
Disfunções pélvicas como incontinência urinária e fecal, dor persistente e alterações da função sexual podem afetar não apenas a saúde física, mas também a autoestima, os relacionamentos e a participação em atividades sociais.
No contexto do Setembro Amarelo, período de conscientização sobre saúde mental e prevenção do suicídio, a fisioterapeuta pélvica e pesquisadora Patrícia Lordêlo chama atenção para essas repercussões.
Segundo a especialista, perdas involuntárias de urina ou fezes podem provocar constrangimento e favorecer o afastamento de situações sociais. Dor durante as relações sexuais e outras disfunções sexuais também podem interferir na intimidade e na percepção que a pessoa tem de si mesma.
“Essas condições podem ter um impacto muito maior do que o sintoma físico. A perda urinária ou fecal pode gerar constrangimento e isolamento, enquanto a impossibilidade de ter uma relação sexual prazerosa, sem dor ou diante de uma disfunção sexual, pode afetar profundamente a vida psicológica e social do paciente”, afirma Patrícia.
Dor pélvica pode limitar atividades do cotidiano
Entre as mulheres, condições como endometriose, adenomiose e vulvodínia podem estar associadas a dor pélvica e desconforto durante as relações sexuais. Patrícia afirma que, em alguns casos, o medo ou a antecipação da dor também passa a interferir na rotina.
“A paciente pode deixar de trabalhar, praticar atividades físicas, sair com amigos ou manter relações sexuais por medo ou antecipação da dor. Por isso, a dor pélvica não deve ser normalizada”, diz.
Para a especialista, alterações nas funções sexuais e do assoalho pélvico precisam ser avaliadas também pelo impacto sobre a qualidade de vida, e não apenas pela manifestação física.
Estudo avaliou saúde sexual e emocional após câncer de próstata
As repercussões psicológicas também têm sido investigadas entre homens submetidos a tratamento para câncer de próstata.
Um estudo qualitativo apresentado em 2023 à International Continence Society avaliou a percepção sobre qualidade de vida e saúde sexual após prostatectomia radical.
O trabalho teve participação de pesquisadores da Escola Bahiana de Medicina e Saúde Pública e do Instituto Patrícia Lordêlo, entre outras instituições.
A pesquisa analisou quatro casais heterossexuais e dois homens cujas parceiras não participaram da entrevista.
Os participantes do sexo masculino tinham passado por prostatectomia radical havia pelo menos seis meses e apresentavam queixas psíquicas relacionadas à disfunção erétil, segundo os critérios de inclusão descritos pelos autores.
No estudo, dois homens relataram ideação suicida após a cirurgia. Outros participantes mencionaram mudanças na vontade de viver associadas, em seus relatos, à disfunção erétil e à incontinência urinária.
Pesquisas mais amplas apontam que pacientes com câncer de próstata podem apresentar sofrimento psicológico e ideação suicida, mas esses desfechos estão associados a diferentes fatores físicos, psicológicos e sociais.
Uma revisão sistemática e meta-análise de estudos observacionais encontrou sintomas de depressão, ansiedade e ideação suicida entre pacientes com câncer de próstata e defendeu maior integração entre cuidados físicos e de saúde mental.
O próprio Ministério da Saúde ressalta que o comportamento suicida é multifatorial e não deve ser explicado de forma simplista por um único acontecimento ou condição.
Atendimento pode envolver diferentes profissionais
Patrícia defende que o cuidado seja definido a partir das necessidades de cada pessoa. Dependendo do caso, o acompanhamento pode envolver fisioterapeutas pélvicos, médicos, psicólogos e outros profissionais.
A especialista também recomenda atenção às mudanças emocionais associadas às limitações provocadas pelos sintomas.
“Sofrimentos relacionados às disfunções pélvicas não devem ser enfrentados em silêncio”, afirma.
Onde buscar ajuda
Pessoas em sofrimento emocional ou com pensamentos de suicídio podem procurar uma Unidade Básica de Saúde (UBS), um Centro de Atenção Psicossocial (Caps), uma UPA, pronto-socorro ou hospital.
Em situações de urgência, o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) atende pelo 192.
O Centro de Valorização da Vida (CVV) oferece apoio emocional gratuito e sigiloso pelo telefone 188, 24 horas por dia.

