
A escritora nasceu na cidade baiana de Jacobina
Rapunzel ganha cabelos rastafári, Chapeuzinho Vermelho aparece associada às tradições religiosas afro-brasileiras e Branca de Neve visita a Chapada Diamantina.
Essas são algumas das adaptações criadas pela escritora baiana Maria Izabel Nascimento Muller, de 77 anos, que encontrou nos contos de fadas uma maneira de valorizar a cultura nordestina e ampliar a representação de personagens negros na literatura infantil.
Natural de Jacobina, no interior da Bahia, a professora aposentada começou a publicar suas histórias em 2017, com o livro Os contos de fadas na realidade afro-baiana. Desde então, sua produção literária passou a reunir referências à ancestralidade africana, às paisagens do sertão e às tradições populares da Bahia.
A proposta da escritora é aproximar o universo da fantasia das experiências culturais das crianças brasileiras, especialmente daquelas que nem sempre encontram personagens e ambientes semelhantes aos seus nas narrativas tradicionais.
"As crianças precisam se reconhecer nas histórias que leem. Quando trocamos os cenários distantes por uma narrativa que traz o sabor do acarajé, a grandiosidade dos morros da Chapada, o Sertão e os afetos da nossa terra, estamos dizendo a elas que a sua realidade também é mágica e digna de ser contada", afirma Maria Izabel.
Contos tradicionais ganham referências afro-baianas
A transformação dos contos de fadas aparece de maneira concreta no primeiro livro da escritora. Além de Rapunzel e Branca de Neve, personagens como Alice e João e Maria são transportados para ambientes associados à cultura e ao cotidiano baianos.
As adaptações foram descritas em uma publicação sobre o lançamento da obra, em 2017, e também examinadas em artigo da revista acadêmica Dumela, de 2019, que abordou o livro no contexto da educação antirracista.
Ao deslocar personagens conhecidos para outros cenários culturais, Maria Izabel procura ampliar o repertório de histórias disponíveis às crianças. Em vez de abandonar a estrutura dos contos tradicionais, a escritora incorpora elementos da cultura afro-brasileira e das experiências nordestinas às narrativas.
"É urgente que possamos colocar no centro histórias que tenham o cheiro do tempero baiano, trocando cenários distantes por narrativas que trazem nossa potência, a grandiosidade da Chapada Diamantina e o orgulho da nossa ancestralidade", defende.
Literatura e educação antirracista
A proposta literária de Maria Izabel dialoga com a valorização da história e da cultura afro-brasileira no ensino. A Lei nº 10.639, de 2003, alterou a Lei de Diretrizes e Bases da Educação Nacional para tornar obrigatório o estudo dessas temáticas no ensino fundamental e médio.
A legislação estabelece que os conteúdos devem integrar o currículo escolar, especialmente nas áreas de educação artística, literatura e história brasileiras.
Nesse contexto, livros que apresentam personagens negros, manifestações culturais afro-brasileiras e referências regionais podem servir como materiais complementares para atividades pedagógicas voltadas à diversidade cultural.
A importância de obras com essas características também aparece em iniciativas de promoção da leitura. Em 2022, por exemplo, a Fábrica de Cultura realizou uma roda de conversa dedicada ao livro Os contos de fadas na realidade afro-baiana, destacando a presença de personagens negros e elementos da religiosidade afro-brasileira nas histórias.
O debate ocorre em um país que ainda enfrenta dificuldades para ampliar sua população leitora. A sexta edição da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil, realizada em 2024 pelo Instituto Pró-Livro, em parceria com a Fundação Itaú e o Ministério da Cultura, investigou os hábitos de leitura de 5.504 pessoas com cinco anos ou mais, em 208 municípios.
O levantamento oferece informações sobre o acesso aos livros e o comportamento dos leitores, contribuindo para a discussão sobre a formação de hábitos de leitura desde a infância.
Da Bahia à Suíça
A experiência de Maria Izabel entre o Brasil e a Europa também aparece em sua trajetória literária. Segundo informações divulgadas por sua assessoria, a escritora vive há cerca de 25 anos na Suíça e mantém vínculos com Salvador.
Depois de publicar Os contos de fadas na realidade afro-baiana, em 2017, lançou Inventando e contando baianidades, em 2022, e Inventando e contando baianidades entre a Bahia e Basel na Suíça, em 2023.
O quarto livro, Cinderela Sertaneja, foi lançado em novembro de 2025, em Salvador, pela Editora Griôrim. A obra retoma as referências à cultura sertaneja e à experiência feminina, presentes na produção da autora.
A publicação foi apresentada na Biblioteca Monteiro Lobato, no bairro de Nazaré, com prefácio de Técia Souza Almeida do Nascimento.
Aos 77 anos, Maria Izabel prepara sua quinta obra, que, de acordo com a assessoria, está em fase de revisão. O novo projeto dá continuidade a uma trajetória marcada pelo interesse em aproximar literatura, memória e identidade cultural.
Sua produção mostra uma possibilidade de releitura dos contos tradicionais: preservar o encantamento das histórias conhecidas e, ao mesmo tempo, abrir espaço para personagens, paisagens e experiências que fazem parte da realidade brasileira.
