Esportes

Lambanças da Fifa fazem crescer desconfiança na Copa do Mundo

Entenda os principais pontos de desconfiança entre os torcedores

A Federação Egípcia de Futebol apresentou queixa formal à Fifa após a derrota por 3 a 2 para a Argentin
A Uefa criticou a Fifa por suspender a punição automática de Folarin Balogun, atacante dos Estados Unidos, após cartão vermelho
A cobrança vai além do campo e envolve formato ampliado e pausas de hidratação

A Fifa voltou ao centro das críticas durante a Copa do Mundo de 2026, disputada nos Estados Unidos, no México e no Canadá.

A pressão aumentou após reclamações sobre arbitragem, questionamentos a decisões disciplinares e críticas ao peso comercial e político da entidade no futebol mundial.

Os episódios recentes não provam manipulação de resultados. O que está em discussão é a confiança no processo: seleções, torcedores, dirigentes e entidades cobram que a Fifa explique melhor suas decisões, aplique regras de forma uniforme e dê respostas mais claras em temas sensíveis.

Queixa do Egito

A Federação Egípcia de Futebol apresentou uma reclamação formal à Fifa depois da derrota por 3 a 2 para a Argentina nas oitavas de final da Copa de 2026.

A entidade criticou a atuação do árbitro François Letexier e da equipe de vídeo, citando lances revisados pelo VAR e decisões que, segundo os egípcios, influenciaram o resultado.

A reclamação está em análise e, até agora, não há prova pública de direcionamento deliberado do resultado. Ainda assim, o episódio ganhou peso porque ocorreu em jogo eliminatório. Em uma fase de mata-mata, uma decisão de arbitragem pode encerrar a campanha de uma seleção.

O caso também expõe uma cobrança recorrente: a Fifa precisa explicar melhor decisões de campo e de vídeo, especialmente quando há dúvida pública sobre a consistência dos critérios.

Caso Balogun 

A pressão aumentou com a decisão da Fifa de suspender a punição automática de Folarin Balogun, atacante dos Estados Unidos, após um cartão vermelho. A Uefa classificou a medida como “incompreensível e injustificável” e afirmou que a decisão ameaça a credibilidade das regras disciplinares.

O episódio ficou mais sensível porque o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, disse ter pedido a revisão do caso ao presidente da Fifa, Gianni Infantino. Segundo a Sky Sports, Infantino afirmou que o processo foi independente.

A controvérsia não se resume ao lance. A dúvida central é institucional: quando uma punição automática pode ser suspensa? Quais critérios são usados? E esses critérios valem da mesma forma para todas as seleções?

A Copa de 2026 é a primeira com 48 seleções e 104 partidas. O novo modelo inclui 12 grupos de quatro equipes e uma fase de 32 avos de final, ampliando o número de jogos em relação ao formato anterior.

A ampliação abriu espaço para mais países e aumentou a representatividade do torneio. Ao mesmo tempo, tornou a competição mais longa e complexa.

A classificação de melhores terceiros colocados cria comparações entre seleções de grupos diferentes, o que pode gerar discussões sobre equilíbrio competitivo.

Pausas de hidratação entram no debate comercial

A Fifa adotou pausas obrigatórias de três minutos em cada tempo nos jogos da Copa de 2026. A justificativa oficial é proteger os atletas diante de condições de calor e desgaste nas sedes do torneio.

A medida, porém, também virou alvo de críticas. Jogadores e treinadores ficaram divididos, e críticos afirmaram que as paradas podem favorecer intervalos comerciais nas transmissões.

Esse tipo de debate reforça uma cobrança sobre a Fifa: quando uma decisão tem impacto esportivo e comercial, a entidade precisa explicar com clareza qual critério prevaleceu.

A própria Fifa informa que a Copa do Mundo é o principal evento de seu ciclo financeiro de quatro anos. A entidade diz que suas receitas vêm de direitos de transmissão, marketing, licenciamento, hospitalidade e bilheteria. No ciclo 2019-2022, a receita total foi de US$ 7,568 bilhões.

Esse peso econômico não comprova interferência esportiva. Mas amplia a obrigação de transparência. Quanto maior o valor comercial envolvido, maior a necessidade de explicar decisões, publicar critérios e demonstrar independência em processos disciplinares, escolhas de sedes e políticas do torneio.

Direitos humanos seguem como ponto sensível

As críticas à Fifa não se limitam à Copa de 2026. Em dezembro de 2024, a entidade confirmou Marrocos, Portugal e Espanha como sedes da Copa de 2030, com jogos comemorativos na Argentina, no Paraguai e no Uruguai. No mesmo processo, a Arábia Saudita foi escolhida para sediar a Copa de 2034.

Organizações de direitos humanos criticaram a escolha saudita. A Human Rights Watch afirmou, em declaração conjunta com outras entidades, que a decisão expõe riscos para trabalhadores migrantes, moradores e torcedores.

A Anistia Internacional também criticou o processo e pediu garantias mais robustas para trabalhadores, atletas, torcedores, jornalistas e grupos vulneráveis.

Legado do Catar ainda pesa

A Copa do Catar, em 2022, continua sendo referência nas críticas à Fifa. Um ano após o torneio, a Anistia Internacional afirmou que trabalhadores migrantes ainda enfrentavam dificuldades para obter reparação por abusos ligados à preparação do Mundial.

Esse histórico mantém a pressão sobre a entidade. Quando novas sedes são aprovadas sob críticas parecidas, a pergunta volta: o que mudou nas garantias de direitos humanos desde o Catar?

A Fifa costuma destacar mecanismos de governança, relatórios financeiros e canais de denúncia. Para entidades críticas, porém, o ponto central é a eficácia desses mecanismos, a independência das apurações e a capacidade de gerar reparações concretas.

Racismo e ataques online pressionam a organização

A segurança dos atletas também se tornou ponto de cobrança. A Fifpro (Federação Internacional de Associações de Futebolistas Profissionais, sindicato global que representa mais de 70 mil jogadores e jogadoras de futebol) alertou para o aumento de abusos racistas e discriminatórios contra jogadores durante a Copa de 2026, tanto online quanto presencialmente.

A Fifa informou que seu serviço de proteção em redes sociais identificou aumento de 13 vezes no volume de abuso online durante a fase de grupos em comparação com a Copa de 2022. Segundo a entidade, 11% dos conteúdos abusivos tinham motivação racial.

O tema afeta diretamente a confiança no torneio. A Copa é uma competição esportiva, mas também é um ambiente de trabalho para atletas, técnicos, árbitros e profissionais de apoio.

Quando ataques se tornam recorrentes, cresce a cobrança por prevenção, punição e cooperação com plataformas digitais e autoridades.