaloide encontrado no cacau está associado com a manutenção de telômeros (a ponta dos filamentos de DNA) saudáveis. Essa característica é ligada ao envelhecimento saudável em uma série de estudos.

As propriedades observadas complementam o que se sabe sobre flavonoides e polifenóis presentes no cacau. Em um estudo publicado em 2023 na revista PNAS, 3.500 indivíduos consumiram um extrato de cacau concentrado ao longo de três anos. Os resultados sugerem que o consumo de flavonoides pode contribuir para a melhora da memória a longo prazo, com impacto em funções relacionadas ao hipocampo.

Mas esses achados não se aplicam ao chocolate convencional industrializado. Além disso, o cacau não é a única fonte desses compostos bioativos: frutas vermelhas, chá-verde, café, nozes, linhaça e vegetais como brócolis e couve também os fornecem.

Teor de cacau e moderação

O chocolate pode ter diferentes concentrações de cacau em sua composição, e é isso que influencia seus possíveis benefícios. “Quanto maior for a porcentagem na composição do chocolate, maior tende a ser a concentração dos compostos bioativos e menor o teor de açúcar”, ressalta a nutricionista Letícia do Vale Pires, também do Einstein. “Chocolates com 70% de cacau ou mais costumam ser as opções mais interessantes do ponto de vista nutricional.”

Aliás, essa classificação pode mudar em breve no Brasil. Um projeto de lei (PL 1769/2019) aprovado no último dia 17 de março pela Câmara dos Deputados quer estabelecer limites claros para quanto cacau deve haver em uma barra para classificar o chocolate. Os limites atuais estabelecidos pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) são de ao menos 25% de cacau, mas valem para qualquer receita, exceto chocolate branco, que deve ter 20% de manteiga de cacau.

Com isso, muitas empresas fazem chocolates meio amargos e ao leite com praticamente a mesma proporção de cacau, como revelou uma pesquisa da Universidade de São Paulo (USP) publicada na Food Chemistry em janeiro, quase nunca superando 30% da fórmula. O PL 1769/2019 estabelece que um chocolate intenso tenha no mínimo 35% de sua composição como cacau, alinhado com determinações internacionais. Agora, a proposta está em análise no Senado Federal.

Apesar dos potenciais benefícios, mesmo as versões amargas ou meio amargas devem ser consumidas com moderação. “Uma porção de 20 g a 30 g por dia, o equivalente a um a dois quadradinhos, costuma ser suficiente para aproveitar os compostos bioativos do chocolate meio amargo sem o consumo excessivo de calorias e gorduras”, explica Pires. Uma boa estratégia é escolher produtos em que o cacau apareça como o primeiro item na lista de ingredientes, indicando maior concentração na formulação.

É importante ressaltar, porém, que o consumo pontual, como nas celebrações de Páscoa, não compromete o equilíbrio de uma alimentação balanceada. Na dúvida, converse com seu nutricionista para saber as quantidades e as versões que cabem na sua rotina.