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Milhares de sites ilegais de apostas aparecem após proibição no Brasil

Entidades do setor alegam que proibição pode estimular mercado clandestino

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pós a proibição das bets, o governo intensificou o combate ao mercado irregular e pediu a derrubada de 5.209 domínios. Entidades sustentam que a proibição pode estimular a migração de apostadores para plataformas clandestinas e recorreram ao STF.

A proibição das bets no Brasil foi seguida pela identificação de milhares de endereços relacionados à oferta irregular de apostas e por indícios de criação de novos sites para manter a atividade no país.

Desde 25 de setembro, quando o governo federal publicou a Medida Provisória 1.394/2026, os ministérios da Justiça e Segurança Pública e da Fazenda solicitaram a derrubada de 5.209 domínios relacionados à exploração de apostas. Desse total, 2.387 já tiveram o bloqueio determinado pela Agência Nacional de Telecomunicações (Anatel).

Os números, porém, exigem uma distinção. Os 5.209 domínios foram identificados e encaminhados para bloqueio após a edição da medida, mas isso não significa que todos tenham sido criados depois da proibição.

Um levantamento privado traz um indicador mais específico sobre o aparecimento de novos endereços. Segundo a plataforma Bet Legal, mantida pela empresa de cibersegurança Iron Security, 440 novos sites de apostas sem registro teriam surgido depois da proibição anunciada pelo governo. A plataforma começou a monitorar endereços irregulares em 1º de setembro e detectou os primeiros em 21 de setembro.

O dado dos 440 sites é um indício de uma das dificuldades que o governo deverá enfrentar: a substituição de endereços bloqueados por novos domínios.

O próprio Ministério da Justiça reconhece essa possibilidade. Ao anunciar a derrubada de 506 sites com indícios de oferta irregular de apostas, em 27 de setembro, a força-tarefa formada pelos ministérios da Justiça e da Fazenda informou que uma das finalidades da operação era impedir que novos endereços fossem utilizados para continuar oferecendo apostas ilegalmente.

Publicidade e redes sociais

A movimentação não está restrita aos sites.

O Laboratório de Operações Cibernéticas, Ciberlab, do Ministério da Justiça, encontrou publicidade relacionada a bets na Meta e no Google depois da entrada em vigor da proibição. Entre sete anúncios identificados na Meta, dois começaram a circular em 25 de setembro. No Google, foram encontrados cerca de 1.960 anúncios associados a sete domínios entre os dias 25 e 27. Nesse caso, não foi possível determinar quantos começaram a circular depois da medida.

O governo também identificou 43 canais e grupos ativos no Telegram relacionados à divulgação de apostas e jogos de cassino on-line, reunindo aproximadamente 212 mil integrantes. Os grupos divulgavam plataformas, "sinais" de apostas e promessas de elevados retornos financeiros.

Em outra frente, o balanço divulgado em 29 de setembro registra pedidos de remoção de 300 páginas do Facebook e 90 perfis do Instagram, além da notificação para retirada de 186 aplicativos.

Os dados sugerem que o combate ao mercado ilegal não se limita ao bloqueio dos sites. A fiscalização precisa acompanhar também publicidade digital, aplicativos, redes sociais, grupos fechados e mecanismos utilizados para levar apostadores até as plataformas.

ANJL alerta para crescimento do mercado clandestino

A Associação Nacional de Jogos e Loterias (ANJL), que representa empresas do setor, utiliza justamente o risco de migração para o mercado clandestino como um dos argumentos contra a proibição.

A ANJL e o Instituto Brasileiro de Jogo Responsável (IBJR) acionaram o Supremo Tribunal Federal em 28 de setembro para tentar suspender os efeitos da MP. As entidades afirmam que a retirada das empresas autorizadas pode levar consumidores para plataformas ilegais, que operam fora das regras de fiscalização e proteção ao apostador.

As entidades também questionam a fundamentação da medida e afirmam que a mudança provoca insegurança jurídica para empresas que receberam autorização do governo e fizeram investimentos para operar no mercado regulado.

A tese defendida pelas associações, entretanto, não pode ser considerada comprovada apenas pelo aparecimento de sites ilegais após a MP. Para demonstrar que a proibição provocou aumento do mercado clandestino seria necessário comparar a velocidade de surgimento de novas plataformas antes e depois da medida.

Governo amplia cerco

A MP 1.394 proibiu a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade de apostas de quota fixa em todo o território nacional, inclusive quando oferecidas por empresas sediadas no exterior.

A medida prevê um período de transição. As plataformas anteriormente autorizadas deixaram de poder receber novas apostas e depósitos, mas os clientes têm até 5 de outubro para retirar os recursos existentes. A partir de 6 de outubro, sites e aplicativos deverão ficar indisponíveis.

Antes mesmo da proibição, o governo já combatia operadores irregulares. Segundo o ministro da Fazenda, Dario Durigan, mais de 60 mil páginas haviam sido banidas desde 2024. A fiscalização utiliza ferramentas para localizar sites e identificar meios de pagamento e o destino dos recursos movimentados.

Por isso, os números registrados nos primeiros dias posteriores à MP ainda não permitem concluir que o mercado clandestino cresceu em consequência da proibição.

Eles revelam, entretanto, um fenômeno que deverá ser acompanhado: se o bloqueio das plataformas será suficiente para reduzir a oferta de apostas ou se operadores ilegais passarão a substituir rapidamente os endereços retirados do ar por novos domínios, aplicativos e canais de divulgação.