
Em depoimento à CPI do Crime Organizado nesta quarta-feira (8 de abril), o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, afirmou que não tratou com o Supremo Tribunal Federal da situação do Banco Master e disse que não havia base técnica para interromper as atividades da instituição antes do fim de 2025.
Durante a oitiva, Galípolo também apontou inconsistências nas operações do Banco Master. Segundo ele, a fiscalização identificou dificuldades para comprovar ativos apresentados pela instituição, o que reforçou a necessidade de análise técnica sobre o caso.
O presidente do Banco Central declarou ainda que não atuou pessoalmente em favor do banco nem no Supremo nem no Palácio do Planalto. Ele explicou que, ao ser informado sobre a situação, encaminhou o tema ao diretor responsável no BC, que tratou o processo dentro dos procedimentos considerados normais pela autarquia.
Galípolo confirmou ter participado, em dezembro de 2024, de uma reunião no Palácio do Planalto com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, o ex-controlador do Master, Daniel Vorcaro, e ministros. De acordo com ele, a orientação recebida foi para agir com base em critérios estritamente técnicos, sem proteção ou perseguição a qualquer envolvido.
Segundo o presidente do BC, na ocasião circulava a narrativa de que o Banco Master estaria sendo alvo de perseguição do mercado financeiro por adotar métodos inovadores. Ele afirmou, no entanto, que essa leitura não era compatível com o porte da instituição, responsável por 0,5% dos ativos do sistema financeiro.
O depoimento foi prestado a partir de requerimento do senador Eduardo Girão (Novo-CE). Durante a sessão, o relator da CPI, senador Alessandro Vieira (MDB-SE), questionou Galípolo sobre eventual interlocução com ministros do Supremo a respeito do banco, citando contrato de prestação de serviços entre a instituição e o escritório de advocacia da família do ministro Alexandre de Moraes.
Ao responder, Galípolo afirmou que se reuniu com ministros do STF para tratar de desdobramentos da Lei Magnitsky, dos Estados Unidos, aplicada contra Moraes em julho de 2025. Segundo ele, o tema Banco Master não fez parte dessas conversas. Também negou ter mantido seis contatos telefônicos com o ministro, afirmando que todas as reuniões ocorreram presencialmente.
O presidente do Banco Central declarou ainda que tem obrigação de preservar o sigilo sobre qualquer movimentação de ministros que tenham buscado diálogo com ele, mas reiterou que nenhum processo relacionado ao caso apresentado na CPI foi discutido nesses encontros.
O presidente da comissão, senador Fabiano Contarato (PT-ES), questionou por que a liquidação do Banco Master não ocorreu antes de novembro de 2025. Ao responder, Galípolo disse que uma medida antecipada poderia reforçar a narrativa de perseguição contra a instituição e observou que nem o Tribunal de Contas da União, que tem dois processos ligados ao caso, concluiu se a liquidação ocorreu com atraso ou no momento adequado.
Galípolo ressaltou que assumiu a presidência do Banco Central em 2025 e que foi necessário cumprir todos os ritos investigativos antes de qualquer decisão. Para ele, esse procedimento era necessário para dar sustentação técnica às medidas adotadas.
Segundo o presidente do BC, os primeiros alertas sobre o Banco Master surgiram a partir de mecanismos considerados atípicos usados para pagar investidores no vencimento de títulos financeiros. Ele afirmou que o banco comprava novos ativos para revendê-los com valores superfaturados, numa dinâmica que levantou suspeitas durante a fiscalização.
Galípolo também defendeu maior autonomia orçamentária para o Banco Central. Na avaliação dele, o fortalecimento da estrutura da autarquia é necessário para ampliar a capacidade de supervisão do sistema financeiro e o combate à lavagem de dinheiro.
