Mundo

Entenda por que os jovens estão ateando fogo nas ruas da Europa

O que leva milhares de jovens às ruas em uma onda de protestos

Foto: Ilustração feita por IA
Leia Mais Rápido
Os protestos ganharam força entre setembro e outubro, reunindo também trabalhadores, professores e sindicatos. Apesar das reivindicações semelhantes, os movimentos não possuem uma coordenação internacional única.

Milhares de jovens estão ocupando ruas, praças e universidades de diferentes países da Europa em uma onda de protestos contra o aumento do custo de vida, a dificuldade de acesso à moradia, os problemas na educação e a falta de perspectivas profissionais.

As manifestações, que ganharam força entre setembro e outubro, atingem principalmente França, Espanha, Portugal, Itália, Bélgica e Albânia.

Embora tenham origens e reivindicações distintas, os movimentos compartilham a insatisfação de uma geração que enfrenta dificuldades para conquistar independência financeira e construir um futuro estável.

Os protestos ganharam uma nova dimensão no fim de semana de 17 e 18 de outubro. Na França, manifestações que começaram com estudantes do ensino médio transformaram-se em mobilizações nacionais, acompanhadas por confrontos violentos e milhares de detenções.

Na Espanha e em Portugal, jovens montaram acampamentos em praças públicas para exigir soluções para a crise habitacional. Na Itália, manifestações contra a inflação e a deterioração dos serviços públicos também terminaram em episódios de violência.

A mobilização ultrapassou o ambiente estudantil. Sindicatos, professores, trabalhadores e organizações sociais passaram a participar dos protestos, ampliando a pressão sobre governos que enfrentam dificuldades orçamentárias e disputas políticas.

Apesar da simultaneidade das manifestações, não há evidências de uma organização internacional única que coordene os movimentos.

França concentra os maiores protestos

A França tornou-se o principal foco da onda de manifestações. O movimento começou em setembro, na região de Paris, quando estudantes do ensino médio passaram a denunciar a falta de professores, a precariedade das instalações escolares, a superlotação das salas de aula e as desigualdades no acesso à educação.

As reivindicações ganharam apoio de pais, professores e sindicatos. Em 6 de outubro, cerca de 266 mil pessoas participaram de manifestações em todo o país, segundo o Ministério do Interior. No dia 17, o número de participantes superou 550 mil, de acordo com informações divulgadas pela imprensa internacional.

O agravamento da crise ocorreu quando parte das manifestações passou a ser acompanhada por saques, incêndios e confrontos com a polícia. Em Limoges, a prefeitura foi incendiada. Mais de 3 mil estabelecimentos comerciais foram saqueados ou danificados durante o fim de semana, segundo o governo francês.

Até esta segunda-feira (19 de outubro), aproximadamente 2.400 pessoas haviam sido detidas durante os episódios de violência do fim de semana. As autoridades anunciaram reforço do policiamento, medidas de apoio aos comerciantes atingidos e a possibilidade de restrições de circulação em determinadas localidades.

O governo do presidente Emmanuel Macron enfrenta pressões para ampliar os investimentos em educação e melhorar as condições dos serviços públicos. A resposta policial também passou a ser questionada por organizações estudantis e familiares de manifestantes, enquanto autoridades defendem a necessidade de conter os episódios de violência.

A crise ocorre no último ano do mandato de Macron, antes da eleição presidencial prevista para 2027.

Espanha: moradia inacessível transforma indignação em crise política

Na Espanha, a dificuldade de acesso à moradia está no centro das manifestações. O aumento dos aluguéis, especialmente em cidades como Madri e Barcelona, tem dificultado a saída dos jovens da casa dos pais e comprometido grande parte da renda dos trabalhadores.

Segundo levantamento publicado pelo jornal econômico espanhol Expansión, o aluguel médio mensal de um apartamento de 80 metros quadrados chega a aproximadamente 1.130 euros, enquanto o salário mínimo mensal é de 1.221 euros. A comparação ilustra a dificuldade de acesso à habitação, embora não represente todas as faixas salariais nem todos os mercados imobiliários do país.

A mobilização ganhou força depois do despejo de Maricarmen Abascal, aposentada de 87 anos que perdeu sua residência em setembro e morreu em 7 de outubro, após uma internação hospitalar. O caso tornou-se símbolo da vulnerabilidade de moradores diante da elevação dos preços dos imóveis.

Manifestantes instalaram barracas na Puerta del Sol, no centro de Madri, e organizaram protestos em outras cidades. Estudantes e funcionários da Universidade Complutense também realizaram mobilizações por mais investimentos na educação.

A pressão chegou ao governo do primeiro-ministro Pedro Sánchez. O Executivo apresentou medidas para ampliar o acesso à habitação, mas não conseguiu reunir apoio parlamentar suficiente. Diante do impasse político, Sánchez anunciou a antecipação das eleições gerais para novembro. Organizações sindicais também convocaram uma greve geral para o mesmo mês.

A crise habitacional, inicialmente tratada como uma questão econômica e social, passou a ocupar posição central no debate político espanhol.

Portugal: jovens acampam em Lisboa e no Porto

Em Portugal, os protestos também têm como principal motivação a dificuldade de acesso à moradia. O aumento dos preços de compra e aluguel, associado aos baixos salários, tornou-se um obstáculo para jovens que desejam conquistar independência financeira.

Os preços das habitações portuguesas mais que dobraram desde 2017, segundo dados citados pela Al Jazeera. O encarecimento é particularmente significativo em Lisboa e no Porto, onde o mercado imobiliário também sofre pressões associadas à atividade turística e à procura por imóveis.

Inspirados pelas mobilizações espanholas, manifestantes instalaram barracas na Praça D. João I, no Porto, e no Rossio, em Lisboa. No fim de semana de 17 e 18 de outubro, centenas de pessoas permaneceram acampadas, apesar das determinações policiais de desocupação.

No Porto, uma operação para retirar manifestantes terminou em confrontos. Os organizadores relataram cerca de 40 feridos, número que não deve ser tratado como balanço oficial independente.

As manifestações também reuniram sindicatos e trabalhadores que reivindicam aumentos salariais, melhores aposentadorias e medidas para reduzir o custo de vida.

O governo português, por sua vez, sinalizou resistência à pressão das ruas. O ministro dos Assuntos Parlamentares, Carlos Abreu Amorim, afirmou que o Executivo não cederia às manifestações.

Itália: manifestações contra a inflação

Na Itália, os protestos reúnem jovens, trabalhadores e organizações sociais insatisfeitos com a inflação, os salários, as condições dos serviços públicos e as dificuldades de acesso à moradia. As manifestações também incorporaram críticas aos gastos militares e aos conflitos internacionais.

O movimento, identificado em algumas mobilizações pelo nome Italia in Piazza (Itália nas Praças), ganhou força em cidades como Milão, Turim, Bolonha, Brescia e Bérgamo.

Em Milão, uma manifestação inicialmente pacífica terminou em confrontos no sábado, 17 de outubro. Grupos de pessoas encapuzadas lançaram objetos contra policiais, incendiaram barricadas e saquearam estabelecimentos comerciais. A polícia respondeu com gás lacrimogêneo e canhões de água.

No domingo, os distúrbios prosseguiram. Segundo informações policiais divulgadas pela Reuters, 271 pessoas foram conduzidas a delegacias, das quais 32 foram presas. Entre os presos estavam 23 menores de idade. A agência italiana ANSA informou que 14 agentes de segurança ficaram feridos.

A primeira-ministra Giorgia Meloni condenou os episódios de violência e convocou uma reunião emergencial para discutir medidas de segurança. Nesta segunda-feira, o vice-primeiro-ministro Matteo Salvini anunciou a intenção de enviar mais 500 militares para reforçar a segurança em Milão. A medida ainda dependia de formalização pelo governo.

Um grupo denominado Movimento 17 de Outubro anunciou a intenção de realizar manifestações todos os sábados, ampliando a possibilidade de continuidade dos protestos.

Bélgica: cortes na educação e reformas universitárias

Na Bélgica, os protestos concentram-se nas políticas de austeridade e nas mudanças no financiamento da educação. Estudantes questionam o aumento dos custos universitários e reformas que, segundo suas organizações, dificultam a permanência de alunos de baixa renda no ensino superior.

O governo da Federação Valônia-Bruxelas aprovou um programa de redução de despesas de aproximadamente 500 milhões de euros em diferentes setores, incluindo a educação.

Uma das principais críticas estudantis está relacionada às regras de progressão acadêmica, que exigem a obtenção de determinado número de créditos em prazos específicos. Representantes dos estudantes argumentam que as exigências prejudicam aqueles que precisam conciliar os estudos com o trabalho.

Em 9 de outubro, aproximadamente 30 mil pessoas participaram de uma manifestação em Bruxelas, segundo a polícia. A mobilização integrou uma greve nacional organizada por sindicatos contrários às medidas orçamentárias do governo.

Embora a marcha tenha ocorrido majoritariamente de forma pacífica, grupos de manifestantes entraram em confronto com a polícia. Foram registrados incêndios, danos ao patrimônio público e 21 detenções ou prisões, incluindo 13 menores de idade.

O primeiro-ministro Bart De Wever defende a necessidade de ajustes nas contas públicas para evitar o crescimento da dívida e dos encargos financeiros. Sindicatos e organizações estudantis contestam a distribuição dos custos dessas medidas entre trabalhadores, aposentados e estudantes.

Albânia: denúncias de corrupção e falta de empregos 

Na Albânia, as manifestações assumiram um caráter mais diretamente político. Jovens e estudantes exigem a renúncia do primeiro-ministro Edi Rama, no poder desde 2013, e protestam contra a corrupção, o desemprego e as condições dos serviços públicos.

O movimento ganhou força a partir de manifestações contra um empreendimento turístico de luxo projetado para uma área ambientalmente sensível do litoral albanês. O projeto envolve investidores associados a Jared Kushner, genro do presidente norte-americano Donald Trump.

As mobilizações, conhecidas como Revolução dos Flamingos, passaram a incorporar reivindicações mais amplas contra o governo.

Em 13 de outubro, a entrada de milhares de estudantes intensificou os protestos. Nos dias seguintes, manifestantes entraram em confronto com a polícia, danificaram edifícios públicos e provocaram incêndios.

Segundo balanço policial divulgado pela Reuters em 17 de outubro, cerca de 500 manifestantes haviam sido detidos, dos quais 330 foram liberados. As autoridades registraram 120 policiais e 45 manifestantes feridos.

Rama rejeitou os pedidos de renúncia e afirmou que seu governo respeita o direito de manifestação. O primeiro-ministro também defendeu a continuidade do processo de adesão da Albânia à União Europeia, previsto como objetivo de seu governo para 2030.

As manifestações colocam em evidência o desgaste político provocado por denúncias de corrupção e pela insatisfação de parte da população com as oportunidades econômicas oferecidas pelo país.

Grécia e Sérvia também registram mobilizações estudantis

Além dos seis países que concentram a atual onda de protestos, movimentos estudantis também se mobilizam em outras partes da Europa, embora suas origens e reivindicações não sejam necessariamente as mesmas.

Na Grécia, estudantes ocuparam a Praça Syntagma, em Atenas, para reivindicar mais investimentos na educação e melhores condições de moradia. Parte dos participantes declarou inspiração nas manifestações francesas.

Na Sérvia, os protestos têm origem anterior. O movimento estudantil ganhou força após o desabamento de uma estrutura da estação ferroviária de Novi Sad, em novembro de 2024, que deixou 16 mortos. O episódio desencadeou manifestações contra a corrupção e pela responsabilização das autoridades.

As mobilizações prosseguem em meio às disputas políticas que antecedem as eleições parlamentares previstas para 25 de outubro. Diferentemente dos protestos concentrados no custo de vida em outros países, a mobilização sérvia tem como eixo principal a responsabilização política e institucional.