
O tratamento do câncer de mama pode provocar alterações na pele que vão além do desconforto temporário.
Ressecamento, coceira, descamação, inflamações e mudanças na pigmentação estão entre os efeitos possíveis da radioterapia e da quimioterapia.
Em mulheres negras e pardas, algumas dessas manifestações podem apresentar características que dificultam sua identificação e deixar manchas persistentes, mesmo depois do término do tratamento.
A atenção a essas complicações ganha espaço durante o Outubro Rosa, campanha de conscientização sobre o câncer de mama.
Segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), o Brasil deverá registrar 78.610 novos casos da doença por ano no triênio 2026-2028, o equivalente a uma taxa estimada de 71,57 casos para cada 100 mil mulheres.
Embora a pigmentação da pele não constitua, por si só, um fator de risco para o desenvolvimento do câncer de mama, ela pode influenciar a aparência das reações cutâneas provocadas pelo tratamento.
Uma das principais preocupações é a hiperpigmentação pós-inflamatória, caracterizada pelo escurecimento da pele após um processo inflamatório.
Inflamações podem apresentar sinais diferentes
A radioterapia utiliza radiação para destruir células cancerígenas ou impedir sua multiplicação. Entretanto, o procedimento também pode atingir células saudáveis da região tratada, provocando uma reação inflamatória conhecida como radiodermatite.
Entre os sintomas estão ressecamento, coceira, sensibilidade, descamação e alterações na coloração da pele. Em situações mais graves, podem surgir bolhas, feridas e lesões que exigem cuidados específicos.
A identificação dessas reações nem sempre é simples. Em peles claras, a inflamação costuma produzir vermelhidão, um dos sinais tradicionalmente utilizados na avaliação clínica. Já em peles mais escuras, a região afetada pode apresentar tonalidades acastanhadas, arroxeadas ou acinzentadas, tornando a inflamação menos evidente quando se considera apenas a presença de vermelhidão.
Essa diferença não significa que mulheres negras necessariamente desenvolvam lesões mais graves. O problema envolve tanto as características de manifestação das alterações quanto as limitações dos instrumentos utilizados para avaliá-las.
Uma revisão sistemática publicada em janeiro de 2023 na revista científica Clinical Breast Cancer examinou estudos sobre alterações cutâneas provocadas pela radioterapia em pacientes com câncer de mama e pele de cor.
Conduzida por Juhi M. Purswani e colaboradores, a pesquisa reuniu estudos de diferentes desenhos metodológicos e identificou resultados que sugerem maior gravidade de radiodermatite em determinadas populações afro-americanas. Entretanto, os pesquisadores ressaltaram que essa associação não foi observada de maneira uniforme.
O trabalho também apontou a ausência de estudos prospectivos e randomizados que avaliassem objetivamente as alterações de pigmentação considerando a tonalidade inicial da pele. Essa limitação dificulta conclusões definitivas sobre a frequência e a intensidade das reações em diferentes grupos.
Manchas podem persistir após a recuperação da pele
Uma das possíveis consequências da inflamação é a hiperpigmentação pós-inflamatória. O fenômeno ocorre quando o processo inflamatório altera a produção ou a distribuição de melanina, pigmento responsável pela coloração da pele.
Em pessoas com maior pigmentação cutânea, essas alterações podem ser especialmente perceptíveis e persistir por meses ou, em determinadas situações, por períodos mais longos.
As manchas podem permanecer mesmo depois que a pele deixa de apresentar sinais de inflamação. Isso não significa, por si só, que o câncer tenha avançado ou que o tratamento não esteja funcionando.
A intensidade e a duração das alterações dependem de fatores individuais, da região tratada, das características da terapia e da resposta do organismo.
Além da radioterapia, determinados medicamentos utilizados na quimioterapia podem provocar ressecamento, coceira, erupções cutâneas, sensibilidade à exposição solar e alterações de pigmentação.
O Instituto Nacional do Câncer dos Estados Unidos (NCI) recomenda que pacientes em tratamento oncológico comuniquem à equipe de saúde qualquer mudança na pele, mesmo quando os sintomas parecem leves. A orientação permite identificar precocemente complicações e definir os cuidados adequados.
Acompanhamento deve começar antes das lesões
Para a médica Danìelà Hermes, pós-graduada em Saúde Pública e com duas décadas de atuação voltadas à saúde das peles plurais, o cuidado dermatológico deve integrar o acompanhamento das pacientes desde o início do tratamento.
“Durante a jornada oncológica, a saúde da pele precisa ser acompanhada continuamente. A resposta inflamatória pode gerar alterações na pigmentação que persistem por anos, um cenário comum em peles negras e mestiças”, explica.
Segundo a especialista, a avaliação preventiva permite reconhecer as características individuais da pele e estabelecer orientações compatíveis com a terapia oncológica.
“O plano terapêutico precisa ser individualizado e alinhado à equipe responsável pelo tratamento do câncer. Medidas como a hidratação profunda da barreira cutânea, a higienização suave e a observação constante são fundamentais, mas a introdução de qualquer ativo ou produto deve passar por validação médica prévia”, orienta Danìelà Hermes.
As recomendações de cuidados precisam considerar o tipo de tratamento e as condições clínicas de cada paciente. Produtos hidratantes e de limpeza suave podem ajudar a reduzir o ressecamento e o desconforto, mas não impedem necessariamente o aparecimento de todas as reações cutâneas.
O NCI orienta que os produtos utilizados sejam recomendados pela equipe responsável. Durante a radioterapia, também podem existir restrições específicas ao uso de determinadas substâncias na região irradiada.
Quais sinais exigem atenção médica?
Alterações leves na pele podem ocorrer durante o tratamento oncológico, mas alguns sintomas exigem avaliação profissional.
Dor intensa, coceira persistente, descamação acentuada, bolhas, feridas, secreções e mudanças importantes na aparência da região tratada devem ser comunicadas à equipe de saúde.
O acompanhamento é necessário para distinguir reações esperadas de complicações que podem exigir intervenção, como infecções e lesões mais profundas.
Também é importante evitar a utilização de produtos clareadores, ácidos e procedimentos estéticos sem orientação profissional. Durante a radioterapia ou na presença de lesões ativas, intervenções destinadas ao tratamento de manchas e cicatrizes precisam ser avaliadas e autorizadas pelos médicos responsáveis.
Cuidado com a pele também faz parte do tratamento
As consequências das terapias oncológicas não se limitam ao controle do tumor. Alterações persistentes na pigmentação, cicatrizes e mudanças na textura da pele podem provocar desconforto físico e afetar a imagem corporal e o bem-estar emocional das pacientes.
Por isso, a assistência ao câncer de mama deve considerar tanto a eficácia do tratamento quanto a prevenção e o controle de efeitos adversos.
No caso das mulheres negras e pardas, essa abordagem inclui reconhecer que os sinais de inflamação nem sempre se apresentam da mesma maneira observada em peles claras. Também exige ampliar a representatividade dessas populações nos estudos científicos e aperfeiçoar os instrumentos de avaliação clínica.
