Entrevistas

'Cidade de bolhas e vãos' nasce em meio a coincidência e premonição

O novo livro de Suzana Varjão tem lançamento nacional dia 18 de setembro

Foto: Arquivo pessoal
A jornalista a escritora Suzana Varjão

O romance “Cidade de bolhas e vãos”, da jornalista e escritora baiana Suzana Varjão, chega ao mercado brasileiro no dia 18 de setembro, quando a Editora Minimalismos disponibiliza a obra em todo o País. O livro foi impresso em dezembro de 2025 e distribuído para alguns leitores, sob encomenda, mas só agora está sendo lançado em escala nacional.

A autora explica que, seguindo a tendência mundial do mercado, o perfil eminentemente digital da editora e a ambiência futurista da história, a obra não terá pontos físicos de distribuição ou venda, o que ocorrerá de modo completamente online, por meio do link registrado no final do texto.

Mas apesar do modelo virtual, para celebrar o acontecimento, Suzana Varjão reunirá amigos num bistrô (endereço registrado no final do texto), onde falará um pouco sobre a trama, que se passa num ambiente devastado “física, política e moralmente”, no qual se desenrola a luta entre os “descartados” e os “eleitos” de uma nova e perversa ordem planetária.

Nessa sociedade distópica, composta por “gente-gente, gente-máquina e gente-miragem”, uma jovem negra junta-se aos insurgentes para restabelecer os limites entre os mundos material e virtual, real e simulado e entre verdade e mentira. Em meio ao que a autora chama de “guerra de lugares”, a protagonista vive o amor por uma mulher, “tão incerto quanto o destino da Terra”.

Nesta entrevista exclusiva, Suzana Varjão fala das previsões sobre o futuro da humanidade embutidas no enredo, revelando os motivos que a levaram a quase desistir de finalizar o livro.

Confira os principais trechos.

P – Você acabou de lançar dois livros: “Diário de uma louca (ou um sanatório chamado Brasil)” e “Divagações (ou retratos brasileiros)”. O que a fez publicar esse romance em tão curto espaço de tempo?
R – As interferências da realidade em minha ficção [risos]. Falando sério, eu estava quase finalizando “Cidade de bolhas e vãos”, quando veio a pandemia da Covid, em 2020. Isso me paralisou, porque a história era ambientada num mundo pós-pandêmico.

P – Nossa...
R – Pois é... Claro que a ambiência que criei era uma projeção, porque o mundo já havia sofrido pandemias, e caminhava, continua caminhando, pra mais desastres do tipo. Mas esse... digamos assim, adiantamento do que eu estava prevendo para um futuro mais distante, essa proximidade de minha literatura com a realidade imediata me incomodou, e eu parei a escrita, até ter clareza do que fazer.

P – E o que você fez?
R – Pra me distanciar um pouco dessa coincidência incômoda, escrevi os dois livros que você citou, até que resolvi finalizar o romance, o que aconteceu em março de 2025. Mandei o texto pra várias editoras, e enquanto esperava a resposta das chamadas de originais, aconteceu o surto de intoxicações por metanol, o que tornou a me desorientar...

P – Por quê, precisamente?
R – Porque no ambiente pós-pandêmico do romance estava acontecendo um novo surto de doença causada exatamente por metanol...

P – Mais uma coincidência?
R – Coincidência temporal, porque eu já tinha vivido uma experiência, como jornalista, há mais de 30 anos, na cidade de Santo Amaro da Purificação, na Bahia, quando ocorreram mortes por ingestão de metanol. Foi uma experiência tão marcante, que eu decidi recriar aquela ambiência, pra contar as histórias do livro. Só não esperava que aquele desastre sanitário se repetisse agora, e em larga escala, como projetei em “Cidade de bolhas e vãos”.

P – Pensou em parar de novo?
R – Confesso que cheguei a pensar em desistir de publicar o livro, mas outro acaso me fez repensar, e ver que era bobagem, porque afinal o romance não é sobre esses desastres sanitários. Eles são apenas a ambiência criada pra contar a história, ou as histórias, do romance.

P – Mas qual foi o acaso?
R – Limpando minha caixa de e-mails, encontrei uma mensagem da Minimalismos, avisando que meu romance tinha sido escolhido pra compor o catálogo da editora. Só que isso lá atrás, em abril de 2025. Eu não tinha visto porque ele estava na caixa de spam. Eu tinha vencido duas outras chamadas de originais, mas isso me fez pensar que eu não deveria ficar interrompendo o fluxo dos acasos, entende? Como baiana, tenho uma boa dose de superstição...

P – De premonição também? [risos]
R – Algumas das pessoas que leram os originais, antes da ocorrência dos eventos sanitários, levantaram essa lebre. Mas olha, projeção é uma espécie de premonição. Nesse caso, premonição não tem a ver com vidência, mas com a observação acurada da realidade. E, como disse, a ambiência do mundo pós-pandêmico foi uma projeção da realidade global, que aponta pra um futuro sombrio, um mundo, descrito no romance, como um planeta devastado, marcado pela renúncia às utopias e pela falência das instituições democráticas. E há outras projeções, no livro. Bem mais sérias, creio eu, do que os desastres sanitários recriados.

P – Pode dizer quais são essas outras projeções?
R – Não posso dar tanto spoiler, mas posso adiantar que apesar de ser um romance, com todos os ingredientes do gênero, como paixão, sexo, traição... o livro levanta velhas e novas questões que permeiam a humanidade. Entre os velhos problemas, as guerras de lugares... Lugares não apenas físicos, identitários também, que propiciam iniquidades como o racismo, a homofobia, a misoginia e por aí vai... São problemas insuperados da humanidade, provocados pela tendência de dominação de seres humanos sobre outros.

P – E os novos problemas?
R – Entre os novos desafios da humanidade estão os relacionados à tecnologia, que ocupa espaço central na trama de “Cidade de bolhas e vãos”. Vivemos um momento crucial para o futuro da humanidade, em que a tecnologia digital vem apagando as fronteiras entre virtual e material, simulação e realidade, verdade e mentira, gente e máquina, e gerando uma legião de humanoides.

P – Um horizonte bem sombrio...
R – Mas falo de esperança, também. E amor. Nessa ambiência física e moral degradada, há os inconformados, ou insurgentes, que lutam para derrubar a ordem opressora, resgatar a memória coletiva, salvar os oprimidos do extermínio e recuperar os recursos naturais devastados. Entre eles, uma jovem negra, que vive um amor com outra jovem – tão incerto quanto o destino da Terra.

Anote

Data: 18 de setembro
Horário: 18h
Local: Bistrô da Livraria Sebinho, CLN 406, bloco C, Brasília