A OpenAI -- empresa à frante do ChatGPT -- interrompeu duas operações que utilizavam inteligência artificial, falsas identidades jornalísticas e organizações de fachada para disseminar mensagens políticas. As campanhas conseguiram inserir conteúdos em veículos de comunicação reais, ampliando o alcance potencial de suas mensagens para além das redes de contas falsas.
Os responsáveis combinaram ferramentas de inteligência artificial com estratégias tradicionais de manipulação da informação. A empresa bloqueou contas do ChatGPT associadas às operações e compartilhou informações sobre os casos com autoridades competentes.
Uma operação russa, denominada Dark Clark, controlava o Social Research Center (SRC), uma organização que se apresentava como plataforma de pesquisa sobre temas relacionados à América Latina.
Segundo a OpenAI, pessoas contratadas na região realizaram pesquisas e produziram conteúdos sem saber que trabalhavam para uma estrutura controlada por operadores russos.
Relatórios internos examinados pela empresa indicavam que esses operadores participavam de decisões sobre contratação, remuneração, demissões e projetos de pesquisa. A organização também utilizava uma identidade fictícia, chamada Mia Clark, para administrar atividades nas redes sociais e interagir com colaboradores.
Temas sobre o Brasil
A investigação encontrou mais de 60 artigos no site do SRC, a maioria aparentemente composta por trabalhos originais. Entre os temas abordados estavam a percepção pública sobre o Brics e uma comparação da economia brasileira durante os governos de Jair Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva.
Paralelamente, os operadores russos desenvolveram campanhas envolvendo documentos falsificados, supostos vazamentos e mensagens destinadas a prejudicar a imagem da Ucrânia na América Latina. Algumas atividades também buscavam interferir em debates políticos locais, especialmente na Argentina e na Bolívia.
A OpenAI ressalta que os relatórios internos dos operadores frequentemente exageravam os resultados das campanhas. Parte das alegações pôde ser confrontada com publicações e verificações independentes, mas outras não foram confirmadas.
No Irã, uma operação denominada Bogus Bylines utilizava sete identidades fictícias de jornalistas supostamente ocidentais para oferecer artigos a publicações digitais de diferentes países.
A OpenAI identificou quase 100 artigos publicados ou republicados sob essas assinaturas em mais de uma dúzia de veículos, principalmente especializados em política internacional, geopolítica e Oriente Médio. O primeiro texto localizado foi publicado em julho de 2025, e o mais recente, em outubro de 2026.
Os conteúdos abordavam principalmente o conflito entre Estados Unidos e Irã. Entre os nomes utilizados estavam Ervin B. Hoskins, Michael Harrison, Sophia Gonzalez e Noah Lamington.
Algumas identidades possuíam biografias profissionais e perfis em redes sociais que contribuíam para conferir aparência de legitimidade aos autores. Em um dos casos, os operadores utilizaram o ChatGPT para produzir a própria biografia fictícia.
A inteligência artificial também era empregada para revisar artigos em inglês, adequar os textos às exigências editoriais dos veículos e preparar mensagens destinadas a convencer editores a aceitar as contribuições.
A operação utilizava ainda o ChatGPT para gerar comentários em redes sociais, inclusive respostas que elogiavam os próprios artigos publicados. Essa atividade, porém, apresentou baixo engajamento, segundo a investigação.
Campanhas alcançaram veículos de comunicação
A OpenAI classificou a operação russa na categoria 5 de uma escala de seis níveis utilizada para avaliar a disseminação de operações de influência. Foi a primeira operação interrompida pela empresa a alcançar essa classificação desde o início da divulgação desses relatórios, em 2024.
A campanha iraniana recebeu classificação 4 pela publicação recorrente de artigos em veículos externos. A atividade de comentários nas redes sociais, por sua vez, ficou na categoria 2, devido ao alcance limitado observado.
A investigação identificou que um dos veículos que publicou artigos associados à operação iraniana possuía quase 2 milhões de seguidores no Facebook, além de centenas de milhares em outras plataformas.
Esses números demonstram o alcance potencial das publicações, mas não permitem determinar quantas pessoas efetivamente leram os artigos ou foram influenciadas por eles.
O aspecto central das descobertas é que as duas operações conseguiram alcançar veículos de comunicação existentes, em vez de depender exclusivamente de perfis falsos e páginas controladas pelos próprios operadores.
