Ilustração feita por IA

A primeira morte que eu lembro de ter chorado na minha vida foi a de Tancredo Neves. Eu tinha 9 anos, a idade que hoje tem a minha filha caçula. Apesar do tempo, as lembranças dessa época são muito vívidas na memória. Minha mãe me acordou, disse que tinham ligado da escola para avisar que não haveria aula em função da morte do presidente recém-eleito. E eu chorei.
O choro era meu e ao mesmo tempo um reflexo da emoção coletiva no Brasil de 1985. Meus pais não eram militantes nem envolvidos com política, mas eram pessoas bem-informadas, que se importavam com os rumos do país e acompanhavam os acontecimentos pelos meios de comunicação tradicionais, à luz da experiência de vida e com o olhar crítico adquirido com a formação escolar, universitária e o conhecimento por meio da música, da literatura e do cinema.
Eu lembro das reportagens que mostravam manifestações gigantescas em que os jovens empunhavam bandeiras em que se lia Diretas Já. Eu lembro do vozeirão de Fafá de Belém como trilha sonora da esperança na Democracia e nunca vou esquecer a imagem de uma bandeira enorme do Brasil que ocupava toda a extensão do jardim em frente ao Congresso Nacional. Sem divisões, todos juntos levantavam aquela bandeira.
No dia em que Tancredo foi eleito, meu pai assistia pela TV a primeira eleição, ainda que indireta, após um período de 21 anos de ditadura. Eu queria brincar na piscina e não tive paciência de esperar o fim da votação. Quando acabou, meu pai, que nunca foi muito de demonstrar emoções, entrou na piscina para brincar comigo e com minha irmã e falou que aquele tinha sido um dia muito importante para o país. Hoje eu sei o quanto e o tanto que foi.
Eu também vi pela TV e nas capas de jornais e revistas Ulisses Guimarães erguer a Constituição de 1988 com um gesto muito semelhante ao de um capitão que empunha o troféu ao ganhar um campeonato. Aquilo, sim, era uma vitória de um coletivo muito maior e comemorada por gente de todos os partidos políticos, com muita alegria.
Na sexta-feira, na saída da escola, minha filha de 12 anos, me disse em tom de recriminação e querendo encerrar a conversa: “chega, mãe, de falar de política, eu ainda sou uma criança, nem voto”.
Eu não me calei, mas fui breve e contundente no meu discurso, porque sei que, às vezes, ultrapasso um pouco os limites do que seria aceitável para uma criança dessa nova geração. “Não é porque você é criança e não vota que a política não faz parte da sua vida. Política não é disputa de BA-VI, minha filha. Ela está no preço do pão e da gasolina, na liberdade de ir e vir, de se expressar, de votar, na vacina que você toma ou deixa de tomar, no acesso à educação, em poder cursar uma universidade pública como a que eu cursei, na segurança de andar na rua, na nossa proteção como mulheres etc. E eu com 9 anos já era atenta à política, mesmo sem poder, pela idade, votar. E agora que exerço esse direito, tem gente o colocando em questão. Você lembra da história de Malala? Nem sempre o país dela foi daquele jeito, passou a ser depois que um determinado grupo político assumiu”.
Quando eu estava na terceira série do primário (acho que é o equivalente ao 2º ano do fundamental), a professora de Português trabalhou como atividade outras versões da história de Chapeuzinho Vermelho. Entre elas, uma escrita por Chico Buarque, Chapeuzinho Amarelo, e outra de autoria de Paulo Serra, um ambientalista com quem não tenho parentesco apesar de termos o mesmo sobrenome, com o título de Chapeuzinho Verde.
Inspirada por essa atividade da escola, eu criei o roteiro de uma peça de teatro chamada “Chapeuzinho em tempos de inflação”, que encenei com minha irmã e as primas da minha idade, para a família (pai, mãe, tios, primas mais velhas) e para os vaqueiros que trabalhavam na fazenda de minha avó com as famílias deles.
A peça começava com Chapeuzinho no supermercado comprando guloseimas para levar para a avó e consultando os preços dos produtos na tabela da Sunab (para quem não lembra desse período no governo Sarney, pergunte ao chat GPT ou ao Gemini). Sim, vivíamos num país em que o maior desafio era controlar a inflação.
Quando o Lobo aparecia, e Chapeuzinho apelava para o Caçador, ele e seus colegas de profissão estavam em greve. Sim, essa foi uma época em que os trabalhadores se organizavam e se mobilizavam reivindicando melhores condições de trabalho, e, nesse período, Lula já era uma liderança importante.
Na cena seguinte, aparecia o movimento ambientalista em defesa do Lobo e da proteção dos animais. Sim, nessa época, os ativistas do Greenpeace se jogavam na frente de grandes navios pesqueiros e faziam protestos com um bando de gente pelada no asfalto com o corpo melado de sangue para que os bichos não fossem mortos para virar casacos de pele.
E o desfecho era com a Chapeuzinho botando o Lobo para correr com uma bomba orgânica de pum. Isso mesmo, minha peça acabava em pum e FIM. Simples assim.
Nesse Dia das Crianças, olho para esse recorte do passado e vejo como meu engajamento político se forjou a partir de um olhar para o coletivo e de consciência em relação ao planeta. Um olhar que se preocupava em assegurar as garantias democráticas, as garantias trabalhistas e a preservação ambiental.
Hoje, cerca de 40 anos depois, neste 12 de outubro de 2026, meu compromisso com o projeto de país que desejo para as minhas filhas e para as outras crianças preserva esse mesmo olhar que marcou a minha infância.
