
O relatório Rotas para o Nordeste: Produtividade, Empregos e Inclusão, do Banco Mundial, sustenta que o Nordeste pode crescer mais rápido e reduzir sua distância econômica e social em relação às regiões mais ricas do país, mas afirma que isso exigirá uma mudança de estratégia. A avaliação aponta que o modelo recente, apoiado sobretudo na agricultura, já não basta para acelerar a convergência regional.
Segundo o documento, a saída passa por um pacote de medidas concentrado em três frentes: aumentar a produtividade das empresas, mobilizar melhor o capital humano e modernizar a infraestrutura, com foco em conectividade física e digital. O relatório também dá ênfase especial a uma reorientação das políticas públicas, com menos subsídios ineficientes e mais competitividade, inovação e coordenação regional.
O diagnóstico do Banco Mundial mostra que o Nordeste continua sendo a região de menor PIB per capita do Brasil e que a convergência econômica desacelerou. Entre 2010 e 2022, o crescimento real do PIB per capita nordestino foi de 0,9% ao ano, bem abaixo dos 3,2% registrados na década anterior. O relatório afirma que, nesse ritmo, a aproximação com as regiões mais desenvolvidas seguirá lenta.
A análise observa que a agricultura respondeu por boa parte do avanço recente, mesmo com as limitações climáticas da região. Mas pondera que esse motor tem alcance restrito. Em 2021, a agricultura representava 9% da economia regional e 14,3% dos empregos, o que reduz sua capacidade de sustentar, sozinha, um salto mais amplo na renda e no mercado de trabalho.
Para os autores, o desafio central é fazer com que indústria e serviços, que concentram a maior parte dos empregos, passem a liderar uma nova etapa do crescimento. O relatório afirma que a produtividade nesses dois setores avançou pouco, o que trava a geração de vagas mais qualificadas e reduz as chances de mobilidade social.
A principal mudança sugerida
O ponto mais forte das recomendações está no capítulo sobre empresas. O relatório sustenta que o Nordeste precisa abandonar gradualmente a lógica da guerra fiscal e substituir incentivos tributários discricionários por políticas voltadas ao aumento da produtividade e da inovação. A avaliação é que os subsídios fiscais e de crédito, além de caros, não conseguiram produzir um ambiente empresarial suficientemente dinâmico.
Na prática, a proposta é redirecionar o esforço público para medidas que melhorem o ambiente de negócios. O texto cita a reforma tributária em andamento como uma oportunidade para encerrar esse modelo e começar a investir na competitividade estrutural das empresas nordestinas. O novo fundo de desenvolvimento regional, segundo o relatório, pode servir de base financeira para essa transição.
A recomendação é relevante porque o próprio diagnóstico do Banco Mundial mostra que as empresas da região são, em média, menos produtivas, enfrentam menor concorrência, entram mais lentamente no mercado e vêm encolhendo em receita e emprego. O relatório também afirma que as manufaturas nordestinas seguem menos integradas às cadeias comerciais do que as de outras regiões.
Outro eixo central das sugestões trata do crédito. O documento diz que a alocação atual de recursos pode estar distorcendo a concorrência e reduzindo a eficiência. Por isso, recomenda, em cooperação com autoridades federais, a reforma dos critérios de alocação do Fundo Constitucional de Financiamento do Nordeste, o FNE.
O relatório defende ainda a diversificação das fontes de financiamento, para reduzir a dependência excessiva do fundo, além do fortalecimento da gestão de risco de crédito. Também recomenda ampliar a competição no setor financeiro com a entrada de novos agentes, inclusive fintechs, uso ampliado do Pix, adoção de sandboxes regulatórios e apoio a plataformas digitais de crédito para micro, pequenas e médias empresas.
A lógica é simples: crédito melhor distribuído e ambiente financeiro mais competitivo tenderiam a favorecer firmas mais eficientes, estimular inovação e reduzir barreiras para quem quer empreender ou crescer.
O relatório também atribui parte do baixo dinamismo regional ao alto custo de fazer negócios. Entre as ações recomendadas estão a simplificação e harmonização das regras estaduais e municipais, a criação de uma entidade de coordenação em cada estado nordestino e a implantação de portais digitais de acesso único para concentrar informações sobre licenças, alvarás, taxas, prazos e exigências.
A proposta inclui ainda a promoção de aprendizagem entre estados da própria região para replicar experiências bem-sucedidas. A avaliação do Banco Mundial é que uma governança regulatória mais uniforme pode reduzir incertezas, acelerar investimentos e facilitar a entrada de novas empresas.
Uma das teses mais fortes do documento é que o Nordeste precisa ir além de sua estratégia baseada na agricultura e fortalecer ativamente a manufatura e os serviços. O texto afirma que a região vive um processo de “terciarização improdutiva”, em que trabalhadores migram para atividades de serviços com baixa produtividade, sem ganhos sustentados de renda.
Para mudar esse quadro, o relatório propõe uma “lente dupla” sobre serviços e indústria, combinando melhora das capacidades empresariais, qualificação da mão de obra e maior eficiência das políticas de infraestrutura. A ideia é usar os ganhos já produzidos pela agricultura como impulso inicial, mas deslocar o centro da estratégia para setores urbanos de maior valor agregado.
Energia renovável, economia verde e digitalização
O documento aponta que o Nordeste reúne condições para se tornar um polo de economia verde e de transformação digital. Entre as vantagens citadas estão a força de trabalho jovem, a posição estratégica para conectividade internacional de internet, os custos operacionais inferiores aos do Sudeste e, sobretudo, a abundância de energia renovável.
O relatório destaca que a região já responde por 91% da produção eólica e 42% da produção solar do país, além de ter peso crescente em projetos ligados ao hidrogênio verde. Para os autores, esse conjunto de ativos pode atrair indústrias verdes, data centers, bioeconomia e serviços modernos, desde que haja políticas industriais e de inovação orientadas para esse potencial.
A recomendação, portanto, não é apenas crescer mais, mas crescer apoiado em vantagens em que o Nordeste já aparece bem posicionado.
No campo do trabalho, o relatório reconhece avanços em escolaridade, mas afirma que a região ainda enfrenta dificuldade para converter esse capital humano em melhores salários e trajetórias ocupacionais. A razão, segundo o texto, é a combinação de fraca demanda por trabalho, baixo dinamismo empresarial, informalidade elevada e desalinhamento entre formação e vagas disponíveis.
As recomendações nessa área são amplas. O relatório sugere expandir programas de educação e formação profissional voltados a trabalhadores de baixa renda, afro-brasileiros, informais e outros grupos vulneráveis, com ênfase em áreas onde já existe demanda não atendida por mão de obra qualificada, como tecnologia da informação e energia renovável.
Também propõe modernizar e integrar melhor o Sistema Nacional de Emprego, o Sine, a políticas de assistência social, educação e trabalho. A intenção é melhorar o encontro entre trabalhadores e oportunidades, dentro e fora da região.
Mulheres, informalidade e migração
O relatório recomenda políticas específicas para elevar a participação feminina no mercado de trabalho. Entre elas estão a ampliação do acesso a programas de cuidados infantis, apoio à família, garantia de igualdade salarial e combate à discriminação no ambiente laboral.
No caso da informalidade, o texto sugere apoiar a criação de empregos formais em novas atividades, facilitar a migração de trabalhadores rurais para áreas urbanas por meio de moradia acessível, transporte e colocação profissional, além de usar melhor os dados de beneficiários de programas sociais para desenhar políticas direcionadas.
A mensagem central é que crescimento sem inclusão no mercado de trabalho tende a manter a baixa mobilidade social. O relatório ressalta que o Nordeste tem os piores indicadores de mobilidade intergeracional de renda do país, o que significa que a renda dos pais continua pesando demais sobre o futuro dos filhos.
Na infraestrutura, o Banco Mundial afirma que o problema do Nordeste não é só falta de dinheiro, mas também má alocação, planejamento frágil e baixa capacidade de execução. O relatório diz que a conectividade rodoviária e ferroviária segue limitada, a infraestrutura digital é insuficiente e muitos investimentos públicos ainda sofrem com paralisações e baixa coordenação.
A agenda proposta se organiza em três frentes: priorização, planejamento e participação do setor privado. Na prática, isso significa concentrar recursos em obras com maior efeito sobre produtividade e integração regional, adotar sistemas modernos de gestão do investimento público e ampliar o uso de parcerias público-privadas, as PPPs, e concessões.
Entre os exemplos citados estão estudos de viabilidade para PPPs e concessões em trechos das rodovias BR-101 e BR-116, além de estímulo a uma rede logística mais equilibrada, com expansão e conexão sustentável de ferrovias, hidrovias e portos. O relatório menciona também a necessidade de ampliar a conectividade digital e melhorar a qualidade dos serviços nessa área.
O relatório vai além das recomendações e apresenta uma simulação de impacto. Segundo a modelagem citada no capítulo de infraestrutura, cenários com investimentos mais eficientes e coordenados poderiam elevar a renda mediana em até 14,26%, a renda média em 15,38% e o bem-estar em 17,11%. Mesmo um cenário intermediário de eficiência e coordenação produziria ganhos relevantes.
A conclusão do documento é que não basta investir mais. É preciso investir melhor, conectando projetos, reduzindo desperdícios e escolhendo obras com maior capacidade de espalhar ganhos pela economia regional.
