A memória dos feitos históricos do 2 de julho na Bahia - além de estar presente no imaginário popular - foi construída com a ajuda de obras de artes, nos campos da pintura, escultura e lírica.
O governo e as escolas tinham a preocupação de ter o controle sobre a geração de símbolos nacionais e incentivaram o nascimento de grandes obras.
Na pintura, uma das obras mais importantes é "O primeiro passo para a Independência da Bahia", óleo de Antonio Parreiras, pintado em 1931.
Em primeiro plano, no canto inferior direito da tela, está retratada a agonia do tambor Soledade, socorrido por um oficial.
Parreiras concebeu a obra - que se encontra no Palácio Rio Branco, em Salvador - de modo a integrar no mesmo plano do cenário edificações da cidade de Cachoeira que se encontram dispostas de modo distinto, na realidade.
O Monumento ao 2 de Julho
Com com 25 metros de altura, foi inaugurado em 1895, na Praça do Campo Grande. Encomendado ao escultor italiano Carlo Nicoli, a obra tem como figura central um caboclo de 4 metros de altura, símbolo da afirmação da identidade do povo baiano. Armada de arco e flecha, a escultura golpeia uma serpente que simboliza a coroa portuguesa.
A participação de Cachoeira nas lutas pela Independência foi retratada apenas em 1928, por Antônio Parreiras, sob encomenda do governo da Bahia. A pintura simboliza a data de 25 de junho de 1822, quando a Câmara de Cachoeira reconhece a autoridade de D. Pedro I. O fato gerou mobilização popular e demonstrações de apoio ao príncipe regente e foi um marco decisivo para o início das batalhas.
Homens descalços representando os soldados estropiados e famintos, guiados por comandantes a cavalo, passam por um arco do triunfo no quadro A Entrada do Exército Libertador, pintado por Presciliano Silva, em 1930. Com 3 metros de comprimento, a pintura está localizada no Paço Municipal. Estudos feitos em carvão também se encontram expostos no Museu Carlos Costa Pinto.

Placa colocada pela Imprensa no Monumento ao 2 de Julho
Odes ao 2 de julho
Datas históricas e símbolos nacionais foram utilizados nas escolas para incentivar o patriotismo nos alunos. No Ginásio Baiano, colégio tradicional onde estudaram Ruy Barbosa e Castro Alves, eram organizados recitais em datas como 2 de julho e 7 de setembro. Nesses recitais os alunos improvisavam versos.
A produção literária do Ginásio Baiano era reunida e publicada em folhetos. O primeiro poema de Castro Alves dedicado ao 2 de julho foi recitado em um desses sarais, em 3 de julho de 1861. O poeta continuaria se inspirando na data. Outro exemplo é o poema “Ode ao Dous de Julho” , recitado em São Paulo, em 1868.
Em 2011, foi publicado o livro “O 2 de Julho na Bahia: Antologia Poética”, organizado por Lizir Arcanjo Alves, que resgata os poemas feitos sobre a Independência da Bahia ao longo da história.
Heróis contestados na literatura
O uso das obras de artes para mitificar episódios - muitas vezes floreando cenas que nada teriam de heroicas - foi utilizado por João Ubaldo Ribeiro em mais um obra que cita a guerra da Independência da Bahia, o romance Viva o Povo Brasileiro, conhecido por louvar os heróis do povo.
Nas primeiras páginas, um herói fictício, o Alferes Brandão Galvão, se transforma em personagem do quadro “O alferes Brandão Galvão perora às gaivotas”, que representa o discurso do soldado às aves, testemunhas de sua morte no primeiro ataque português à Ilha de Itaparica. O alferes, que “dos seus deveres de alferes nada conhecia, nem mesmo o que significava o posto, nem mesmo se era alferes", e nada disse, teve o dom das belas palavras “emprestado pela morte”.
A cena satiriza as obras histórias que podem representar feitos que nunca ocorreram. O romance de João Ubaldo Ribeiro ainda recorre, em muitas passagens, aos heróis anônimos que fizeram a história do Brasil e da Bahia, em diferentes períodos históricos, mas que passaram longe dos registros e da glória.
Ode ao Dous de Julho
Castro Alves
Era no dous de julho. A pugna imensa
Travara-se nos cerros da Bahia...
O anjo da morte pálido cosia
Uma vasta mortalha em Pirajá.
"Neste lençol tão largo, tão extenso,
"Como um pedaço roto do infinito...
O mundo perguntava erguendo um grito:
"Qual dos gigantes morto rolará?!..."
Debruçados do céu... a noite e os astros
Seguiam da peleja o incerto fado...
Era a tocha — o fuzil avermelhado!
Era o Circo de Roma-o vasto chão!
Por palmas-o troar da artilharia!
Por feras-os canhões negros rugiam!
Por atletas-dous povos se batiam!
Enorme anfiteatro — era a amplidão!
Não! Não eram dous povos, que abalavam
Naquele instante o solo ensangüentado...
Era o porvir-em frente do passado,
A Liberdade-em frente à Escravidão,
Era a luta das águias — e do abutre,
A revolta do pulso-contra os ferros,
O pugilato da razão — com os erros,
O duelo da treva-e do clarão!...
No entanto a luta recrescia indômita...
As bandeiras — como águias eriçadas —
Se abismavam com as asas desdobradas
Na selva escura da fumaça atroz...
Tonto de espanto, cego de metralha,
O arcanjo do triunfo vacilava...
E a glória desgrenhada acalentava
O cadáver sangrento dos heróis!...
Mas quando a branca estrela matutina
Surgiu do espaço... e as brisas forasteiras
No verde leque das gentis palmeiras
Foram cantar os hinos do arrebol,
Lá do campo deserto da batalha
Uma voz se elevou clara e divina:
Eras tu— Liberdade peregrina!
Esposa do porvir-noiva do sol!...
Eras tu que, com os dedos ensopados
No sangue dos avós mortos na guerra,
Livre sagravas a Colúmbia terra,
Sagravas livre a nova geração!
Tu que erguias, subida na pirâmide,
Formada pelos mortos de Cabrito,
Um pedaço de gládio — no infinito...
Um trapo de bandeira — n'amplidão!...
Aprenda o Hino do 2 de Julho
Letra: Ladislau dos Santos Titara
Música: José dos Santos Barreto
Nasce o sol a 2 de julho
Brilha mais que no primeiro
É sinal que neste dia
Até o sol, até o sol é brasileiro
Nunca mais, nunca mais o despotismo
Regerá, regerá nossas ações
Com tiranos não combinam
Brasileiros, brasileiros corações
Salve, oh! Rei das campinas
De Cabrito e Pirajá
Nossa pátria hoje livre
Dos tiranos, dos tiranos não será
Cresce, oh! Filho de minha alma
Para a pátria defender,
O Brasil já tem jurado
Independência, independência ou morrer.
No vídeo
Ouça o Hino ao 2 de Julho
Aprenda a tocar o Hino 2 de Julho

Ao dia 2 de Julho
Castro Alves
Que céu tão negro... que tão negra a terra,
Rugindo rola-se o trovão no espaço...
Falanges negras de chumbadas nuvens
Raios vomitam num medonho abraço...
Na terra perdem-se ao tinir de ferros
Entre soluços mil sentidos cantos,
E ao som do cedro que os machados tombam
Chora o cativo amargurados prantos.
Do rosto másculo lhe goteja a lágrima
Que as ervas torra do queimado chão.
Procura a esposa que lhe mostre o filho...
O céu troveja e lhe responde — não.
Um suor frio lhe passou nos membros...
No corpo a vida para sempre cansa.
Caiu por terra, mas lembrando o filho
Com os lábios hirtos repetiu — vingança.
Nem pôde ao menos abraçar a esposa
Na hora triste do seu passamento.
São-lhe sudário da mangueira velha
As folhas secas que lhe atira o vento.
Só tem por prantos o gemer tristonho
Da ventania que rugindo passa.
— Triste epopéia do guerreiro forte
Que enfim, cativo fez a morte escassa...
E após... Um dia a soluçar nos ferros
Passa o filhinho p’la senil mangueira...
E passa o triste sem saber ao menos
Do pátrio túmulo ter passado à beira...
PARTE SEGUNDA - A Vingança
Não ouvis que voz terrível
Que nos traz a ventania
Que há pouco só nos trazia
Tristes suspiros de dor?...
E do relâmpago sinistro...
Vede... As lousas estalaram...
E os espectros acordaram...
Medonhos no seu furor...
Ergueram-se mil fantasmas
Hirsutos e suarentos
A branca mortalha aos ventos
Flutua longa alvadia.
Tiradentes mostra o insulto
Que lhe pesa sobre a fronte,
Gonzaga aponta o horizonte
Co’a mão descarnada e fria.
E Cláudio, e o forte Alvarenga
Recordam o seu passado,
Só de dores coroado...
— Triste c’roa do infeliz...
Pedem castigo p’ra aqueles
Que assinaram a — sentença —
— De — morte — a quem na defensa
Lutava de seu país.
A mãe clama pelo filho...
E pelo amante a donzela...
O índio pela mata bela
Onde a vida lh’era mansa...
— Vingança — uníssona e forte
Uma voz terrível brada...
Três séculos surgem do nada
Para bradarem — vingança —
PARTE TERCEIRA - Saudação
Quereis que vos conte a história brasílea
Que Deus copiara sorrindo talvez...
E as lutas terríveis do moço gigante
Com o velho que ao mundo ditara só leis...
Oh! Não... Que sois filhos do povo dos bravos...
Sois filhos hercúleos do hercúleo cruzeiro...
Sabeis esta história... Quem é que não sabe-a?
Quem é?... Se não sabe-a... não é Brasileiro.
E a este que a digam as águas de prata
Que um dia de sangue ficaram também...
Que a digam as águias, que viram as lutas
E foram contá-las às águias de além...
E o velho vigia dos louros da pátria
Da história brasílea servil sentinela
— O campo formoso ao grão Pirajá —
Que para cantá-la deitado lá vela.
E após essa luta... Nos ares um grito
Passou repetindo-se em vales e montes...
E a ouvi-lo os tiranos nos tronos tremeram
E viram tremerem-lhe as cr’oas nas frontes...
E um povo de bravos ergueu-se dizendo:
“Já somos nós livres, já somos nação!...”
Co’as águas imensas o imenso Amazonas
Pomposo repete: — “Sou livre em meu chão!...”
E ao grito de livres as fontes correram
E em lindas cascatas os rios saltaram...
Ergueram-se cantos festivos de hosanas,
As flores do seio da terra brotaram...
É hoje, senhores, o dia da pátria.
Que d’alma — os Baianos — conservam no fundo,
Saudemos o dia que ergueu-nos do lodo...
Que marca um progresso na vida do mundo.
Senhores, a glória de um povo é ser livre...
O nome de livres é o nosso brasão.
Seja esta a divisa da nossa existência.
E este epitáfio se escreva no chão...
