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Livro convida o leitor a visitar o futuro sob a sombra do jequitibá

Merece destaque, na obra do pesquisador Jonuel Gonçalves, a dimensão brasileira do livro

Entre as folhas do jequitibá, do pesquisador Jonuel Gonçalves, é um livro de fôlego incomum: mistura memória política, romance amoroso, ficção científica, ensaio civilizatório e reflexão sobre o destino do Brasil.

A obra se abre em 2055, no centenário do narrador, quando o personagem revisita sua vida por meio do Griô, sistema ligado ao Conjunto Jequitibá de Pesquisas, responsável por preservar testemunhos orais, imagens e registros biográficos.

A partir desse dispositivo narrativo, o livro cria uma ponte engenhosa entre passado, presente e futuro, transformando a memória individual em matéria histórica, afetiva e tecnológica.

Um dos grandes méritos da obra está na amplitude de sua ambição. O romance não se limita a contar uma trajetória pessoal: ele acompanha, em paralelo, a luta contra a ditadura, a evolução das comunicações, o surgimento da internet, os avanços da biotecnologia, a pesquisa com células-tronco, a disputa pela Amazônia e a reorganização geopolítica do mundo.

O resultado é uma narrativa que pensa o Brasil em escala longa, como se a vida do narrador fosse também uma lente para observar as continuidades e rupturas de quase um século.

A estrutura fragmentada, organizada por datas, depoimentos e reconstituições, dá ao livro um ritmo de arquivo vivo.

O leitor acompanha episódios de clandestinidade, viagens de bicicleta, reuniões políticas, descobertas científicas, conflitos amorosos e debates éticos sem que esses elementos pareçam isolados. Ao contrário, eles se acumulam como camadas de experiência.

A memória, aqui, não é nostalgia: é ferramenta de interpretação histórica.

Luciana é uma das presenças mais fortes do romance. Sua trajetória combina fé, ciência, afeto, autonomia e transgressão. Por meio dela, o livro discute temas delicados, como o lugar da mulher na Igreja, os limites institucionais da religião, a ética da pesquisa biomédica e a possibilidade de conciliar espiritualidade e pensamento científico.

A personagem não funciona como simples interesse amoroso do narrador; ela é agente intelectual, científica e moral de primeira grandeza, decisiva para o desenvolvimento do Conjunto Jequitibá de Pesquisas e para a reflexão do livro sobre prolongamento da vida, saúde e liberdade.

Outro ponto alto é a imagem do jequitibá. A árvore aparece como símbolo de longevidade, resistência, enraizamento e comunicação silenciosa com o mundo.

A cena das jacutingas em torno do jequitibá amplia esse símbolo: diante da ave que voa e da árvore que atravessa séculos, o ser humano é convidado a reconhecer seus limites e, ao mesmo tempo, sua capacidade de aprender com a natureza. O título, portanto, é muito feliz: “entre as folhas” não significa apenas estar sob a copa de uma árvore, mas viver dentro de uma rede de memórias, pesquisas, afetos e futuros possíveis.

A linguagem é direta, oral, por vezes áspera, sempre carregada de energia.

Jonuel Gonçalves aposta numa voz narrativa que preserva marcas de fala, opinião, humor, indignação e ternura. Essa escolha confere autenticidade ao narrador e evita a frieza de uma ficção excessivamente calculada.

A obra ganha força justamente porque não tenta esconder suas paixões: democracia, ciência, liberdade, soberania, amizade e amor aparecem como valores centrais, defendidos sem timidez.

Também merece destaque a dimensão brasileira do livro. A Amazônia, o Rio de Janeiro, São Paulo, Minas, Pará, Roraima, Bahia, Maranhão e outros espaços surgem como pontos de uma geografia afetiva e estratégica.

O Brasil da obra não é cenário passivo, mas campo de disputa científica, política e existencial. Nesse sentido, o romance tem algo de visionário: imagina um país capaz de produzir ciência, tecnologia, defesa e pensamento próprio, sem se reduzir à condição de território observado ou explorado por forças externas.

Como ficção especulativa, Entre as folhas do jequitibá se distingue por não tratar tecnologia apenas como ornamento futurista. Inteligência artificial, regeneração celular, drones, comunicação avançada, semicondutores e longevidade aparecem ligados a conflitos éticos e sociais.

O livro insiste numa ideia poderosa: toda inovação pode servir tanto à emancipação quanto à dominação. Por isso, a ciência não aparece como milagre neutro, mas como campo de responsabilidade humana.

A favor do livro conta, sobretudo, sua coragem formal e temática. Trata-se de uma narrativa generosa, densa, por vezes torrencial, que exige atenção do leitor, mas recompensa essa atenção com um universo próprio.

A obra combina aventura política, amor persistente, reflexão histórica e imaginação científica com rara liberdade. É um romance sobre viver muito, mas, acima de tudo, sobre viver com sentido.

Entre as folhas do jequitibá merece leitura favorável porque aposta numa literatura de ideias sem abandonar a emoção. É um livro sobre memória, mas não prisioneiro do passado; sobre ciência, mas não submisso ao tecnicismo; sobre política, mas não reduzido ao panfleto; sobre amor, mas sem perder de vista a História.

Seu maior acerto está em transformar uma vida narrada aos cem anos numa pergunta ampla sobre o destino humano: como prolongar a existência sem empobrecer a liberdade? Jonuel Gonçalves responde com uma obra vigorosa, brasileira, inventiva e profundamente comprometida com a vida.

Comparações devidas

A obra pode ter em comum com Memórias póstumas de Brás Cubas, de Machado de Assis, o recurso a um narrador situado fora do tempo comum da experiência. Em Machado, a morte permite ao narrador rever a vida com ironia e desencanto. Em Jonuel Gonçalves, a longevidade extrema permite outro movimento: o narrador olha para trás não como cadáver literário, mas como sobrevivente histórico. A perspectiva é mais vitalista. Em vez do ceticismo corrosivo machadiano, predomina uma energia afirmativa, voltada para a ciência, a resistência, a liberdade e a continuidade da vida.

Também é possível estabelecer diálogo com Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa. Em ambos os casos, há um narrador que revisita o passado e organiza a experiência por meio de uma oralidade poderosa. Riobaldo narra suas guerras, seus medos, seus amores e suas dúvidas metafísicas; o narrador de Entre as folhas do jequitibá recompõe clandestinidade política, ditadura, militância, amor, ciência, Amazônia e guerras futuras.

A comparação com Cem anos de solidão, de Gabriel García Márquez, também é produtiva. O romance colombiano transforma a família Buendía e Macondo em metáforas da América Latina. Entre as folhas do jequitibá, por sua vez, usa a trajetória de um indivíduo centenário para pensar o Brasil em longa duração. Em García Márquez, o maravilhoso nasce do mito e da repetição histórica; em Jonuel, o extraordinário nasce da ciência, da tecnologia e da persistência humana. O resultado é uma espécie de realismo especulativo brasileiro: não se trata de magia, mas de futuro imaginado a partir de conflitos já presentes na história nacional.

No campo da ficção científica, a obra dialoga com livros como A máquina do tempo, de H. G. Wells, e Admirável mundo novo, de Aldous Huxley. Há, contudo, uma diferença importante. Wells e Huxley criam futuros usados como advertência sobre desigualdade, controle social e desumanização. Jonuel Gonçalves também reconhece riscos semelhantes, sobretudo no uso destrutivo da ciência e da tecnologia, mas sua ficção é menos resignada. O futuro de Entre as folhas do jequitibá não é apenas distopia. É campo de batalha. A inovação pode servir à dominação, mas também pode servir à emancipação. Essa ambivalência dá ao livro uma densidade ética muito atual.

Nesse sentido, a obra também se aproxima de 1984, de George Orwell, pela atenção aos mecanismos de controle, repressão, vigilância e manipulação da verdade. A diferença é que, em Orwell, o indivíduo parece esmagado por uma máquina totalitária quase invencível. Em Jonuel, ao contrário, a resistência continua possível. Desde os mimeógrafos, faxes e panfletos clandestinos até os sistemas avançados de memória e inteligência artificial, a comunicação aparece como arma de liberdade. A obra sugere que a técnica não pertence naturalmente ao opressor: ela pode ser apropriada por sujeitos, coletivos e instituições comprometidos com a vida democrática.

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O livro está sendo vendido na Amazon e também pode ser adquirido com o autor: jogo34@gmail.com