No Brasil, falar de política sempre foi delicado, e em ano eleitoral o tema tende a ocupar ainda mais espaço no dia a dia das empresas. Com o segundo turno já para o domingo (25 de outubro), as discussões políticas passaram a ocupar mais espaços da rotina dos brasileiros, inclusive corredores, reuniões e grupos de mensagens corporativos.
O cenário é de forte polarização: dados recentes da Ipsos-Ipec mostram que 57% dos brasileiros veem mais malefícios do que benefícios com a polarização, 58% dizem que ela enfraquece a democracia e 72% se sentem incomodados.
Esse clima transborda para o trabalho. Além do risco de desgaste entre colegas, o período exige atenção a um limite jurídico que ganhou destaque neste ciclo: em março de 2026, uma resolução do TSE passou a vedar expressamente propaganda e assédio eleitoral em ambientes de trabalho públicos e privados, responsabilizando também quem permitir a ocorrência dessas práticas. Ou seja, a conversa deixou de ser só sobre convivência e passou a envolver conduta profissional, reputação e conformidade legal.
Para Mara Leme Martins, PhD, psicóloga e VP da BNI Brasil -- Business Network International -- organização de rede de relacionamentos nos negócios, política pode, sim, ser debatida no trabalho, mas com cautela.
"É importante garantir o direito à liberdade de expressão. O debate, quando civilizado, desenvolve argumentação e pensamento crítico e permite discutir pautas importantes para o país. O problema começa quando a divergência de ideias vira ataque pessoal ou pressão sobre o colega", explica.
Segundo a especialista, o custo do conflito recai sobre toda a equipe. "Fica cansativo trabalhar em um clima desagradável. Essas discussões costumam ser levadas para o pessoal e desgastam as relações, o que afeta o ânimo e a produtividade de todo mundo", relata Mara.
A especialista reuniu as principais dicas:
Não censure o debate, mas estabeleça limites claros - A recomendação não é proibir, e sim direcionar. "Criar normas pode parecer severo, mas é importante estabelecer limites e relembrar os colaboradores da política da empresa sobre o tema. Um bom momento para retomar o código de conduta é justamente agora, no início da campanha", aconselha Martins.
Diferencie debate de assédio eleitoral - Este é o ponto que mais mudou desde a última eleição. Opinar é legítimo; usar posição, hierarquia ou canais da empresa para pressionar o voto de alguém, não. "Um gestor precisa entender que insistir, constranger ou condicionar o clima da equipe a uma preferência política ultrapassa a fronteira do debate e pode configurar assédio eleitoral", alerta a especialista.
Não influencie os colaboradores a partir do cargo - Ambientes com relações de hierarquia pedem cuidado redobrado. "Colaboradores tendem a se sentir pressionados por lideranças. Deixe que cada um forme sua opinião livremente e evite transformar sua posição de chefia em um megafone político", orienta.
Fique atento aos canais internos e ao digital - Boa parte das discussões migra para o WhatsApp, e-mails e grupos corporativos, onde o controle é menor e uma fala pode ser gravada, recortada e compartilhada. "A comunicação interna precisa acompanhar esses espaços para evitar discórdia e a disseminação de notícias falsas, que se intensificam em época de eleição", indica Mara.
Respeite todas as opiniões - Para a especialista, cordialidade é inegociável, do estagiário ao executivo. "A política é um espaço que exige respeito para que se chegue a bons caminhos para o país. No trabalho, isso significa conviver com quem pensa diferente sem transformar o colega em adversário."
