Tecnologia

Seu eletrônico vai ficar mais caro e a culpa é da Inteligência Artificial

A explicação está na disputa pela capacidade de produção da indústria de semicondutores

O aumento de preços já chegou à Apple

A corrida mundial pela inteligência artificial (IA) já está deixando produtos eletrônicos mais caros. A Apple aumentou os preços de computadores Mac e tablets iPad em junho de 2026, alegando que não conseguia mais absorver a disparada dos custos de chips de memória e armazenamento. Agora, a empresa alerta que a pressão continuará afetando seus resultados, enquanto o mercado acompanha o risco de novos reajustes nos iPhones.

O problema está relacionado à expansão dos centros de dados utilizados para desenvolver e operar sistemas de inteligência artificial. Empresas de tecnologia estão investindo em grandes instalações de processamento, aumentando a demanda por componentes que também abastecem fabricantes de celulares, notebooks e outros equipamentos eletrônicos.

A Apple elevou em junho o preço inicial do MacBook Neo de US$ 599 (R$ 3.300) para US$ 699 (R$ 3.850), um reajuste de aproximadamente 16,7%. O MacBook Air com 512 GB de armazenamento passou de US$ 1.099 (R$ 6.050) para US$ 1.299 (R$ 7.150), enquanto o iPad Air com 128 GB subiu de US$ 599 (R$ 3.300) para US$ 749 (R$ 4.120), aumento de 25%.

A situação ganhou novo destaque em novembro, quando a companhia advertiu que o encarecimento das memórias continuaria pressionando suas margens de lucro. A declaração ocorreu durante a apresentação dos resultados financeiros referentes ao trimestre encerrado em setembro.

Por que a inteligência artificial está encarecendo os eletrônicos?

A explicação está na disputa pela capacidade de produção da indústria de semicondutores.

Os sistemas avançados de IA precisam de enormes quantidades de memória para processar informações. Essa demanda é atendida por componentes especializados, como as memórias de alta largura de banda (HBM), além de memórias convencionais e dispositivos de armazenamento utilizados em servidores.

Embora nem todos esses chips sejam iguais aos encontrados em celulares e computadores pessoais, sua fabricação depende de parte da mesma estrutura industrial.

Com a expansão dos investimentos em IA, fabricantes de semicondutores passaram a direcionar uma parcela maior de sua capacidade produtiva para componentes destinados a servidores, que podem oferecer maior rentabilidade.

Essa mudança reduz a disponibilidade relativa de determinados componentes utilizados em eletrônicos de consumo e contribui para elevar seus preços.

A consultoria TrendForce identificou esse movimento no mercado de memórias e apontou que a demanda dos centros de dados continua influenciando as decisões de produção dos fornecedores.

Preços das memórias continuam subindo

A pressão pode ser observada nas projeções para o último trimestre de 2026.

Em relatório divulgado em 30 de setembro, a TrendForce estimou novos aumentos nos preços contratuais de duas importantes categorias de componentes.

A memória DRAM é utilizada para manter temporariamente os dados necessários ao funcionamento de aplicativos e sistemas. Já a tecnologia NAND Flash permite armazenar arquivos, fotografias, vídeos e programas, mesmo quando o equipamento está desligado.

As duas categorias são fundamentais para a indústria eletrônica.

A TrendForce também identificou dificuldades no fornecimento de memórias destinadas a computadores e smartphones. Segundo a consultoria, fabricantes estão recorrendo a estoques existentes e ajustando suas estratégias de compra para enfrentar os custos mais elevados.

Apple prevê redução das margens de lucro

O encarecimento dos componentes já aparece nas perspectivas financeiras da Apple.

Em novembro, a empresa informou que os custos das memórias continuariam aumentando durante o trimestre de fim de ano, tradicionalmente importante para as vendas de eletrônicos.

Sob a liderança de John Ternus, que assumiu a presidência-executiva em setembro de 2026, a companhia passou a enfrentar uma combinação de demanda elevada por seus produtos e custos crescentes de fabricação.

A margem bruta da Apple ficou em 47,9% no trimestre encerrado em setembro. Para o trimestre seguinte, a empresa projetou uma margem entre 45% e 46%, refletindo, entre outros fatores, a pressão dos componentes.

A margem bruta representa a parcela da receita que permanece depois de descontados os custos diretamente relacionados aos produtos e serviços vendidos.

Uma redução desse indicador significa que a empresa passa a reter uma proporção menor da receita antes de considerar outras despesas.

Para enfrentar o problema, a Apple tem utilizado estoques adquiridos anteriormente e buscado garantir o fornecimento futuro de componentes. Essas medidas podem reduzir temporariamente os efeitos das altas, mas não eliminam a pressão sobre os custos.

O iPhone também ficará mais caro?

A possibilidade de novos reajustes no iPhone preocupa consumidores e analistas, mas é necessário distinguir aumentos confirmados de projeções.

Quando anunciou os reajustes de junho, a Apple não incluiu o iPhone entre os produtos atingidos. Na ocasião, analistas ouvidos pela Reuters avaliaram que os celulares também poderiam sofrer aumentos nos meses seguintes.

Desde então, a empresa lançou novos produtos e continuou enfrentando custos elevados de componentes.

Preços mais altos ajudaram a Apple a compensar parte da pressão sobre os resultados, ao lado da forte procura por modelos premium da linha iPhone 18 Pro.

Isso, entretanto, não permite afirmar que todos os modelos terão novos reajustes ou que os aumentos serão proporcionais à valorização das memórias.

O preço final depende também de outros componentes, custos de produção, concorrência, estratégias comerciais e condições de cada mercado.

Como o aumento dos chips pode afetar os brasileiros?

No Brasil, os efeitos do encarecimento internacional dos eletrônicos podem ser ampliados pela variação cambial.

Como boa parte dos componentes utilizados na fabricação de celulares e computadores é negociada internacionalmente em dólares, uma valorização da moeda americana diante do real tende a elevar os custos em moeda brasileira.

Além do câmbio, impostos, transporte, estoques e margens comerciais influenciam os preços nas lojas.

Por isso, uma alta de 20% no custo de determinada memória não significa que um celular ficará automaticamente 20% mais caro. A memória representa apenas uma parcela do custo total do aparelho.

Os impactos também podem variar entre fabricantes e categorias de produtos. Empresas com contratos de fornecimento de longo prazo ou estoques adquiridos anteriormente podem conseguir adiar parte dos reajustes.

Já fabricantes com menor capacidade de negociação podem enfrentar dificuldades maiores para absorver os custos.

Até o momento, os dados apresentados não permitem calcular quanto da pressão internacional sobre os chips será efetivamente transferido aos preços dos eletrônicos vendidos no Brasil.

A tecnologia pode deixar de ficar mais barata?

Durante décadas, a indústria eletrônica avançou combinando maior capacidade de processamento, ampliação do armazenamento e redução do custo de diversas tecnologias.

A expansão da inteligência artificial introduziu uma nova pressão sobre essa dinâmica.

Os grandes investimentos em infraestrutura computacional passaram a competir por recursos industriais utilizados na fabricação de produtos destinados ao consumidor final.

Isso não significa que computadores e celulares ficarão permanentemente mais caros. A evolução da capacidade produtiva, o desenvolvimento de novas tecnologias e eventuais mudanças na demanda podem aliviar os custos.

Entretanto, enquanto a procura por componentes destinados à IA continuar crescendo mais rapidamente do que a oferta, fabricantes de eletrônicos poderão enfrentar dificuldades para manter preços competitivos.

O resultado é uma contradição econômica da atual corrida tecnológica: a inteligência artificial promete aumentar a produtividade e reduzir custos em inúmeras atividades, mas sua expansão também está contribuindo para encarecer parte dos equipamentos utilizados por empresas e consumidores.