
A destinação da área onde está localizado o Sítio Arqueológico Cemitério dos Africanos, em Salvador, será discutida em audiência pública nessa quarta-feira (12 de agosto), às 9h, no Centro de Cultura da Câmara Municipal.
O encontro deve reunir pesquisadores, historiadores, representantes do movimento negro, organizações da sociedade civil e autoridades em torno de propostas para preservar o patrimônio e discutir medidas de reconhecimento e reparação histórica à população negra.
O sítio fica no Complexo da Pupileira, no bairro de Nazaré, em terreno pertencente à Santa Casa de Misericórdia da Bahia. Até o avanço das pesquisas arqueológicas, a área onde foram realizadas as escavações era utilizada como estacionamento.
Embora o antigo espaço funerário seja historicamente conhecido como Cemitério do Campo da Pólvora, a área arqueologicamente identificada não corresponde simplesmente à atual Praça do Campo da Pólvora. As pesquisas localizaram os vestígios em uma área da Pupileira historicamente vinculada ao Campo da Pólvora.
O local é apontado por pesquisadores como o primeiro cemitério público de Salvador e, possivelmente, da Bahia. Criado entre o fim do século XVII e o início do século XVIII, teria permanecido em funcionamento durante aproximadamente 150 anos, até 1844.
O cemitério recebeu sobretudo africanos escravizados. Nos primeiros períodos de funcionamento, também eram levadas ao local pessoas que não haviam sido batizadas segundo o rito cristão.
Documentação histórica indica ainda que o espaço recebeu outros grupos marginalizados pela sociedade da época. Levantamento apresentado ao Ministério Público do Estado da Bahia (MPBA) menciona, entre os sepultados, pobres, indigentes, não batizados, excomungados, suicidas, prostitutas, criminosos e insurgentes.
A dimensão histórica e arqueológica do local ganhou novo peso depois que escavações realizadas em 2025 encontraram fragmentos ósseos e dentários humanos no subsolo da Pupileira, confirmando a existência do antigo espaço funerário.
Cemitério atravessa parte da história da escravidão em Salvador
O período de funcionamento atribuído ao Cemitério do Campo da Pólvora atravessa momentos decisivos da história de Salvador, então uma das principais cidades escravistas das Américas.
Pesquisas históricas relacionam o cemitério também a participantes de movimentos de resistência e revoltas ocorridas na Bahia, entre elas a Conjuração Baiana, também chamada de Revolta dos Búzios, de 1798, e a Revolta dos Malês, de 1835.
Em apresentação realizada anteriormente na Câmara Municipal de Salvador, a arquiteta e urbanista Silvana Olivieri afirmou que líderes e participantes dessas revoltas foram enterrados no local.
Livros do Banguê preservam registros de sepultamentos
Uma das principais fontes documentais para compreender a história dos sepultamentos de pessoas escravizadas em Salvador são os chamados Livros do Banguê, preservados pelo Centro de Memória Jorge Calmon, da Santa Casa da Bahia.
A coleção é formada por 11 volumes com registros dos serviços de condução de corpos e sepultamento de pessoas escravizadas realizados pela instituição entre os séculos XVIII e XIX.
Os exemplares preservados começam em 1742. A coleção recebeu, em 2009, o reconhecimento do programa Memória do Mundo, da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco).
“Banguê” era o nome dado ao esquife utilizado para transportar os corpos. A documentação tornou-se uma fonte histórica importante para pesquisadores interessados tanto nas práticas funerárias quanto na população escravizada que viveu e morreu em Salvador.
Segundo informações divulgadas pela Santa Casa, a maior parte das pessoas escravizadas sepultadas pela instituição naquele período foi enterrada no Cemitério do Campo da Pólvora.
Há, porém, um limite que precisa ser considerado na interpretação desses documentos: os Livros do Banguê abrangem também anos posteriores ao encerramento das atividades do cemitério, em 1844. Por isso, os registros da coleção não podem ser automaticamente convertidos em uma contagem de pessoas enterradas especificamente no sítio localizado na Pupileira.
Pesquisa da UFBA ajudou a localizar área desaparecida da paisagem
Com as transformações urbanas ocorridas ao longo de quase dois séculos, a localização precisa do antigo cemitério havia desaparecido da paisagem de Salvador.
A identificação contemporânea da área está associada principalmente à pesquisa desenvolvida pela arquiteta e urbanista Silvana Olivieri no âmbito acadêmico da Universidade Federal da Bahia (UFBA).
O trabalho reuniu mapas e plantas históricas, documentos preservados pela Santa Casa e outras fontes para reconstruir a localização do espaço cemiterial.
Em maio de 2025, antes do início das intervenções arqueológicas, a UFBA informou que a pesquisa havia apontado a existência do antigo cemitério no estacionamento da Pupileira. Posteriormente, a universidade anunciou que as escavações preliminares encontraram remanescentes humanos, confirmando a presença do cemitério na área investigada.
O processo de investigação também passou a envolver órgãos responsáveis pela defesa e preservação do patrimônio.
Em dezembro de 2024, o Núcleo de Defesa do Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural do Ministério Público da Bahia instaurou procedimento administrativo relacionado ao caso.
Posteriormente, um termo de cooperação entre pesquisadores, Santa Casa e Ministério Público possibilitou a investigação arqueológica da área.
As escavações de campo foram realizadas em maio de 2025. Durante as intervenções, arqueólogos encontraram fragmentos ósseos e dentários humanos.
O achado forneceu a confirmação material de que a área investigada havia sido utilizada para sepultamentos.
Informações divulgadas pelo MPBA sobre as intervenções indicaram que os trabalhos ocorreram em uma parcela restrita do terreno. Em uma das áreas investigadas, vestígios humanos foram localizados a cerca de 2,7 metros de profundidade.
A condição dos remanescentes também exigiu cuidados especiais. Segundo o material divulgado pelo Ministério Público, fatores como umidade e características do solo contribuíram para a fragilidade dos vestígios.
Estimativa chega a dezenas de milhares de sepultamentos
A dimensão potencial do Cemitério dos Africanos é um dos pontos que mais chamam atenção na pesquisa.
Estimativas apresentadas por pesquisadores apontam que entre 80 mil e 100 mil pessoas podem ter sido enterradas no espaço durante seu período de funcionamento.
O número, porém, não representa uma contagem arqueológica dos sepultamentos.
As escavações realizadas até agora alcançaram apenas uma pequena parcela da área associada ao antigo cemitério. As estimativas são construídas a partir do cruzamento de documentação histórica, registros funerários, tempo de funcionamento e extensão presumida da área cemiterial.
Em maio de 2025, a UFBA informou que estimativas apresentadas pelos pesquisadores poderiam superar 100 mil sepultamentos ao longo do período de atividade do cemitério.
A diferença entre estimativa histórica e comprovação arqueológica é fundamental para dimensionar corretamente o que se conhece atualmente sobre o sítio.
Também por esse motivo deve ser tratada com cautela a afirmação de que o espaço seria o maior cemitério conhecido de pessoas escravizadas da América Latina.
Pesquisadores e instituições têm apontado esse potencial considerando a longa duração do cemitério e o volume estimado de sepultamentos. Uma conclusão definitiva sobre sua dimensão, contudo, depende de estudos arqueológicos mais abrangentes, delimitação do sítio e consolidação dos dados.
O Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), ao divulgar a instalação da placa de identificação do sítio em janeiro de 2026, afirmou que o local pode ser o maior cemitério de pessoas escravizadas da América Latina, formulação que preserva justamente o caráter ainda não conclusivo dessa comparação.
Estacionamento foi considerado incompatível com preservação
Depois das pesquisas arqueológicas, a discussão passou a envolver não apenas a importância histórica do sítio, mas também o uso contemporâneo do terreno.
O Iphan avaliou o relatório arqueológico e recomendou medidas de proteção.
Em outubro de 2025, o Ministério Público informou que um parecer técnico do instituto havia considerado a manutenção do estacionamento incompatível com a preservação dos vestígios arqueológicos.
A área passou, assim, de um espaço utilizado cotidianamente para estacionamento a um patrimônio arqueológico sujeito a regras específicas de proteção.
Em janeiro de 2026, segundo informações divulgadas pelo Ministério Público e pelo Iphan, o espaço já estava registrado como sítio arqueológico no Cadastro Nacional de Sítios Arqueológicos (CNSA/SGPA).
A proteção dos sítios arqueológicos brasileiros decorre da legislação federal de patrimônio arqueológico. O Iphan informa que intervenções capazes de destruir, retirar materiais ou alterar indevidamente esses bens estão sujeitas às restrições previstas em lei.
Placa marcou reconhecimento público do sítio
Em 26 de janeiro de 2026, uma placa de sinalização foi instalada no local para identificar oficialmente o Sítio Arqueológico Cemitério dos Africanos.
O ato reuniu representantes do Iphan, pesquisadores, integrantes do Ministério Público, lideranças religiosas e representantes da sociedade civil.
Na ocasião, o Iphan informou que a sinalização tinha também a função de comunicar a proteção legal do patrimônio e alertar sobre as restrições a intervenções na área.
O reconhecimento público representou uma nova etapa de um processo iniciado com a pesquisa histórica, seguido pela investigação arqueológica e pela atuação de órgãos de preservação e defesa do patrimônio.
A discussão, porém, não terminou com o reconhecimento do sítio.
O ponto que agora mobiliza pesquisadores e organizações é o destino definitivo da área.
Debate sobre futuro do terreno chegou à Câmara
O Cemitério dos Africanos já havia sido levado ao debate na Câmara Municipal de Salvador em 15 de junho deste ano.
Na ocasião, Silvana Olivieri e a arqueóloga e antropóloga Jeane Dias apresentaram resultados das pesquisas durante a Tribuna Popular.
Segundo registro da própria Câmara, a vereadora Eliete Paraguassu (PSOL), responsável pela articulação da participação das pesquisadoras, anunciou entre as próximas etapas uma audiência pública específica sobre memória, preservação do sítio e reparação à população negra.
Durante a mesma sessão, parlamentares manifestaram apoio à preservação da área. A vereadora Aladilce Souza (PCdoB), por exemplo, defendeu a desapropriação do local para possibilitar a visitação ao sítio arqueológico.
A discussão sobre o futuro do espaço também passou por outras instituições. Em abril de 2026, a Ordem dos Advogados do Brasil na Bahia (OAB-BA) realizou audiência pública sobre o Cemitério dos Africanos e anunciou a sistematização de propostas relacionadas à preservação, memória e reparação histórica.
Audiência discutirá preservação e reparação
A audiência desta quarta-feira deve avançar justamente sobre o que fazer com a área após sua identificação e proteção como patrimônio arqueológico.
Pesquisadores da Arqueólogos Consultoria e Pesquisa Arqueológica, responsável pelos trabalhos de campo que identificaram os vestígios humanos, estão entre os participantes previstos.
A proposta apresentada pelos pesquisadores é que as decisões sobre o espaço sejam construídas coletivamente e considerem não apenas a dimensão arqueológica, mas também o significado histórico, cultural e espiritual atribuído ao local.
Nesse entendimento, preservar o Cemitério dos Africanos significa impedir que a área arqueológica volte a receber um uso incompatível com a existência dos vestígios e, ao mesmo tempo, construir uma forma pública de reconhecimento das pessoas sepultadas ali.
Os defensores da preservação também inserem o debate no campo da reparação histórica.
Para pesquisadores envolvidos no projeto, transformar o sítio em um território de memória é uma maneira de enfrentar o apagamento histórico das pessoas que foram enterradas no local e das condições sociais que levaram determinados grupos a serem destinados a esse espaço funerário.
A discussão ocorre em uma cidade cuja formação econômica, social e cultural foi profundamente marcada pela escravidão e pela presença africana.
Nesse contexto, a descoberta arqueológica acrescenta uma dimensão material a uma história conhecida por documentos: sob uma área que durante anos funcionou como estacionamento permanecem vestígios humanos de pessoas sepultadas há séculos.
