O valor é o maior da série iniciada em 2004, já corrigida pela inflação
Juros altos, inflação, crédito de curto prazo e pressão sobre o orçamento doméstico explicam o aumento
Outro motivo é o avanço de gastos com apostas esportivasO volume de crédito de pessoas físicas em atraso há mais de 90 dias chegou a R$ 247,6 bilhões na média dos quatro primeiros meses de 2026, segundo levantamento da Federação do Comércio de Bens, Serviços e Turismo do Estado de São Paulo, feito com base em dados do Banco Central.
De acordo com a FecomercioSP, é o maior valor da série histórica iniciada em 2004, considerando os dados corrigidos pela inflação. O montante representa alta de aproximadamente 50% em relação ao mesmo período de 2025, quando o saldo era de R$ 164,3 bilhões.
O levantamento considera operações de crédito contratadas por pessoas físicas no Sistema Financeiro Nacional. Entram nessa conta modalidades como empréstimo pessoal, cartão de crédito, cheque especial, crédito consignado, financiamento imobiliário e outras linhas livres ou direcionadas.
O Banco Central também registrou piora nos indicadores nacionais de crédito em abril de 2026. A inadimplência da carteira total do sistema financeiro chegou a 4,4%, enquanto, no crédito a pessoas físicas, ficou em 5,4%. No crédito livre para pessoas físicas, a taxa média de juros atingiu 63% ao ano.
Por que os atrasos aumentaram
A FecomercioSP aponta uma combinação de fatores para a alta dos atrasos. O primeiro é o custo do crédito. Com juros elevados, uma parcela maior da renda das famílias tende a ser direcionada ao pagamento de encargos financeiros, o que reduz a capacidade de quitar outras despesas.
A inflação também pressiona o orçamento doméstico. Em levantamento sobre a capital paulista, a FecomercioSP afirmou que famílias seguem recorrendo ao crédito para manter o padrão de consumo em um cenário de preços pressionados. Em maio de 2026, 74,2% das famílias paulistanas estavam endividadas, o maior nível em quase quatro anos.
A entidade também cita o avanço de gastos com apostas esportivas como um fator adicional de pressão sobre parte dos orçamentos familiares. A relação, porém, deve ser tratada como avaliação da entidade, não como causa única ou comprovada do aumento da inadimplência.
Entre os estados, Tocantins teve a maior alta, com avanço de 105% em relação ao mesmo período de 2025. Depois aparecem Rio Grande do Sul, Maranhão, Mato Grosso e Goiás.
Na outra ponta, Distrito Federal, Rio de Janeiro e Rio Grande do Norte tiveram crescimento abaixo da média nacional.
São Paulo respondeu por 22,2% de todo o crédito em atraso no país, segundo o levantamento. Apesar da maior participação no total nacional, o estado teve alta de 36,8%, abaixo da média brasileira.

Os cinco estados com maior peso no volume atrasado concentraram 52,6% do total nacional. Além de São Paulo, aparecem Minas Gerais, Goiás, Rio Grande do Sul e Rio de Janeiro.
Dívidas vencidas crescem mais que a oferta de crédito
O avanço da inadimplência não foi explicado apenas pela expansão da concessão de crédito. Nos dez estados com maiores volumes de compromissos atrasados, o crédito concedido cresceu entre 3% e 13% entre o primeiro quadrimestre de 2025 e o mesmo período de 2026.
No mesmo intervalo, a proporção de dívidas não pagas avançou entre 43% e 87%. Para a FecomercioSP, esse descompasso indica deterioração da capacidade de pagamento das famílias.
Em Tocantins, Mato Grosso do Sul, Rondônia e Rio Grande do Sul, a relação entre crédito em atraso e volume total de crédito atingiu o maior patamar da série histórica, segundo o levantamento.
A FecomercioSP observa que parte dos estados com maiores altas tem maior dependência da agropecuária. Quando a renda ligada ao campo perde força, o efeito pode se espalhar pelo comércio, pelos serviços e pelo orçamento das famílias.
Esse ponto precisa ser tratado como análise econômica da entidade. Para reforçar a conclusão, a matéria deve incluir dados adicionais sobre renda agropecuária, safra, preços agrícolas ou mercado de trabalho nos estados citados.
Renegociação ajuda, mas não resolve
Para a FecomercioSP, programas de renegociação de dívidas podem aliviar a situação de consumidores com alguma capacidade de pagamento, mas não resolvem a origem do problema. A entidade defende que a queda sustentável da inadimplência depende de juros menores, renda mais estável e melhora das condições fiscais.
Em material sobre endividamento na capital paulista, a Federação também defendeu redução dos juros cobrados ao consumidor, educação financeira e políticas que sustentem a renda.
Metodologia
O levantamento considera crédito de pessoas físicas em atraso há mais de 90 dias. A base inclui crédito livre, como cartão, cheque especial, crédito pessoal e consignado, e crédito direcionado, como financiamento imobiliário.
Segundo a metodologia informada no texto-base, os valores foram atualizados pela inflação medida pelo IPCA, e o total nacional corresponde à soma das 27 unidades da Federação. O período analisado considera a média dos meses de janeiro a abril de cada ano, entre 2004 e 2026.
