Política

Jaques Wagner diz que PF fez uma 'patacoada' ao expor foto de dólares

Senador reclamou a Lula de ação da PF no caso Master

Wagner nega relação comercial com Augusto Lima e Banco Master
Segundo o senador, Lula telefonou para prestar solidariedade
A entrevista, assinada pela jornalista Catia Seabra, foi publicada nesta sexta-feira (26 de junho)

O senador Jaques Wagner (PT-BA) afirmou, em entrevista à Folha de S.Paulo, que reclamou ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) da atuação da Polícia Federal na operação ligada ao caso Banco Master.

Ex-líder do governo no Senado, Wagner criticou a divulgação de uma foto com cédulas de moeda estrangeira apreendidas no apartamento onde vive em Brasília e negou ter recebido vantagens indevidas.

A Polícia Federal deflagrou, em 18 de junho, a 9ª fase da Operação Compliance Zero, autorizada pelo Supremo Tribunal Federal, para apurar suspeitas envolvendo irregularidades no sistema financeiro nacional. Foram cumpridos 18 mandados de busca e apreensão na Bahia, em São Paulo e no Distrito Federal.

Wagner deixou a liderança do governo no Senado um dia antes da entrevista. À Folha, disse que resistia inicialmente à ideia de se afastar para evitar que a decisão fosse interpretada como admissão de culpa.

Segundo o senador, Lula telefonou no dia da operação para prestar solidariedade e perguntar se sua permanência na liderança seria adequada. Depois, em conversa pessoal, o presidente teria ponderado que Wagner precisaria desmontar uma narrativa política e, ao mesmo tempo, cuidar da própria defesa.

O petista afirmou que, diante desse cenário, decidiu deixar o cargo.

Crítica à atuação da Polícia Federal

Na entrevista à Folha de S. Paulo Wagner disse que a Polícia Federal desrespeitou a orientação do ministro André Mendonça, do STF, que, segundo ele, havia determinado que a busca e apreensão fosse conduzida de forma discreta em razão do sigilo da investigação.

O senador criticou a imagem de dinheiro em espécie colocada sobre uma cama com identificação da PF. Ele comparou o procedimento a práticas associadas à Lava Jato e afirmou que não pede proteção, mas correção na condução da investigação.

Segundo Wagner, os valores em dólares e euros apreendidos teriam origem em diárias recebidas em viagens oficiais, inclusive pelo Senado, e em compras feitas no Banco do Brasil ao longo de oito a dez anos. Ele negou ter recebido moeda estrangeira de terceiros.

Relação com Augusto Lima e Banco Master

Wagner negou ter relação comercial com Augusto Lima ou com o Banco Master. Ele afirmou ter conhecido Lima durante o processo de privatização da Cesta do Povo, em 2018, e disse que a relação criada a partir dali não envolveu negócios pessoais.

O senador também contestou a versão de que o caso teria começado na Bahia. Segundo ele, quando a Cesta do Povo foi privatizada, o cartão de compras do programa foi incluído na operação, mas Daniel Vorcaro e o Banco Master ainda não participavam do processo. Wagner afirmou que o banco só teria se tornado sócio de Augusto Lima em 2019.

O petista disse ainda que é comum governadores e prefeitos manterem contato com empresários em busca de investimentos. Ele citou obras e projetos na Bahia, como o metrô e a Via Expressa, e classificou como indevida a tentativa de criminalizar relações institucionais.

Empresa da nora e repasses investigados

A Polícia Federal aponta repasses de R$ 3,5 milhões a uma empresa da qual a nora de Wagner é sócia. O senador disse que o valor correspondeu ao pagamento pelo rompimento de contrato com o Banco Master e afirmou que a operação está formalizada na contabilidade da empresa.

Wagner declarou, na entrevista, que o total pago teria sido maior do que os R$ 3,5 milhões divulgados porque a empresa recebia pagamentos mensais antes da rescisão. Ele afirmou ter se surpreendido com o montante, mas defendeu que havia contrato e origem legal para os valores.

Ponto de checagem: é recomendável consultar documentos da investigação, contratos e manifestações da empresa citada antes de afirmar a natureza dos repasses como fato definitivo.

Apartamento e suspeita de favorecimento

Wagner também comentou a negociação de um apartamento em um prédio em construção. Ele disse que pretendia dar o imóvel à filha, mas afirmou que a unidade não está em seu nome e que nada foi doado a ele.

Segundo o senador, a filha teria de vender o próprio apartamento para ajudar no pagamento e financiar parte do valor. Ele argumentou que, se houvesse intenção ilícita, não faria sentido reservar um imóvel ainda em construção.

A Agência Brasil informou que a apuração da PF apontou suspeita de recebimento de vantagens envolvendo um apartamento avaliado em R$ 2,45 milhões; Wagner nega irregularidades.

Ingressos, viagens e caronas

A PF também menciona viagens e ingressos avaliados em R$ 66 mil como possível indicativo de favorecimento. Wagner disse que se tratava de dois ingressos para um show de Taylor Swift nos Estados Unidos, destinados à neta, que, segundo ele, mora no país há oito anos com os pais.

O senador negou ter ido à Ilha da Paixão, propriedade de Augusto Lima, e rejeitou a afirmação de que o empresário teria colocado um avião à disposição dele e de familiares.

Wagner admitiu, à jornalista da Folha de S.Paulo porém, ter pegado caronas em voos de empresários em algumas ocasiões, como entre Brasília e Salvador. Ele negou que essas viagens tivessem relação de troca.

Encontro entre Lewandowski e Daniel Vorcaro

Wagner também relatou ter apresentado o ministro Ricardo Lewandowski a Daniel Vorcaro. Segundo o senador, Augusto Lima perguntou se ele teria indicação para a área jurídica do banco, e Wagner sugeriu o nome de Lewandowski, que havia deixado o STF.

O encontro, segundo o petista, ocorreu no apartamento de Vorcaro em São Paulo. Wagner disse que acompanhou Lewandowski, participou de um jantar e deixou o local antes de eventual negociação entre as partes.

Disputa política em torno do caso

Wagner afirmou que a narrativa sobre o caso coincide com o discurso de adversários políticos, especialmente do PL e de Flávio Bolsonaro, de que o escândalo teria começado na Bahia.

O senador rebateu essa versão e disse que a consolidação do Banco Master ocorreu durante o governo Jair Bolsonaro, com atuação do Banco Central então comandado por Roberto Campos Neto.

Questionado sobre eventual impacto do caso sobre Lula, Wagner disse que o alvo é ele, não o presidente. Também negou a existência de pacto com ACM Neto para que o Banco Master fique fora da campanha. Segundo o senador, ACM Neto tratou o caso como assunto da Justiça.

Privatização da Cesta do Povo

Wagner disse ter conhecido Augusto Lima na negociação relacionada ao Credcesta e à privatização da Cesta do Povo. Segundo ele, o negócio ocorreu após dois leilões frustrados na Bolsa de São Paulo e tirou do governo baiano o que classificou como um problema administrativo.

O senador afirmou que não houve investimento de dinheiro público da Bahia no Banco Master. Ele comparou a situação a recursos ligados ao Rio de Janeiro e ao BRB e disse que, até o momento, a PF não encontrou relação da Bahia com o escândalo.