Brasil

Morre o especialista em aviação Lito Sousa (aos 59 anos de idade)

Ele foi diagnosticado com Creutzfeld-Jakob, condição neurodegenerativa rara e progressiva

Lito Sousa

O influenciador e especialista em aviação Lito Sousa, criador do canal Aviões e Músicas, morreu nesta quinta-feira (1º), aos 59 anos, em São Paulo. A morte foi anunciada pela esposa, Mila Seidl, em uma publicação nas redes sociais e confirmada pela assessoria do influenciador.

Em um comunicado oficial, a família afirmou que informações sobre o velório e a despedida serão divulgados em breve.

Leia a íntegra do texto:

"É com profunda tristeza que comunicamos o falecimento de Lito Sousa. Lito dedicou grande parte de sua vida à aviação e à missão de compartilhar conhecimento.

Com seu jeito único de ensinar, sua curiosidade e sua paixão, aproximou milhões de pessoas desse universo e inspirou muitos a seguirem seus próprios sonhos.

Mais do que um grande profissional e comunicador, deixa um legado de generosidade, amizade e impacto positivo na vida de todos que tiveram o privilégio de conviver e aprender ao seu lado. Agradecemos por todas as mensagens, orações e demonstrações de carinho recebidas durante este período.

Em breve, divulgaremos as informações sobre o velório e a despedida. Deixamos aqui nossos mais sinceros agradecimentos. E, neste momento, pedimos respeito e privacidade à família e às pessoas próximas.

SEU LEGADO CONTINUARÁ VOANDO E ATÉ UM PRÓXIMO VOO."

Doença de Creutzfeldt-Jakob

Joselito Geraldo de Sousa enfrentava a doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ), enfermidade neurodegenerativa rara, progressiva e fatal, que pode provocar rápido comprometimento das funções cognitivas e motoras.

A doença está associada ao acúmulo de príons, proteínas que assumem uma conformação anormal e desencadeiam um processo de deterioração das células cerebrais.

A descoberta da DCJ ocorreu depois de outro problema de saúde. Em julho, Lito revelou que havia sido diagnosticado, após exames de rotina, com um adenocarcinoma de próstata de agressividade intermediária. Posteriormente, passou a apresentar sintomas neurológicos, entre eles dormência e perda de movimentos no braço esquerdo.

O quadro inicialmente levou à investigação de uma possível inflamação no sistema nervoso central. Em agosto, novos exames levaram ao diagnóstico da doença de Creutzfeldt-Jakob.

Corrida em busca de tratamento

O diagnóstico deu início a uma mobilização da família em busca de alternativas terapêuticas. Não existe, atualmente, tratamento aprovado capaz de interromper ou reverter a progressão da DCJ. O atendimento convencional é voltado principalmente ao controle dos sintomas e aos cuidados paliativos.

A família passou, então, a procurar pesquisadores, protocolos e estudos experimentais. A mobilização chegou ao governo federal. Em agosto, o Ministério da Saúde pediu a inclusão de Lito em um estudo experimental nos Estados Unidos.

A busca resultou no acesso ao ALN-6457, substância experimental desenvolvida para interferir na produção da proteína priônica. Em 4 de setembro, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária autorizou excepcionalmente a importação e o uso do produto. A decisão levou em consideração a gravidade da doença, sua rápida evolução e a inexistência de alternativa terapêutica capaz de modificar seu curso.

O caso tinha um componente excepcional: o ALN-6457 encontrava-se em estágio pré-clínico e ainda não havia passado por ensaios clínicos formais em seres humanos para doenças priônicas. Lito tornou-se o primeiro ser humano a receber a substância. Sua eficácia contra a doença, portanto, não estava comprovada.

O medicamento chegou ao Brasil em setembro, em uma operação de urgência, e foi administrado enquanto Lito estava internado na UTI do Einstein Hospital Israelita, em São Paulo. Segundo Mila Seidl, não houve intercorrências provocadas pela aplicação. A expectativa era acompanhar a evolução do quadro durante as semanas seguintes.

A velocidade da doença, entretanto, representava um obstáculo. Em 24 de setembro, Mila informou que ainda não havia mudanças no estado do marido e explicou que o medicamento necessitaria de semanas para alcançar seu efeito máximo, enquanto a DCJ também avançava rapidamente.

De mecânico de aeronaves a fenômeno da internet

Lito Sousa construiu sua carreira muito antes de se transformar em uma personalidade das redes sociais. Nascido em Natal (RN), em 25 de janeiro de 1967, começou a trabalhar com aviação ainda jovem e acumulou mais de três décadas de experiência no setor.

Atuou na manutenção de aeronaves e passou por empresas como Varig e United Airlines, além de ter experiência profissional no antigo Zaire, atual República Democrática do Congo.

Foi na internet, porém, que transformou o conhecimento técnico em um produto de comunicação de grande alcance. Com o Aviões e Músicas, passou a explicar em linguagem acessível o funcionamento de aeronaves, procedimentos de segurança, manutenção e acidentes aéreos.

Uma de suas características era traduzir conceitos complexos para pessoas sem formação na área. Lito também se tornou conhecido pelo trabalho de combate ao medo de voar e pela frase “turbulência não derruba avião”. Somadas, suas redes sociais reuniam milhões de seguidores.

Além dos vídeos, publicou o livro “Onde Morrem os Aviões” e desenvolveu projetos de educação ligados à aviação. Em 2023, criou com Mila Seidl a Lito Academy e desenvolveu o curso “Sem Medo de Voar”, voltado a pessoas com aerofobia.

A trajetória fez de Lito Sousa um dos principais divulgadores de conteúdo aeronáutico do país. Em vez de falar apenas para pilotos, mecânicos e profissionais do setor, aproximou a aviação do público leigo e construiu uma audiência baseada na explicação de fenômenos técnicos em linguagem simples.

Lito deixa a esposa, Mila Seidl, e o filho Malone, de sete anos.

Doença de Creutzfeldt-Jakob: entenda a enfermidade rara que atinge o cérebro

Causada por proteínas anormais chamadas príons, doença provoca rápida deterioração neurológica, não tem cura conhecida e é fatal

A doença de Creutzfeldt-Jakob (DCJ) é uma enfermidade cerebral rara, neurodegenerativa e de rápida progressão. Pertence ao grupo das chamadas doenças priônicas e provoca uma deterioração acelerada das funções cerebrais. Atualmente, não existe tratamento comprovado capaz de curar a doença ou impedir sua progressão.

Sua ocorrência é extremamente rara. Dados internacionais indicam uma incidência anual da ordem de um a dois casos por milhão de habitantes. A doença aparece principalmente em pessoas mais velhas e, na forma clássica, costuma manifestar-se a partir dos 55 anos.

O que são os príons?

Uma das características mais incomuns da DCJ está em sua origem. Diferentemente de doenças provocadas por vírus, bactérias, fungos ou parasitas, ela está relacionada a príons, proteínas que assumem uma conformação anormal.

Proteínas priônicas normais estão presentes naturalmente no organismo. Na doença, algumas delas se dobram de maneira anormal e induzem outras proteínas a também adquirirem uma estrutura inadequada. O acúmulo dessas proteínas no cérebro está associado à destruição progressiva dos neurônios.

A DCJ integra o grupo das encefalopatias espongiformes transmissíveis. A denominação "espongiforme" decorre das alterações microscópicas provocadas no tecido cerebral, que pode adquirir uma aparência semelhante à de uma esponja.

Quais são os sintomas?

A doença pode começar de diferentes maneiras, mas uma de suas características mais importantes é a velocidade da deterioração neurológica.

Entre as manifestações possíveis estão perda de memória, comprometimento cognitivo, dificuldade de coordenação dos movimentos, tremores, alterações visuais, distúrbios da linguagem, alterações de comportamento e espasmos musculares involuntários, conhecidos como mioclonias.

À medida que a doença progride, podem aparecer manifestações mais graves, como crises epilépticas, paralisia facial e perda crescente das capacidades psicomotoras.

A rapidez da evolução ajuda a diferenciá-la de várias outras formas de demência. Segundo o CDC, na DCJ clássica o tempo mediano entre o aparecimento dos sintomas e a morte é de aproximadamente quatro a cinco meses. O Ministério da Saúde informa que cerca de 90% dos pacientes morrem dentro de um ano.

Como alguém desenvolve a doença?

Existem três formas principais da DCJ clássica.

A mais frequente é a esporádica, responsável por aproximadamente 85% dos casos. Nela, não se identifica uma causa externa nem um padrão de transmissão. Ainda não se sabe por que as proteínas priônicas passam a apresentar a conformação anormal nesses pacientes.

A segunda é a hereditária ou familiar, relacionada a mutações no gene PRNP, responsável pela produção da proteína priônica. Segundo o Ministério da Saúde, essa forma corresponde a aproximadamente 5% a 15% dos casos.

Há ainda a forma iatrogênica, extremamente rara, relacionada à transmissão acidental de príons em determinados procedimentos médicos. Historicamente, foram registrados casos envolvendo, por exemplo, certos transplantes e enxertos, instrumentos neurocirúrgicos contaminados e hormônios derivados de tecidos humanos. Atualmente, medidas específicas de biossegurança buscam evitar esse tipo de transmissão.

A doença passa de uma pessoa para outra?

Não pelo convívio normal. Segundo o Ministério da Saúde, não existem evidências de transmissão da DCJ esporádica pelo ar ou pelo contato social cotidiano.

Abraçar ou beijar uma pessoa com a doença, compartilhar copos e utensílios ou manter relações sexuais não são formas reconhecidas de transmissão. Familiares e cuidadores, portanto, não apresentam risco adicional simplesmente por conviver com o paciente.

Os cuidados especiais de biossegurança estão relacionados principalmente a determinadas situações médicas e laboratoriais que envolvam tecidos potencialmente contaminados.

É a mesma doença da "vaca louca"?

Não. A doença de Creutzfeldt-Jakob clássica não deve ser confundida com a variante da doença de Creutzfeldt-Jakob (vDCJ).

A variante foi identificada na década de 1990 e está associada à exposição ao agente responsável pela encefalopatia espongiforme bovina (EEB), popularmente conhecida como "doença da vaca louca". A principal via identificada historicamente foi o consumo de produtos bovinos contaminados.

As duas enfermidades são doenças priônicas, mas apresentam diferenças epidemiológicas e clínicas importantes. A DCJ clássica atinge principalmente pessoas mais velhas, enquanto a variante atingiu predominantemente indivíduos jovens. Também há diferenças na manifestação inicial e na duração da doença.

Segundo o Ministério da Saúde, o Brasil nunca registrou caso humano confirmado da variante da DCJ desde que sua notificação se tornou obrigatória, em 2005.

Como é feito o diagnóstico?

O diagnóstico é complexo porque os sintomas podem se confundir inicialmente com os de outras doenças neurológicas.

A investigação pode envolver ressonância magnética do cérebro, eletroencefalograma, exames do líquido cefalorraquidiano e testes genéticos, entre outros procedimentos. Os médicos também precisam excluir outras possíveis causas de demência rapidamente progressiva, inclusive algumas potencialmente tratáveis.

Existem critérios que permitem classificar casos como possíveis ou prováveis. A confirmação definitiva, entretanto, depende da análise do tecido cerebral por métodos neuropatológicos ou imunodiagnósticos, geralmente realizada após a morte. A biópsia cerebral pode ser considerada em situações específicas, mas não costuma ser recomendada apenas para confirmar a DCJ devido aos riscos do procedimento.

Existe tratamento?

Até o momento, não existe terapia comprovada capaz de curar a DCJ ou interromper sua progressão.

O tratamento convencional é de suporte e busca aliviar os sintomas, controlar complicações, preservar o conforto e atender às necessidades físicas, nutricionais, psicológicas e sociais do paciente.

A ausência de tratamento modificador da doença explica o interesse científico por terapias experimentais capazes de atuar sobre os príons ou sobre sua produção. Qualquer medicamento ainda em investigação, entretanto, precisa ser claramente diferenciado de um tratamento de eficácia comprovada.

No Brasil, a DCJ é uma doença de notificação compulsória desde 2005. Entre 2005 e 2021, foram registradas 1.576 notificações de casos suspeitos no país. Esse número se refere a suspeitas notificadas, e não a 1.576 casos necessariamente confirmados.