
Os programas dos candidatos à Presidência da República em 2026 apresentam caminhos distintos para a economia brasileira e incluem medidas que, em muitos casos, dependeriam da aprovação do Congresso Nacional.
Os documentos também diferem no grau de detalhamento. Alguns especificam reformas, tributos ou regras que pretendem alterar. Outros apresentam objetivos mais gerais, sem estabelecer no próprio programa todos os instrumentos, custos, prazos ou fontes de recursos necessários à execução das medidas.
A análise considera exclusivamente os programas de governo registrados na Justiça Eleitoral. Declarações posteriores em entrevistas, debates, redes sociais ou eventos de campanha não foram incorporadas.
Em setembro, o Tribunal Superior Eleitoral (TSE) criou uma plataforma que organiza os programas presidenciais em oito macrotemas e permite consultar propostas por assunto. As informações foram extraídas dos documentos formalmente apresentados pelas chapas à Justiça Eleitoral.
De privatizações a estatizações
Uma das diferenças mais claras entre os programas está no papel reservado ao Estado na economia.
O programa de Romeu Zema prevê privatização de empresas estatais, reforma administrativa, redução gradual do Imposto de Renda das empresas e nova reforma da Previdência, incluindo estados, municípios e regimes rural e militar.
Outros programas propõem diferentes graus de estatização, nacionalização ou ampliação da participação estatal em determinados setores.
Edmilson Costa propõe nacionalizar e estatizar o sistema monetário, financeiro e bancário. Hertz Dias defende a expropriação de grandes empresas consideradas estratégicas. Rui Costa Pimenta propõe reestatizar empresas privatizadas e criar um banco estatal único. Samara Martins prevê nacionalização dos bancos, estatização do sistema financeiro e planejamento econômico com participação popular.
As propostas implicariam mudanças relevantes no modelo de atuação do Estado. Sua implementação dependeria da natureza de cada medida, podendo exigir alterações legais, decisões administrativas e, em determinados casos, mudanças constitucionais.
Trabalho divide os programas
As relações de trabalho constituem outro ponto de diferenciação.
O programa de Lula propõe acabar com a escala 6x1 e reduzir a jornada para 40 horas semanais. Edmilson Costa defende jornada de 30 horas sem redução salarial. Hertz Dias propõe 36 horas semanais, também com fim da escala 6x1, enquanto Samara Martins defende redução da jornada de trabalho.
Rui Costa Pimenta propõe jornada máxima de 35 horas semanais, restabelecimento integral da CLT, fim da terceirização e proibição de demissões.
Em outra direção, Flávio Bolsonaro propõe reduzir o custo do trabalho e ampliar a prevalência do negociado sobre o legislado. Romeu Zema prevê redução dos encargos incidentes sobre a folha e uma alternativa flexível à CLT. Renan Santos inclui reformas na legislação trabalhista entre suas medidas microeconômicas.
Wilson Grassi propõe extinguir a contribuição patronal sobre a folha de pagamento e desonerar o emprego formal.
Parte dessas mudanças não poderia ser realizada apenas por decisão administrativa do presidente. Alterações na legislação trabalhista dependeriam do Congresso e, quando atingissem normas constitucionais, exigiriam emenda à Constituição.
O que fazer com as contas públicas
Também existem diferenças relevantes na política fiscal.
Flávio Bolsonaro propõe reformular as regras fiscais, buscar equilíbrio das contas e adotar medidas relacionadas à dívida pública. Romeu Zema apresenta ajuste fiscal destinado a estabilizar a relação entre dívida e Produto Interno Bruto.
Ronaldo Caiado propõe controlar despesas obrigatórias, revisar subsídios e benefícios tributários e buscar estabilização fiscal. Renan Santos prevê ajuste fiscal, desindexação de despesas e mudanças nas vinculações de gastos públicos. Augusto Cury estabelece entre seus objetivos aproximar o déficit público de zero e reduzir gradualmente a dívida.
Lula mantém responsabilidade fiscal e arcabouço fiscal entre os elementos de sua proposta econômica, combinados com programas de investimento, infraestrutura e política industrial.
Outros candidatos propõem alterações mais amplas no atual regime fiscal. Edmilson Costa prevê revogar o arcabouço fiscal e a Lei de Responsabilidade Fiscal e reestruturar a dívida. Samara Martins também propõe revogar o arcabouço e suspender o pagamento da dívida para realização de auditoria. Hertz Dias defende suspensão do pagamento e auditoria da dívida pública.
Rui Costa Pimenta propõe cancelar as dívidas pública interna e externa e eliminar restrições ao aumento dos gastos públicos.
Previdência recebe atenção desigual
A Previdência mostra como os temas recebem graus diferentes de atenção nos documentos.
Romeu Zema apresenta explicitamente uma nova reforma previdenciária, incluindo estados, municípios e os regimes rural e militar. Samara Martins propõe revogar a reforma da Previdência. Rui Costa Pimenta prevê reajustes para aposentadorias e pensões.
Na classificação econômica consultada, uma reforma previdenciária específica não aparece com o mesmo destaque nos programas de vários dos demais candidatos.
Essa diferença exige cautela. A ausência de uma proposta específica de reforma no recorte analisado não permite concluir que determinado candidato defenda a manutenção integral das regras atuais. Significa apenas que não foi identificada, na classificação utilizada, uma proposta diretamente comparável.
Indústria também separa projetos
A política industrial apresenta outro contraste entre os programas.
Lula propõe dar continuidade à Nova Indústria Brasil, combinando política industrial, infraestrutura do Novo PAC, crédito e transformação ecológica.
Ronaldo Caiado apresenta agenda de produtividade associada a reindustrialização, transição econômica, infraestrutura e atração de investimentos. Renan Santos propõe Zonas Econômicas Especiais direcionadas, entre outros setores, a terras raras, semicondutores e defesa.
Samara Martins defende reindustrialização nacional e reconstrução de cadeias produtivas completas. Flávio Bolsonaro associa competitividade à abertura comercial, integração às cadeias globais de valor e exploração de minerais críticos.
Nos programas que defendem maior participação estatal, a política industrial aparece associada ao controle público de setores considerados estratégicos. Em propostas que atribuem maior papel ao setor privado, desenvolvimento e produtividade aparecem ligados, entre outros instrumentos, a privatizações, abertura comercial, ambiente de negócios e investimento privado.
Promessa não é medida pronta
Os programas precisam ser examinados também sob o ponto de vista institucional. O presidente da República dispõe de instrumentos administrativos, regulamentares e orçamentários importantes, mas não pode executar unilateralmente todas as propostas apresentadas durante uma campanha.
Mudanças no Imposto de Renda, legislação trabalhista, regras previdenciárias e diversos outros tributos e despesas exigem participação do Congresso. Alterações constitucionais dependem de proposta de emenda à Constituição, cuja aprovação exige três quintos dos votos, em dois turnos, na Câmara e no Senado.
Também é necessário distinguir a apresentação de uma meta da demonstração de seu financiamento.
Propostas de redução de impostos, ampliação de benefícios, aumento de investimentos ou criação de programas podem afetar receitas e despesas públicas. Para estimar o impacto fiscal de cada medida seriam necessários dados como número de beneficiários, cronograma de implementação, valores, compensações e fontes de recursos.
Quando essas informações não constam do programa registrado, não é possível calcular apenas com base no documento o custo da proposta nem seu efeito final sobre as contas públicas.
Isso não significa necessariamente que a candidatura não disponha de estudos ou pretenda apresentar posteriormente mecanismos de financiamento. Significa apenas que essas informações não estão disponíveis no material considerado nesta comparação.
