Saúde

Saúde mental de trabalhadores em jornadas longas piora no São João

Veja quais riscos exigem prevenção de empresas e organizadores

A rotina dos bastidores das festas juninas pode envolver jornadas prolongadas, pressão por prazos e maior demanda operacional
Estresse, fadiga e insegurança no trabalho podem reduzir a atenção, aumentar conflitos e elevar o risco de falhas
Alta demanda em eventos de junho pode ampliar estresse, fadiga e insegurança entre temporários, terceirizados e informais

O aumento da demanda durante as festas juninas exige atenção não apenas à segurança física, mas também à saúde mental dos trabalhadores que atuam na montagem de estruturas, alimentação, comércio, logística, transporte, limpeza, atendimento ao público e operação dos eventos.

O alerta é maior para profissionais temporários, terceirizados e informais, que podem enfrentar jornadas longas, prazos apertados, pressão por resultado e menor previsibilidade sobre renda e continuidade do trabalho. Essa combinação amplia os chamados riscos psicossociais, ligados à forma como o trabalho é organizado, distribuído e supervisionado.

Foto: Arquivo pessoal

A médica Ana Paula Teixeira

Segundo a médica do trabalho e especialista em Saúde e Bem-estar Ana Paula Teixeira, o cansaço e o estresse podem afetar tanto o bem-estar quanto a segurança operacional.

“O estresse excessivo e o cansaço reduzem a capacidade de atenção e aumentam a probabilidade de erros. Em atividades que envolvem montagem de estruturas, eletricidade ou trabalho em altura, isso pode resultar em acidentes graves”, afirma.

Por que a NR-1 entra nessa discussão

O tema ganhou mais relevância com a atualização da Norma Regulamentadora nº 1, que trata das disposições gerais e do Gerenciamento de Riscos Ocupacionais. Segundo o MTE, a versão em vigor desde 26 de maio de 2026 inclui expressamente os fatores de risco psicossociais no GRO, ao lado de riscos físicos, químicos, biológicos, ergonômicos e de acidentes.

Em maio de 2026, o Ministério também publicou um material de perguntas e respostas sobre o capítulo 1.5 da NR-1, com orientações para empresas, trabalhadores e profissionais de Segurança e Saúde no Trabalho.

O documento destaca a identificação e avaliação de fatores psicossociais relacionados ao trabalho, mas informa que as respostas têm caráter orientativo e não substituem a legislação vigente.

Na prática, isso significa que saúde mental no trabalho não deve ser tratada apenas como uma questão individual. Metas inviáveis, excesso de carga, falhas de comunicação, assédio, falta de apoio da liderança e ausência de pausas são exemplos de situações organizacionais que podem afetar a saúde dos trabalhadores.

Quais trabalhadores podem ficar mais expostos

A atenção deve ser redobrada em funções com alta pressão, risco físico ou contato direto com o público. Entre elas estão:

-- Montagem e desmontagem de estruturas
-- Trabalho com eletricidade, som, iluminação e equipamentos
-- Operação de cozinha e serviços de alimentação
-- Transporte, carga e descarga
-- Segurança, limpeza e atendimento
-- Comércio ambulante e atividades informais

O risco aumenta quando há improviso, falta de orientação, escalas mal planejadas, comunicação confusa ou ausência de canais para relatar problemas.

O que empresas e organizadores devem fazer

Para Ana Paula Teixeira, a gestão dos riscos psicossociais deve fazer parte do planejamento dos eventos, independentemente do tipo de vínculo de trabalho.

“Os impactos do estresse e da sobrecarga atingem todos os trabalhadores. A promoção de ambientes seguros passa também pelo cuidado com aspectos emocionais, organizacionais e relacionais do trabalho”, afirma.

Entre as medidas recomendadas estão:
-- Planejar escalas antes do início do evento
-- Garantir pausas para descanso, alimentação e hidratação
-- Orientar equipes temporárias sobre regras, riscos e canais de apoio
-- Evitar metas incompatíveis com a equipe disponível
-- Capacitar lideranças para reconhecer sinais de sobrecarga
-- Incluir saúde mental e riscos psicossociais nos diálogos de segurança
-- Registrar riscos e medidas de prevenção no planejamento ocupacional aplicável.

O MTE informa que a identificação de riscos psicossociais pode envolver diferentes metodologias, como observação das atividades, entrevistas e abordagens participativas, desde que sejam tecnicamente adequadas à realidade da organização.

Fique alerta
O que observar antes e durante o evento


Antes da festa: verificar escalas, treinamento, comunicação entre equipes, pontos de descanso e responsáveis por cada área.

Durante a operação: monitorar sinais de exaustão, conflitos, falhas repetidas, excesso de horas e ausência de pausas.

Depois do evento: avaliar ocorrências, ouvir trabalhadores e corrigir problemas para as próximas etapas de montagem, desmontagem ou novas festas.

Valorização de quem faz a festa acontecer

As festas juninas movimentam a economia, preservam tradições culturais e atraem grande público em várias regiões do país. Mas a segurança dos eventos depende também das condições oferecidas a quem trabalha antes, durante e depois das celebrações.

Para Ana Paula Teixeira, valorizar esses profissionais é parte essencial da festa.

“As festas juninas representam tradição, cultura e desenvolvimento econômico. Mas é fundamental que esse cenário também seja marcado pelo respeito à saúde, à segurança e à dignidade dos trabalhadores que tornam esses eventos possíveis”, conclui.