
O Brasil chegou a 1.954 cervejarias registradas em 2025, o maior número da série histórica, mas com expansão quase estagnada: alta de apenas 0,3% em relação ao ano anterior, segundo o Anuário da Cerveja 2026, do Ministério da Agricultura e Pecuária (Mapa), com ano de referência 2025.
O setor também apresentou sinais mistos. O número de produtos registrados voltou a crescer, as exportações bateram recorde em valor e a balança comercial teve o maior superávit da série. Ao mesmo tempo, houve queda na produção declarada, redução de empregos diretos e aumento dos cancelamentos ou vencimentos de registros de cervejarias.
A marca de 1.954 cervejarias confirma a expansão acumulada do setor nas últimas décadas. Desde 2000, quando havia 40 estabelecimentos registrados, o crescimento acumulado informado pelo anuário chega a 4.785%. Mas o ritmo de 2025 foi o menor de toda a série histórica, com apenas cinco cervejarias a mais do que em 2024.
O dado sugere uma mudança de fase. O mercado continua grande e nacionalmente espalhado, mas já não cresce com a intensidade observada no período de maior aceleração, especialmente entre 2016 e 2019. Em 2016, o aumento relativo foi de 48,5%. Em 2019, houve o maior avanço absoluto, com 320 estabelecimentos a mais.

São Paulo lidera, mas Sudeste concentra quase metade do setor
São Paulo segue como o estado com mais cervejarias registradas: 452 estabelecimentos. O estado também teve o maior crescimento absoluto em 2025, com 25 cervejarias a mais e alta de 5,9%.
O Rio Grande do Sul aparece em segundo lugar, com 325 cervejarias, mas registrou a maior queda absoluta: 24 estabelecimentos a menos, recuo de 6,9%. Santa Catarina, Minas Gerais e Paraná completam o grupo dos cinco estados com maior número de cervejarias.
A região Sudeste reúne 923 cervejarias, o equivalente a 47,2% do total nacional. Foi também a única região com variação positiva em 2025. O Sul aparece em seguida, com 759 estabelecimentos, ou 38,8% do total.
Cancelamentos avançam e pressionam o saldo nacional
O anuário registra 158 cancelamentos ou vencimentos de registros em 2025, em 113 municípios e 20 unidades da federação. O número é 42,3% maior que o de 2024, quando foram 111 ocorrências.
O Rio Grande do Sul liderou esse movimento, com 36 ocorrências, o equivalente a 22,8% do total nacional. São Paulo veio logo depois, com 34 cancelamentos ou vencimentos, mesmo tendo encerrado o ano com saldo positivo no número de estabelecimentos.
Esse contraste ajuda a explicar o cenário de 2025. O setor não parou de crescer, mas passou a conviver com maior rotatividade de registros, especialmente em mercados maduros e com maior concentração de cervejarias.
O Brasil encerrou 2025 com 44.212 cervejas registradas, alta de 2,4% sobre o ano anterior. O avanço representa 1.036 registros a mais e marca a retomada do crescimento depois da queda observada em 2024.
São Paulo também lidera esse indicador, com 13.240 produtos registrados. O estado teve aumento de 3,4%, equivalente a 437 novos registros. O Distrito Federal apresentou a maior média de produtos por estabelecimento, com 31,6 cervejas por cervejaria.
O país também contabilizou 56.170 marcas nos registros de cerveja, alta de 2,1%. São Paulo concentra 17.651 marcas, enquanto o Paraná apresentou o maior crescimento absoluto, com 613 marcas a mais em relação a 2024.
Cidades mostram força de polos cervejeiros
A cidade de São Paulo lidera em número de produtos registrados, com 2.228 cervejas, o equivalente a 16,8% do total do estado. Porto Alegre aparece em seguida, com 1.392, e Nova Lima, em Minas Gerais, ocupa a terceira posição, com 1.268.
O anuário também chama atenção para Várzea Paulista, no interior de São Paulo. O município tem 539 produtos registrados em uma única cervejaria, situação associada ao modelo de produção conhecido como cervejaria cigana, em que marcas sem fábrica própria produzem em plantas registradas de terceiros.
Exportação rende mais, mesmo com menor volume
As exportações brasileiras de cerveja somaram 315,5 milhões de litros em 2025, queda de 5,1% em relação a 2024. Apesar do recuo em volume, o faturamento externo chegou a US$ 218,4 milhões, alta de 6,9% e maior valor da série histórica.
O preço médio da cerveja exportada subiu de US$ 0,61 por litro em 2024 para US$ 0,69 por litro em 2025. O avanço representa valorização aproximada de 13% no preço médio do produto vendido ao exterior.
O Paraguai continuou como principal destino da cerveja brasileira. O país comprou 196,5 milhões de litros, o equivalente a 62,3% do volume exportado pelo Brasil. A América do Sul respondeu por 98,5% do volume exportado, reforçando o peso dos países vizinhos no comércio externo do setor.
Importação dispara em volume, mas não em valor
As importações tiveram comportamento oposto. O volume comprado pelo Brasil subiu 251,4%, passando de 7,5 milhões de litros em 2024 para 26,3 milhões de litros em 2025. O valor, porém, avançou apenas 1,7%, para US$ 9,4 milhões.
Com isso, o preço médio da cerveja importada caiu para US$ 0,36 por litro, o menor valor da série histórica. O Brasil importou cerveja de 22 países, um a mais que em 2024.
Mesmo com a alta das importações em volume, a balança comercial brasileira da cerveja teve superávit de US$ 195 milhões em 2025. Foi o maior resultado positivo do período analisado e representou crescimento de 7,1% ante o ano anterior.

Produção cai, mas permanece em patamar bilionário
A produção declarada pelas cervejarias registradas no Mapa alcançou 15,688 bilhões de litros em 2025. O volume representa queda de 8,85% em relação a 2024, quando a produção declarada foi de 17,211 bilhões de litros.
A região Sudeste concentrou 8,168 bilhões de litros, ou 52,1% da produção nacional. O Nordeste apareceu em segundo lugar, com 3,802 bilhões de litros, seguido pelo Sul, com 2,448 bilhões de litros. Todas as regiões tiveram redução no volume produzido.
O Norte teve o menor volume declarado, com 215,7 milhões de litros, ou 1,4% da produção brasileira. O dado confirma a distância entre a presença territorial das cervejarias e a concentração industrial do volume produzido.
Empregos diretos recuam no segmento cervejeiro
O setor de bebidas como um todo superou 143 mil empregos diretos em 2025, alta de 1,27%. A fabricação de bebidas alcoólicas, porém, caiu 1,34%, para 59.765 postos.
No segmento de fabricação de cerveja e chope, o estoque foi de 41.305 empregos diretos, queda de 2,72%. Já a fabricação de malte, cerveja e chopes somou 41.976 empregos, recuo de 2,67%.
O Sudeste concentrou 24.358 postos, ou 58,86% dos empregos do setor cervejeiro. Nordeste, Sul, Centro-Oeste e Norte também registraram redução, segundo o levantamento baseado no Novo Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Novo Caged).
Cervejarias ciganas aparecem na produção, mas não no registro
O anuário diferencia as fábricas registradas no Mapa das chamadas cervejarias ciganas. Esse modelo envolve marcas que não têm instalações próprias e produzem em plantas industriais de terceiros, devidamente registradas.
Em 2025, foram identificados 280 ciganos que produziram cerveja em estabelecimentos registrados. Eles estavam distribuídos em 17 unidades da federação. São Paulo liderou, com 99. O volume declarado nesse modelo foi de 36,9 milhões de litros.
A distinção é relevante para interpretar os números. As cervejarias ciganas ampliam a diversidade de marcas e produtos, mas não entram na estatística de estabelecimentos registrados porque não possuem estrutura fabril própria.
Dependência de insumos importados segue elevada
A produção brasileira de cerveja também revela forte dependência de insumos externos. O anuário informa que o lúpulo de origem internacional foi usado em 99,71% do volume total produzido em 2025.
Esse dado mostra que a cadeia cervejeira nacional combina ampla base industrial, presença regional e forte conexão com fornecedores internacionais. A dependência de insumos de fora do país pode afetar custos, planejamento de produção e competitividade, sobretudo em períodos de variação cambial.
Mapas reforçam concentração no Sul e Sudeste
A edição de 2026 incluiu uma coletânea de mapas feita em parceria entre o Mapa, a Câmara Setorial da Cerveja e a Embrapa Territorial. Os mapas mostram a distribuição espacial das cervejarias no país e detalham os cinco estados com mais estabelecimentos registrados: São Paulo, Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Minas Gerais e Paraná.
A leitura visual reforça os dados das tabelas: o setor é nacional, mas ainda se concentra principalmente no Sul e no Sudeste. Essas regiões reúnem a maior parte das fábricas, dos produtos registrados, dos empregos e do volume de produção.

Setor entra em fase de ajuste
Os dados de 2025 indicam que o mercado brasileiro de cerveja não está em retração uniforme. O quadro é mais complexo. Há crescimento em produtos, marcas, valor exportado e superávit comercial. Mas há também perda de ritmo em novos estabelecimentos, queda de produção declarada e redução de empregos diretos.
A combinação sugere um setor em fase de ajuste. A expansão rápida dos anos anteriores deu lugar a um ambiente de maior seletividade, com concentração regional, aumento de encerramentos de registros e busca por maior valor nas exportações.
O resultado mais favorável aparece no comércio exterior. Mesmo exportando menos litros, o Brasil recebeu mais dólares pela cerveja vendida ao exterior. Esse movimento indica ganho de preço médio e fortalece a balança comercial.
No mercado interno, o avanço dos registros de produtos e marcas mostra que a diversidade continua crescendo. A desaceleração no número de cervejarias, porém, aponta para um mercado mais maduro, no qual a sobrevivência das empresas depende cada vez mais de escala, eficiência, posicionamento e regularidade.

