
O Brasil entra em uma nova fase de instabilidade climática, marcada pela chegada de frentes frias mais intensas, pelo avanço da estiagem em algumas regiões e pela possibilidade de formação de um novo El Niño.
Especialistas apontam que a sucessão de eventos extremos já afeta o abastecimento de água, a infraestrutura das cidades e a rotina da população.
Nas últimas semanas, municípios do Sul e do Sudeste registraram quedas expressivas de temperatura. Em São Paulo, a estação do Mirante de Santana apontou 9,4°C, o menor índice para o começo de maio em 37 anos. Campinas, no interior paulista, chegou a 8,3°C.
Em São Joaquim, em Santa Catarina, a temperatura caiu para -4,61°C, menor marca registrada no país em 2026, conforme dados do Instituto Nacional de Meteorologia, o Inmet.
A massa de ar polar também provocou geadas e marcas próximas de 2°C em cidades do Paraná. Em áreas do Centro-Sul, ventos fortes aumentaram a sensação de frio.
Tempo seco avança em parte do país
Enquanto o frio avançava, regiões do interior de São Paulo e do oeste e norte de Minas Gerais passaram a registrar umidade relativa do ar em níveis críticos, perto de 26%. O cenário indica o início do período seco, típico desta fase do ano.
No Norte e no Nordeste, a situação é diferente. Chuvas acima da média histórica causaram alagamentos e transtornos urbanos em estados como Pará, Amazonas, Pernambuco e Alagoas. Em Belém, acumulados superiores a 100 milímetros levaram áreas da cidade a estado de emergência.
A chegada da estação seca eleva a preocupação com o abastecimento de água. Depois de um período chuvoso irregular, sistemas importantes de armazenamento começam a estiagem em situação mais vulnerável.
O Sistema Cantareira, que abastece milhares de pessoas na Região Metropolitana de São Paulo, opera com cerca de 40% da capacidade. No mesmo período de 2025, o índice era de 58%. Com a redução natural das chuvas nos próximos meses, a pressão sobre os reservatórios tende a crescer.
A menor disponibilidade de água, somada à oscilação das temperaturas e à ocorrência de eventos extremos, pode provocar impactos diretos nas cidades. Entre eles estão queda na pressão da rede, necessidade de controle do consumo, efeitos sobre a produção de alimentos, geração de energia e funcionamento dos ecossistemas.
“A estiagem não impacta apenas os níveis dos reservatórios, mas todo o funcionamento das cidades e dos ecossistemas. Quando há menos água disponível, os efeitos aparecem no abastecimento, na produção de alimentos e até na geração de energia. A atuação de fenômenos como o El Niño pode intensificar essa irregularidade, tornando o cenário ainda mais desafiador”, afirma André Ferretti, gerente de Economia da Biodiversidade da Fundação Grupo Boticário e membro da Rede de Especialistas em Conservação da Natureza, a RECN.
Eventos extremos crescem no Brasil
Um estudo apresentado pela Aliança Brasileira pela Cultura Oceânica durante a COP30, em Belém, em 2025, apontou aumento expressivo de desastres ligados a ciclones, frentes frias e ondas de frio no país.
Entre 1991 e 2024, foram contabilizados 407 desastres associados a esses fenômenos. Nos últimos quatro anos, a média anual passou de 2,3 para 44 ocorrências, alta de 1.800% em comparação com a década de 1990.
As ondas de frio correspondem a 54% dos registros. Esses episódios costumam ocorrer junto com chuvas fortes, ventos intensos e prejuízos à infraestrutura.
Segundo o estudo, mais de 1 milhão de pessoas foram afetadas por esses eventos nas últimas décadas.
Especialistas afirmam que o aquecimento global interfere na dinâmica da atmosfera e dos oceanos. Essa mudança pode intensificar extremos climáticos mesmo em épocas tradicionalmente mais frias.
O El Niño é um fenômeno climático natural que acontece quando as águas do Oceano Pacífico Equatorial ficam mais quentes do que o normal por vários meses.
Pense no oceano como uma grande “fonte de calor” para a atmosfera. Quando essa parte do Pacífico esquenta além do esperado, ela muda a circulação dos ventos e das chuvas em várias regiões do planeta. Por isso, o El Niño pode alterar o clima mesmo em lugares muito distantes do oceano onde ele se forma.
No Brasil, os efeitos mais comuns são: Sul: costuma ter mais chuva, com maior risco de temporais, enchentes e alagamentos. ]
Norte e Nordeste: pode haver redução das chuvas, aumentando o risco de seca.
Sudeste e Centro-Oeste: os efeitos variam, mas podem incluir calor mais intenso, mudanças no regime de chuvas e períodos de tempo mais seco. O
El Niño não significa que fará calor todos os dias nem que todos os lugares terão seca ou chuva extrema. Ele aumenta a chance de certos padrões climáticos acontecerem.
Também existe o fenômeno oposto, chamado La Niña, quando as águas do Pacífico Equatorial ficam mais frias do que o normal. Ela costuma provocar efeitos diferentes no clima.

