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Inundação deixa quase 100 mortos na fronteira entre Nepal e Tibete

Centenas de pessoas estão desaparecidas, entre elas mais de 400 turistas

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Uma inundação repentina na fronteira do Nepal com o Tibete deixou ao menos 98 mortos em 26 de agosto de 2026. A Nepal Police contabilizava 95 mortes até 19h14, e autoridades chinesas informavam três em Gyirong. Centenas de pessoas permaneciam desaparecidas ou sem contato, enquanto a causa seguia sob investigação.

Uma inundação repentina que atingiu nesta quarta-feira (26 de agosto), a fronteira do Nepal com a região chinesa do Tibete deixou ao menos 98 mortos.

A Nepal Police havia confirmado 95 mortes até as 19h14, no horário local. No lado tibetano, autoridades chinesas informaram três mortes em Gyirong.

Não há um total único e seguro de desaparecidos nos dois lados da fronteira. O Nepal Tourism Board informou que 403 turistas permaneciam sem localização confirmada, dos quais 341 estrangeiros e 62 nepaleses. Separadamente, autoridades chinesas contabilizavam 265 desaparecidos em Gyirong.

Trabalhadores de projetos hidrelétricos e integrantes das forças de segurança também aparecem em levantamentos próprios, o que impede somar todas as listas sem risco de dupla contagem.

A inundação atingiu o sistema formado pelos rios Lende Khola, Bhote Koshi e Trishuli.

Timure, Rasuwagadhi e Syabrubesi, no distrito nepalês de Rasuwa, estão entre as áreas mais atingidas. Casas, mercados, estradas, pontes, instalações de fronteira e projetos de geração de energia sofreram danos.

Avalanche de gelo e rocha é investigada como possível gatilho

Uma avaliação preliminar do Centro Internacional para o Desenvolvimento Integrado das Montanhas (ICIMOD) indica que uma grande quantidade de gelo e rochas pode ter atingido o Lende Khola, afluente do Bhote Koshi.

Os pesquisadores investigam se os detritos bloquearam temporariamente o rio, formando uma barragem natural cuja liberação repentina teria enviado água, sedimentos e grandes blocos de rocha para jusante.

O ICIMOD também identificou sinais sísmicos incomuns registrados durante o período do desastre. Autoridades nepalesas relataram um terremoto de magnitude 4,4 pouco antes da cheia, o que levantou a hipótese de que o tremor possa ter contribuído para a instabilidade da encosta ou da massa de gelo.

Até agora, porém, não foi estabelecida uma relação causal entre a atividade sísmica, a possível avalanche e a inundação, segundo o ICIMOD. A sequência exata dos fenômenos continua sob investigação.

Bloqueio rio acima mantém risco de nova inundação

O risco na bacia ainda não foi considerado encerrado. Cientistas do ICIMOD informaram que um bloqueio permanecia a montante, na região da fronteira entre Nepal e China, criando a possibilidade de uma nova liberação repentina de água. Autoridades emitiram alertas para comunidades rio abaixo.

O instituto relatou que o nível do rio Trishuli subiu cerca de nove metros em aproximadamente 30 minutos em Galchhi e sete metros em intervalo semelhante em Malekhu, uma indicação da velocidade e da magnitude da onda de inundação. Estações de monitoramento também foram danificadas ou levadas pela correnteza.

Alertas se estenderam a áreas mais ao sul da bacia e aos estados indianos de Bihar e Uttar Pradesh. As autoridades pediram que moradores de áreas baixas e próximas aos rios buscassem locais seguros e permanecessem atentos a novas elevações do nível da água.

Resgate enfrenta estradas destruídas e dificuldade de acesso

Exército, polícia e Armed Police Force foram mobilizados no Nepal para as operações de busca e resgate. Helicópteros militares e privados retiraram mais de 100 pessoas de localidades atingidas, segundo o gabinete do primeiro-ministro.

O acesso a algumas das áreas mais afetadas continua difícil por causa da destruição das estradas, do volume de sedimentos e do nível dos rios. Em determinados pontos, as condições impediram o pouso de helicópteros.

No Tibete, a China mobilizou centenas de integrantes de equipes de emergência para alcançar Gyirong, onde estradas, telecomunicações e fornecimento de energia foram interrompidos. O governo chinês determinou a intensificação das buscas e o reforço do monitoramento para evitar desastres secundários.

Ao menos 19 pontes e 40 quilômetros de estradas foram afetados

Uma avaliação preliminar do Departamento de Estradas do Nepal apontou danos em ao menos 19 pontes e cerca de 40 quilômetros de estradas ao longo do sistema Bhote Koshi-Trishuli. O órgão mobilizou máquinas pesadas para desobstrução e recuperação dos acessos.

A destruição interrompeu ligações terrestres com áreas próximas à fronteira chinesa e dificultou o deslocamento das equipes de emergência.

A infraestrutura de energia também sofreu impacto. O Ministério da Energia informou que cerca de 430 megawatts de fornecimento de eletricidade foram afetados, principalmente por danos a projetos hidrelétricos. 

No projeto hidrelétrico Langtang Khola, de 20 MW e ainda em construção em Syabrubesi, cerca de 60 trabalhadores permaneciam sem contato, segundo o diretor da empresa responsável. Eles trabalhavam em um túnel quando a inundação atingiu a instalação. Esse grupo é contabilizado separadamente dos levantamentos do setor de turismo.

Mais de 400 turistas permanecem sem localização confirmada

A região atingida é corredor de turistas, praticantes de trekking (atividade física e esporte que consiste em caminhar por trilhas de longa duração em meio à natureza, frequentemente envolvendo pernoites em acampamentos ou locais remotos) e peregrinos que seguem em direção ao Monte Kailash e ao lago Manasarovar, no Tibete.

Na atualização mais recente, o Nepal Tourism Board contabilizava 403 turistas sem localização confirmada: 341 estrangeiros e 62 nepaleses. Indianos formavam o maior grupo de estrangeiros dessa lista, que incluía ainda viajantes de Estados Unidos, Austrália, Reino Unido, Canadá, Malásia e outros países.

O levantamento permanece provisório. Interrupções nas telecomunicações podem fazer com que pessoas inicialmente classificadas como sem contato sejam localizadas posteriormente. Por isso, os números não devem ser tratados automaticamente como um total definitivo de desaparecidos.

Região sofreu inundação glacial em 2025

O desastre ocorre pouco mais de um ano depois de outra inundação grave no mesmo corredor.

Em 8 de julho de 2025, uma inundação repentina em Rasuwa foi provocada pela rápida descarga de um lago supraglacial formado sobre a geleira Purepu, no Tibete, segundo relatório da Autoridade Nacional de Redução e Gestão do Risco de Desastres do Nepal (NDRRMA).

O episódio destruiu a Friendship Bridge na passagem de Rasuwagadhi, danificou cerca de 16 quilômetros de estrada e atingiu projetos hidrelétricos. Imagens de satélite permitiram reconstruir a rápida formação e drenagem do lago.

No desastre desta quarta-feira, entretanto, os cientistas ainda não concluíram qual sequência de processos desencadeou a cheia. A repetição de grandes eventos no mesmo corredor reforça a discussão sobre monitoramento da criosfera, sistemas de alerta precoce e compartilhamento de informações entre países de uma mesma bacia.