Nordeste

Homicídios de jovens no Nordeste ficam 77,8% acima da média do País

A região tem o menor rendimento médio do País e maior taxa de analfabetismo

O Nordeste permanecia em 2025 com os resultados mais desfavoráveis entre as cinco grandes regiões em alguns dos principais indicadores de renda analisados pelo Relatório do Observatório Brasileiro das Desigualdades 2026.

Na região, 41,7% da população viviam em domicílios com renda per capita (por pessoa) de até meio salário mínimo, ante 24,7% no Brasil, e o rendimento médio mensal real de todas as fontes era de R$ 2.287, o menor do país.

A desigualdade também aparece nos dados de violência referentes a 2024. A taxa de homicídios entre jovens de 15 a 29 anos chegou a 74,5 mortes por 100 mil habitantes no Nordeste, contra 41,9 por 100 mil no Brasil. A taxa regional era, portanto, aproximadamente 78% superior à média nacional.

O quadro não representa, porém, uma deterioração generalizada. Alguns indicadores melhoraram em relação ao ano anterior, como o analfabetismo e a diferença de renda entre o 1% mais rico e os 50% mais pobres. Os dados mostram sobretudo a persistência de grandes distâncias entre o Nordeste e as regiões com resultados mais favoráveis.

Homicídios de jovens chegam a 74,5 por 100 mil no Nordeste

A violência contra jovens apresenta um dos maiores contrastes regionais do levantamento.

Em 2024, a taxa de homicídios registrados entre pessoas de 15 a 29 anos chegou a 74,5 mortes por 100 mil habitantes no Nordeste. No Brasil, eram 41,9 por 100 mil.

A taxa nordestina era aproximadamente 78% superior à nacional.

Em comparação com o Sudeste, onde a taxa era de 23,5 por 100 mil, o indicador do Nordeste era cerca de 3,2 vezes maior. No Norte, eram 49,7 homicídios por 100 mil jovens, e no Sul, 27.

Bahia registra taxa de 10,7 mortes por intervenção policial

A Bahia aparece entre os estados destacados pelo relatório no indicador de mortes decorrentes de intervenção policial.

Em 2024, a taxa no estado chegou a 10,7 mortes por 100 mil habitantes.

O documento apresenta como referência uma média nacional de aproximadamente três mortes por 100 mil habitantes no período de 2022 a 2024. Como os recortes temporais são diferentes, os dois números não formam uma comparação direta.

Ainda assim, o relatório aponta que Norte e Nordeste concentram boa parte das unidades da Federação com as maiores taxas de letalidade policial.

Renda baixa atinge mais de quatro em cada dez moradores

Em 2025, 15,5% da população nordestina vivia em domicílios com renda per capita de até um quarto do salário mínimo. A proporção nacional era de 7,9%.

O Nordeste apresentava o maior percentual entre as regiões, seguido pelo Norte, com 12,4%. A proporção nordestina era quase o dobro da média brasileira.

Quando o corte sobe para renda domiciliar per capita de até meio salário mínimo, 41,7% dos moradores do Nordeste estavam nessa faixa, ante 24,7% no conjunto do país. Isso significa que mais de quatro em cada dez habitantes da região viviam em domicílios enquadrados nesse limite de renda.

O rendimento médio mensal real de todas as fontes também era o menor entre as regiões. No Nordeste, chegava a R$ 2.287 em 2025, equivalente a aproximadamente 68% da média brasileira, de R$ 3.376.

No Centro-Oeste, o rendimento médio era de R$ 4.063; no Sul, de R$ 3.870; e no Sudeste, de R$ 3.866.

Desigualdade entre os extremos da renda diminuiu

O rendimento médio domiciliar per capita do 1% mais rico no Nordeste equivalia, em 2025, a 30 vezes o rendimento dos 50% mais pobres.

A razão havia sido de 31,6 vezes em 2024. O resultado indica que a distância continuava elevada, mas diminuiu nesse indicador em relação ao ano anterior.

Por isso, o dado não deve ser interpretado como evidência de agravamento recente da desigualdade entre esses dois grupos.

Nordeste mantém maior taxa de analfabetismo

A taxa de analfabetismo entre pessoas de 15 anos ou mais era de 10,6% no Nordeste em 2025, contra 4,9% no Brasil.

O índice regional era mais de quatro vezes o do Sudeste, de 2,3%, e também muito superior ao do Sul, de 2,4%.

Apesar da diferença, houve melhora em relação ao ano anterior: a taxa nordestina caiu de 11,1% em 2024 para 10,6% em 2025.

O acesso ao ensino superior também permanecia abaixo da média nacional. A taxa líquida de escolarização nesse nível era de 19,7% no Nordeste, a menor entre as cinco regiões. No Brasil, chegava a 23,7%.

Os percentuais eram de 21% no Norte, 25,4% no Sudeste, 26,8% no Sul e 27,7% no Centro-Oeste.

O relatório também apresenta desigualdades raciais e de gênero no cenário nacional. Entre jovens negros, a taxa líquida de escolarização no ensino superior era de 14,6%, enquanto entre mulheres jovens não negras chegava a 36%.

Esse recorte é nacional e não deve ser interpretado como indicador específico do Nordeste.

Mortalidade infantil e materna ficam acima das médias nacionais

Em 2024, o Nordeste registrou 13,8 mortes de crianças menores de um ano para cada mil nascidos vivos. No Brasil, a taxa era de 12,6 por mil.

No Sudeste, eram 11,7 mortes por mil nascidos vivos e, no Sul, 10,4. A taxa nordestina era cerca de 33% superior à registrada no Sul.

Segundo o relatório, Norte e Nordeste apresentaram as maiores taxas de mortalidade infantil e permaneceram acima da média brasileira durante o período analisado.

Na mortalidade materna, o Nordeste registrou 58,9 mortes por 100 mil nascidos vivos em 2024, também acima da média brasileira, de 55,5.

A maior taxa regional era a do Norte, com 67 mortes por 100 mil nascidos vivos. Na sequência apareciam Nordeste, com 58,9; Centro-Oeste, com 58,5; Sul, com 53,1; e Sudeste, com 49,8.

Dentro do Nordeste, os resultados também variavam. O Piauí registrou 88,2 mortes maternas por 100 mil nascidos vivos, e o Maranhão, 71,6. Pernambuco tinha taxa de 45,1.

Nordeste tem segunda maior proporção de gravidez na adolescência

Em 2024, 13,7% dos nascidos vivos no Nordeste eram filhos de mães com até 19 anos. A região ficava atrás apenas do Norte, onde a proporção era de 18,5%.

No Sudeste, o percentual era de 8,8%, e no Sul, de 8,3%.

No Maranhão, 19% dos nascidos vivos eram filhos de mães adolescentes. Segundo os dados apresentados no material, o estado ficava atrás apenas de Acre e Amazonas.

Quatro em cada dez mortes de pessoas de 5 a 74 anos são classificadas como evitáveis

Em 2024, 40,8% das mortes de pessoas de 5 a 74 anos no Nordeste foram classificadas como evitáveis pelo indicador utilizado no relatório. A média brasileira era de 39,2%.

O percentual nordestino ficava abaixo do Norte, com 44,8%, e do Centro-Oeste, com 43,8%, mas acima do Sul, com 38,6%, e do Sudeste, com 36,9%.

Isso significa que aproximadamente quatro em cada dez mortes registradas nessa faixa etária no Nordeste foram enquadradas na categoria de mortes evitáveis segundo os critérios adotados pelo indicador.

Habitação precária responde por 31,3% da composição do déficit habitacional

No Nordeste, 50,5% da composição do déficit habitacional era atribuída ao ônus excessivo com aluguel, enquanto 31,3% correspondia à habitação precária.

Esses percentuais se referem à composição do déficit habitacional, e não à parcela de todas as moradias nordestinas que se encontra nessas condições.

O relatório relaciona o peso da habitação precária no déficit às dificuldades de acesso à moradia nas regiões Norte e Nordeste.

Também há diferença relacionada ao gênero dos responsáveis pelos domicílios. Entre as moradias nordestinas classificadas em situação de déficit habitacional, 62,6% tinham mulheres como responsáveis.

Indicadores avançam, mas desigualdades regionais persistem

Os resultados mostram um Nordeste que melhorou em alguns indicadores, mas continuava distante das regiões com resultados sociais e econômicos mais favoráveis.

Entre 2024 e 2025, o analfabetismo caiu e diminuiu a razão entre o rendimento do 1% mais rico e o dos 50% mais pobres. Ainda assim, em 2025, o Nordeste mantinha, entre as cinco regiões, a maior proporção de moradores nas duas faixas de baixa renda analisadas, o menor rendimento médio mensal e a maior taxa de analfabetismo.

Segundo o sumário executivo do relatório, Norte e Nordeste concentram percentuais elevados de pobreza, homicídios de jovens, insegurança alimentar e analfabetismo e apresentam resultados desfavoráveis em indicadores como mortalidade infantil, gravidez na adolescência e acesso à creche.

O levantamento retrata, portanto, menos uma piora uniforme e mais a persistência das desigualdades regionais. Mesmo onde houve avanço recente, a distância entre o Nordeste e as regiões com os melhores resultados permaneceu elevada.

Como o levantamento foi feito - Como os indicadores da reportagem tratam de renda, educação, saúde, violência e habitação e têm anos de referência diferentes, explicitar essas fontes permitirá ao leitor distinguir dados produzidos por bases distintas e avaliar corretamente as comparações.